quinta-feira, abril 16, 2026


Pierce

Subterrâneo das Ruínas de Alph, Johto

Segunda-feira, 16 de maio, ano 30 (Era Tōitsu)


Pierce tinha memórias vívidas dos corredores da Kawazuzakura Junior High.

Como aluno transferido de Galar, ele havia sido motivo de burburinho naqueles corredores: o garoto estrangeiro com o sotaque estranho e maneirismos exóticos naquela escola secundária em Cherrygrove. No início, mal conseguia acompanhar as aulas. As palavras homófonas o confundiam o tempo todo, e ele tropeçava nas próprias frases ao tentar falar. Até conversas simples o faziam suar. Era exaustivo.

Ele não pisava em Johto desde os cinco anos, quando seus pais se mudaram para Galar. Voltar havia parecido como aterrissar em outro planeta. Depois de quase sete anos vivendo em Hammerlocke, suas memórias de Johto haviam se tornado imagens embaçadas, impressões meio formadas que não combinavam com a realidade que encontrou ao retornar. E aquele retorno não foi gentil. Aconteceu pouco tempo depois do capítulo mais sombrio de suas vidas quando sua mãe escolheu divorciar-se de Mark.

Em muitos aspectos, ele não reconhecia mais a terra que deveria ser seu lar e pior, ela também parecia não reconhecê-lo.

E então havia sua nova família.

Edward, seu padrasto, tinha sido gentil desde o início. Solidário, calmo e respeitoso de um jeito que Pierce não esperava de alguém que entrou tão de repente em sua vida. A princípio, ele resistiu. Era difícil não comparar Edward com Mark, que agora apodrecia na prisão após ser pego pela Hammerlocke Yard em uma operação policial. Mas Edward nunca forçou nada, nunca tentou substituir Mark. Ele apenas... permaneceu. Firme. Paciente. E, com o tempo, Pierce passou a admirá-lo.

Luca, o filho de Edward, era outra história. Um ano e meio mais novo, cheio de energia e sarcasmo afiado, Luca era um furacão de opiniões e barulho. No começo, Pierce não o suportava. O garoto era barulhento, intrometido e vivia tentando arrastá-lo para fazer alguma coisa. Mas, estranhamente, Pierce se pegava rindo mais quando Luca estava por perto. Ele era irritante, sim, mas também engraçado e genuíno de um jeito que poucas pessoas eram.

Pierce nunca disse isso em voz alta, mas alguns dos seus dias mais solitários naquele primeiro semestre teriam sido insuportáveis sem Luca invadindo seu quarto para mostrar um meme idiota ou arrastá-lo até o parque para andar de skate. Pierce não era tão bom quanto Luca no skate, mas, em compensação, foi ele quem ensinou o garoto a jogar beisebol.

Agora, ao caminhar por esses corredores novamente, recriados pelo estranho e ilusório poder dos Unown, Pierce sentia uma pontada de nostalgia... e também de medo. Foi na Kawazuzakura que ele viveu alguns dos seus piores dias.

Havia uma tensão no ar, uma rigidez que não pertencia a uma escola de verdade. Algo estava fora do lugar. As paredes estavam limpas demais. O chão, brilhando demais. Os armários, dispostos em simetria perfeita, não tinham os amassados, arranhões e adesivos que lhes davam personalidade. Era como caminhar dentro de uma memória cuidadosamente preservada, perfeita demais para ser real.

Ao lado de seus amigos, ele seguiu pelo corredor com cautela. No canto dos olhos, pôde ver um ou dois Unown flutuando em silêncio, seus olhos ciclópicos encarando-o antes de desaparecer de novo na ilusão.

Memórias disparavam pelas sinapses de Pierce enquanto ele revivia fragmentos daquele semestre, seu primeiro e último na Kawazuzakura. E como tudo terminara... com ele sendo expulso.

Ele lançou um olhar a Aleks, e se lembrou de como ele era quando tinha treze anos, e Pierce, doze.

Naquela época, Aleks não tingia o cabelo de loiro. Era castanho-chocolate, curto, que combinava com seus olhos lavanda. Ele era o xodó da Kawazuzakura: astro do time de basquete, inteligente, popular, carismático, crush de todas as meninas da escola. Ele poderia ter ficado com qualquer garota da escola, e ainda assim... por algum motivo, escolheu passar tempo com o garoto estrangeiro que mal conseguia montar uma frase inteira em kanto-johtoniano sem escorregar para o galariano.

Isso tinha sido há quase três anos atrás. Pierce completaria quinze em um mês. Aleks tinha dezesseis agora.

E eles já não eram mais amigos.

Pierce caminhava alguns passos à frente dos outros, com as mãos enfiadas nos bolsos da jaqueta, o olhar passeando de porta em porta enquanto passavam. Cada corredor, cada passo rangendo, despertava ecos antigos em sua mente, alguns mais claros que outros. Ele não percebia o quanto aquele lugar havia ficado com ele, enterrado sob anos tentando esquecer.

Atrás dele, passos arrastados. Aleks estava quieto.

Só isso já dizia a Pierce que algo estava errado. Aleks nunca ficava quieto, a não ser que estivesse desconfortável.

Eles passaram perto do laboratório, onde Pierce tinha explodido acidentalmente um béquer durante uma aula de ciências. A mancha preta no teto que costumava fazer todo mundo rir havia sumido. A sala parecia perfeita agora. Como se nunca tivesse sido tocada. Mais um sinal de que aquilo não era real.

Ele diminuiu o passo.

— Você lembra do Dia dos Namorados? — Pierce perguntou baixinho, sem olhar para trás.

— Difícil esquecer. — Aleks soltou um som baixo. — Eu nem conseguia abrir meu armário. Tinham umas... trinta caixas de chocolate entulhadas lá dentro.

Pierce deu um sorriso discreto.

— Quarenta e duas. Eu contei.

Aleks riu.

— Com ciúmes?

Pierce deu de ombros.

— Nem um pouco. Eu nem gostava de doces naquela época. E a garota que me deu alguns só queria saber se eu conhecia os meninos do One D…

— Oh, aquela boy band, — Aleks interrompeu. — Lembro. As músicas deles eram tão melosas. Uma pena que tenham acabado.

— Você não pode falar muito sobre músicas melosas, né? — ri Pierce. — Agora que você é um idol e tal.

Touché — Aleks disse com um sorriso torto. Depois, a voz ficou mais baixa. — Eu sei que nada do que eu diga pode consertar o que eu fiz com você. Mas... eu ainda me arrependo. Todo dia. Eu estou…

— Por favor, não. — A voz de Pierce estava mais firme do que queria. Ele evitou o olhar de Aleks e olhou para Lyra e os outros, que caminhavam alguns passos mais atrás. — Você não pode consertar o que já está quebrado, Aleksey. Você era meu melhor amigo. E então... eu me abri com você. Falei algo que nunca tinha dito em voz alta. E, na hora seguinte, toda a escola já sabia que meu pai era um criminoso. Que ele foi preso por tráfico. E todo mundo achava que eu estava envolvido também.

— Eu não queria que isso acontecesse…

— Cala a boca, Aleksey, — Pierce disse, com a voz entalada na traqueia. — Não tenta aliviar para você. Eu quero te perdoar, eu tento perdoar, mas eu não sei se posso confiar em você de novo. Não depois de tudo que aconteceu…

O corredor ficou silencioso novamente.

— Me desculpa, Aleksey, mas não sei quando eu vou poder te perdoar — Pierce comenta uma última vez antes de desacelerar os passos para que Lyra e os demais pudesse alcançá-los.

Aleks olhou para ele embasbacado e assentiu com cabeça. Ele sabia que tinha fodido com tudo e que não havia nada que ele fizesse que pudesse reparar o que aconteceu. Ele sentiu o estômago embrulhar.

— O que estavam conversando? — perguntou Lyra, alheia, encarando-o.

Pierce sabia que ela gostava de Aleks enquanto um idol que ela não conhecia o Aleks de verdade, tanto ela quanto Ren idealizavam um Aleks que sequer conheciam.

— Só… lembranças de escola — ele diz. — Eu costumava estudar aqui no secundário até… até ser expulso, mas isso não vem ao caso. Temos que achar o Ren-ren, meu irmão e os outros.

Eles continuaram pelo corredor, as luzes fluorescentes piscando suavemente acima deles. Mas a cada passo, a sensação sufocante de déjà vu apertava mais no peito. O ar estava estranhamente parado: sem conversas distantes, sem armários batendo, sem ecos de passos de outros estudantes. Apenas o som oco dos próprios sapatos deles contra o piso de granito e o suave farfalhar das roupas.

Cada corredor os levava de volta ao mesmo cruzamento. A mesma porta de sala de aula, sempre entreaberta. O mesmo cartaz torto do “Festival da Primavera”, com a borda amassada. A mesma lixeira transbordando, cheia de papeis amassados e embalagens que nunca pareciam mudar.

Kousei parou de repente, estreitando os olhos enquanto vasculhava o corredor novamente.

— Já passamos por aqui antes. Pelo menos três vezes. Tenho certeza.

— Quatro — corrigiu Orion, passando a mão pelos cabelos loiros bagunçados, uma frustração surgindo no rosto. Ele pressionou as têmporas, como se tentasse aliviar uma pressão invisível. — Isso não é só uma ilusão. É como uma armadilha. Uma bolha de memória ou talvez um loop. É como andar numa fita de Möbius.

Lyra inclinou a cabeça, claramente confusa.

— Uma fita de quê?

Orion deu um meio sorriso, daquele tipo que se dá quando se tenta explicar algo que nem se entende direito.

— É uma forma com uma única superfície e uma única borda, tipo um loop infinito que se dobra sobre si mesmo. Imagine andar num caminho e acabar no ponto de partida, mas de cabeça pra baixo, sem perceber.

Lyra piscou, depois assentiu lentamente.

— Parece um daqueles pesadelos em que você corre, mas nunca chega na saída.

— Ou um daqueles sonhos onde você fica caindo para sempre — diz Kousei.

— É um jeito de encarar isso — Orion deu de ombros. — Só que sem termos nerds.

Pierce, andando um pouco atrás, apertou os punhos, olhando as paredes riscadas e a tinta descascando.

— Esse lugar… — murmurou Pierce, com a voz áspera e baixa. — Estamos presos numa memória. Pode ser minha. Pode ser do Aleks. Nós dois estudamos aqui no fundamental, então…

Aleks se remexeu ao lado dele, visivelmente desconfortável. Os ombros rígidos, o olhar fixo no chão. Ele evitava olhar para Pierce. Não conseguia.

— Mas de quem é a memória, afinal? — perguntou Orion, encarando os olhos avermelhados de Pierce. — Sua ou dele?

Pierce balançou a cabeça, os lábios cerrados numa linha tensa.

— Não sei. Pode ser qualquer um de nós dois — disse ele encarando o corredor. — Os dois temos história aqui. Eu não queria ter que voltar aqui.

Ele lançou um olhar pelo corredor infinito, a tinta descascada nas paredes, os cartazes desbotados, o eco de passos pesados e distantes. Talvez fosse apenas imaginação de Pierce o som dos passos, eles já tinham andado tanto por aquele corredor-fita de Möbius que sua mente poderia estar pregando-o peças.

— E ainda tô com raiva de você, — disse, virando um pouco na direção de Aleks. — Eu quero seguir em frente. Sério. Mas não dá pra… simplesmente virar uma chavinha e desligar tudo e fingir que você não destruiu a minha vida. Eu não confio mais em você. Não dá. Eu tento, mas não dá.

Sua voz falhou no fim. O rosto queimava, envergonhado e furioso, um turbilhão de sentimentos que ele mal conseguia controlar. Aleks ficou em silêncio, os olhos presos no chão como se esperasse uma resposta dali.

— Eu sei… — murmurou Aleks, por fim. — Você não precisa me perdoar. Nem espero isso. Eu fui um pau no cu. Eu sei disso.

O silêncio que se instalou entre eles era espesso, frágil. Até Lyra o rompeu, com a voz mais ríspida que o habitual.

— O que exatamente aconteceu entre vocês? — perguntou. Os olhos iam de um para o outro. — Porque, de fora, parece uma granada prestes a explodir. Vocês dois são tipo um Meowth e um Growlithe na garganta um do outro. Mal conseguem dividir o mesmo espaço. O que rolou naquela época?

Nenhum deles respondeu de imediato.

Pierce nunca tinha contado a história completa para Lyra. Nem para Ren, seu melhor amigo. Provavelmente só Luca, seu irmão, sabia de tudo, por ter testemunhado o colapso de perto. A expulsão. O processo judicial que a mãe deles abriu contra a escola. As noites em que Pierce chorava até não conseguir respirar.

E, claro, foi nesse momento que Orion resolveu abrir a boca.

— É, eu também queria saber. Porque, sendo bem honesto? Tem uma tensão homo-romântica mal resolvida entre vocês dois que dá pra cortar com faca. — Ele se inclinou para a frente, com um sorrisinho debochado. — Tipo quando o loirinho aqui  se afogou no rio subterrâneo, e você teve que dar respiração boca a boca. A cara que você fez, mano… HI-LÁ-RI-A.

— Espera, o quê?! — Kousei se virou tão rápido que quase tropeçou. — É sério isso?!

— Ai, pelo amor de Arceus! — exclamou Lyra, tapando o rosto com as mãos como uma fangirl em pânico. — Eu preciso contar isso pro Ren! Ele vai surtar!

Os olhos de Pierce se arregalaram, puro pavor estampado no rosto. Aleks ficou vermelho como uma Tamato Berry madura, encarando o chão como se quisesse desaparecer.

— Você tá morto pra mim, Orion Wehrii, — rosnou Pierce, cerrando os dentes. — Eu te avisei pra nunca contar isso!

Orion deu de ombros, ostentando seu sorriso cínico.

— Ah, qualé! Aquilo foi muito gay. Tipo, intensamente gay. Totalmente dorama. — Ele fez uma pausa teatral, levando um dedo ao queixo. — Eu pessoalmente não curto boys’ love, mas até minha Tia Ossie devoraria essa história de “amigos de infância que viraram inimigos mas ainda têm sentimentos” como se fosse banquete.

Pierce gemeu, enterrando o rosto nas mãos.

— Arceus, tenha piedade…

Lyra, ainda se recompondo do surto fangirl, pigarreou e voltou a encarar Pierce, desta vez com seriedade.

— Mas falando sério agora… o que aconteceu de verdade?

Pierce suspirou.

— Foi há três anos. Eu tinha doze, ele treze. Eu e o Aleks… éramos melhores amigos. — ele começou a explicação — Quando me transferi pra Kawazuzakura, ele foi o primeiro a se aproximar. Acho que ele me viu como o estrangeiro. O cara diferente. Um jeito fácil de se destacar por andar com quem não se encaixava.

— No começo foi isso, sim — admitiu Aleks, baixinho. — Ele era de Galar. Tinha morado em Hammerlocke. Soava exótico. Mas a verdade é que a gente se deu bem. Até demais, talvez.

— Um dia, contei pra ele sobre meu pai — disse Pierce, a voz mais baixa agora. — Coisas que eu nunca tinha contado a ninguém. Meu pai… trabalhava numa empresa farmacêutica em Galar. Só que era fachada. Ele traficava suplementos ilegais pra batalhas Pokémon. Itens adulterados. Fazia tráfico de Pokémon raros por debaixo dos panos. Foi preso pelo Hammerlocke Yard. Minha mãe se divorciou dele depois, e voltamos pra Johto quando ela casou com meu padrasto.

O corredor ficou silencioso como um túmulo.

— Contei tudo pro Aleks. E então… começaram os boatos.

Aleks parecia prestes a desaparecer.

— Fui eu quem comecei — confessa Aleks. — Disse que ele tava envolvido. Que vendia Pokémon roubados. Que fazia parte do esquema. Espalhei tudo que podia. Fiz todo mundo acreditar que ele era criminoso.

Os olhos de Pierce ardiam.

— E a escola acreditou. Fui excluído. Tirado do time de beisebol. — lágrimas rolavam pelo canto dos olhos. — Os professores começaram a me evitar como se eu fosse radioativo. Acabei expulso. Minha mãe processou a escola por difamação e calúnia.

Aleks engoliu em seco.

— E eu nunca pedi desculpas. Só… deixei acontecer. Vi a vida dele desmoronar e não fiz nada.

Kousei cruzou os braços, o rosto sério, inexpressivo.

— Você realmente destruiu o cara — murmurou. — Isso não é só um erro. É assassinato de reputação.

Lyra olhou para Pierce, para o maxilar travado, os punhos cerrados e tremendo. Então deu um passo à frente e o abraçou, sem dizer nada. Pierce hesitou… e aceitou. Só por um instante.

Ela se afastou e se virou para Aleks. Seu tom havia mudado.

— Eu te admirava — disse ela, quase num sussurro. — Você era meu idol favorito. Meu bias. Mas ouvindo isso? O que você fez com ele? Eu não sei mais como olhar pra você.

Pausou.

— Me desculpa, Aleks. Mas tô do lado do Pierce nessa. Foi escroto o que você fez. Muito escroto.

O corredor ficou em silêncio outra vez, mas então… algo mudou. Nos cantos da memória, um zumbido baixo e metálico começou a vibrar. Um som estranho, como estática viva. E então, vieram os passos, ou melhor, tremores. Como se algo colossal estivesse pisando por perto, sacudindo o chão sob os pés dos adolescentes.

Todos se viraram ao mesmo tempo.

— Nós não estamos mais sozinhos — murmurou Kousei, a mão já na Pokébola, retirando-a do bolso da calça.

Outros dois estrondos ecoaram, fazendo as janelas trincarem como se estivessem sob pressão. E então um rugido, profundo e cavernoso, rasgou o ar. Um arrepio subiu pela espinha de Pierce quando ele olhou para trás… e viu duas grandes figuras tomarem conta do corredor.

Pierce sempre havia gostado de fósseis desde criança. Uma vez, quando tinha por volta dos seis anos, ele e o pai tinham ido a uma exibição na ala de história natural no Galarian Museum e lá ele tinha visto um esqueleto inteiro de um Aerodactyl e pirado. Haviam tantos fósseis em exibições de diferentes Pokémon: espirais e mais espirais de conchas de Omanyte e Omastar; fósseis de Lileep prensados contra uma rocha, dando a impressão de uma planta petrificada; um esqueleto inteiro de um Aerodactyl; um Relicanth gravado em pedra.

Ele tinha ficado fascinado com tantos fósseis ao ponto que ele tinha feito pirraça quando o curador da exibição disse que não poderia dar a ele o Old Amber que estava em exposição no museu ou nenhum dos fósseis. Seu pai havia batido nele naquele dia no carro por ter feito-o passar vergonha no museu.

Agora, diante dele, estavam dois Pokémon que ele só via em documentários ou como esqueletos montados em algum museu.

O primeiro era uma criatura terópode vermelha escarlate recoberta por escamas com um colarinho emplumado ao redor do pescoço e uma barba de penas brancas na mandíbula protuberante. No topo da sua cabeça havia uma protuberância espinhosa que lembrava Pierce de uma coroa o que fazia jus ao que aquele Pokémon era nos tempos passados: um rei.



O segundo Pokémon, por outro lado, embora não parecesse feroz também era igualmente intimidador. Era um grande Pokémon saurópode de pele escamada azul coberta por cristais de gelo. Descendo por seu alongado pescoço havia dois véus furta-cor que tremulavam como as velas de um navio, brilhando como a aurora boreal. As duas velas lembraram Pierce do véu que uma rainha naqueles filmes medievais usaria por baixo de sua coroa.



Diante de Pierce estavam o rei e a rainha de tempos pré-históricos antes dos primeiros humanos. Dois Pokémon dinossauros que ele tanto admirava, mas onde deveriam estar seus olhos, haviam apenas órbitas vazias ocupadas apenas por Unown que rodeavam a cabeça dos Pokémon cretáceos, os olhos ciclópicos brilhando em um vermelho ameaçador.

— O quê…?! — murmurou ele, surpreso.

— Não pode ser… — disse Orion, pálido. — Um Aurorus e um Tyrantrum? Como…?

Os passos que ele tinha ouvido esse tempo todo no corredor enquanto andavam. Os barulhos. A sensação de estarem sendo observado. Eram aqueles Pokémon fósseis… Não. Uma outra ilusão criada pelos Unown.





Aleksey

Subterrâneo das Ruínas de Alph, Johto


Quando ele tinha quatro anos e estava no jardim de infância ele se lembrava da professora ter mostrado para a turma um livro cheio de ilustrações de Pokémons pré-históricos dos mais variados. Havia Omanyte, Kabuto e Relicanth além de Lileep no fundo do mar. Archen voando por entre as árvores. Tirtouga nas praias. Uma manada de Amaura numa tundra. Ele tinha ficado fascinado, mas isso até a professora virar a página e mostrar um Tyrantrum.

Ele se lembrou do pânico que se instalou nele quando viu o dinossauro escarlate estampado naquela página do livro. A bocarra escancarada cheia de dentes em um rugido mudo encarando-o. Aleks havia corrido para debaixo da mesa e ficado ali chorando copiosamente pelos próximos quinze a vinte minutos. Tinha sido um dos seus primeiros medos de infância.

O Tyrantrum à sua frente era mais assustador que o do livro. Uma criatura dantesca de quase três metros de altura coberto em escamas vermelhas e alaranjadas. A boca repleta de dentes salivava, pingando no chão, encarando, exceto que… o Tyrantrum não o encarava. Ele não tinha olhos. Era uma carcaça vazia pilotada por uma miríade de Unown que entravam e saiam das cavidades oculares da criatura. O Tyrantrum à sua frente era basicamente um mecha.

— Puta merda — diz Órion, a sua voz era um misto de medo e fascínio. — Um Tyrantrum e um Aurorus. CA-RA-LHO. O Kessil iria pirar se visse. A Tia Ossie iria pirar. Eu tô pirando.

— E eu começaria a correr — diz Lyra um tanto acanhada dando passos para trás.

— Concordo com a Lyra — diz Kousei.

— Sebo nas canelas — grita Pierce. — Se ficar o bicho pega.

— Mas se correr o bicho come — murmura Aleks.

— A gente não tem muita escolha, Loiro de Farmácia — fala Pierce. — Corram!

Os cinco adolescentes então correram pelo corredor-fita de Möbius. O rugido do Tyrantrum cortou o ar enquanto seus passos pisados coordenadores pelos Unown que o pilotavam faziam o chão tremer.

Aurorus, não muito atrás. Seu corpo e pescoço ainda maior que o de Tyrantrum o permitia mais alcance.

Como uma cantora de ópera, a amargassaura entoou um choro que arrefeceu o corredor, envolvendo-o com véus de aurora furta-cor e cristais de gelo se suspenderam no ar, flutuando e encapando as paredes e o chão com um cobertor de geada branco e diamantino.

Aleks havia crescido no extremo norte de Sinnoh onde os invernos eram rigorosos e a neve era presente até no meado do verão, mas ali ele se sentia como se pregos tivessem sido martelados em cada articulação e cada músculo, fisgando bem profundamente fazendo correr um trabalho sísifo.

As duas carcaças pré-históricas, predador e presa, pareciam trabalhar em conjunto para detê-los, pilotados pelos Unown que rodeavam suas cabeças, entrando e saindo das cavidades oculares de ambas as criaturas como uma cena grotesca de um pesadelo. Aurorus os retardava enquanto dava uma janela para Tyrantrum correr atrás dele e pegá-los. Era a artimanha perfeita.

— Merda, merda — ralhou Pierce quase escorregando no piso gelado enquanto corria.

— A gente não vai conseguir fugir pra sempre — fala Lyra. — Uma hora eles vão acabar nos pegando.

— Eles vão nos cansar antes — fala Kousei esfregando as mãos nos braços para se aquecer, vapor branco saia de sua respiração.

— Isso não é um comportamento normal pra um Tyrantrum — comentou Órion, a testa franzida enquanto corria. — Esse frio devia estar deixando ele mais lento. Pelo que se sabe, eles não viviam em climas gelados. Ele não deveria estar nos caçando à essa velocidade toda, o frio devia estar atrasando ele tanto quanto a gente.

— O que você quer dizer com isso? — pergunta Pierce.

— Eu tenho um Cranidos, cara, ele fica muito lerdo quando começa a esfriar — diz Órion. — Eu ensinei Sunny Day para ele por um TM por conta disso. Ele é uma criatura de sangue frio.

Sangue frio. Algo veio à mente de Aleks de quando ele era criança e sua família saía pelas Rotas 216 e 217 nos arredores do Lago Perspicácia para procurar por frutas e raízes em meio à neve. Uma vez ele tinha visto uma mãe Gabite e seus bebês Gible caçando em meio à neve, tentando cercar um pequeno grupo de Swinub. Ele se lembrava como aqueles Pokémon se movimentavam devagar, mesmo sendo predadores mordazes, naquele clima frio.

Ele virou o pescoço e viu a figura de Tyrantrum, o corpo coberto por geada, a carne sofrendo de geladura e quebrando como porcelana naquele frio. Mesmo com os Unown titeritando aquele corpo pesado, ele lenteava.

— Ele é um Pokémon Dragão, não é? — pergunta Aleks. — Digo, o Tyrantrum.

Órion apenas assente com a cabeça.

— Pokémon Dragão não toleram o frio pelo que sei — diz Aleks. — A maioria vive em locais quentes. São poucos que vivem em locais frios. Em Sinnoh, Gible e Gabite eram encontrados em fissuras geotérmicas no subterrâneo. Eles só saem na neve para caçar, mesmo sendo perigoso pra eles, alguns acabam até morrendo ou virando presas para Pokémon maiores na neve. O Tyrantrum tá caindo no mesmo conto do vigário agora, vejam.

Ele apontou para trás. Partes da carcaça falsa do Tyrantrum cediam em meio ao frio que o encapava, envelopando folha por folha de gelo conforme o corredor resfriava ainda mais igual a uma câmara frigorífica. Tyrantrum estava congelando aos poucos

— Meu Ho-Oh, é verdade — disse Pierce.

— Os Unown fizeram uma armadilha para nos pegar — disse Órion.

— Mas eles caíram na própria armadilha — diz Kousei. — Esse Tyrantrum não vai aguentar muito tempo.

O Tyrantrum vinha atrás deles, mas o corpo malfeito titeritado pelos Unown caia aos pedaços pela geladura. O chão tremendo aos pés dele revestido por gelo, o granito se tornando branco com o sopro frio emanado por Aurorus. Cada passo do gigante cretáceo lenteava com o frio.

Aleks pensou em algo enquanto ele e os outros corriam, ele sabia que se virassem aquela curva estariam de volta ao começo do corredor onde estava Aurorus cantando uma aurora e provocando uma geada.

— Eu acho que tive uma ideia — fala Aleks observando o Tyrantrum vindo atrás deles. — Vamos parar de correr. Pierce eu vou precisar do seu Gligar e do seu Croconaw Lyra.

— O que você vai fazer,Loiro? — perguntou Pierce o olhando.

— Apenas confia na minha call — disse o coordenador pegando suas Pokébolas no bolso do jeans — Kousei, você pode usar seu Vulpix e Órion, também vou precisar do seu Cranidos. Acho que sei o que fazer, mas precisarei que se dividam.

Ele olhou para os quatro e segurou firme três Pokébola em mãos.

 — Lyra e Pierce venham comigo, serviremos de isca para o Tyrantrum — disse ele, Pierce o olhou incrédulo, assim como Lyra. — Órion e Kousei, vocês vão na direção da Aurorus enquanto trazemos os Tyrantrum. Está na hora de fazer mágica.

— Mágica? — Lyra arqueou a sobrancelha. — Mas o que você está querendo fazer? Tem um Tyrantrum atrás de nós!

— Você deve estar maluco, Loiro, isso vai nos matar! — diz Pierce.

— Não vai, confia na call, acho que sei o que fazer — disse ele correndo na direção do Tyrantrum. — Apenas me sigam. Kousei e Órion, vão na direção da Aurorus e a distraiam, use os golpes dos Pokémon de vocês para isso. Vocês dois, venham comigo!

Aleks jogou suas Pokébolas ao ar e liberou seus Pokémon. Aipom e Bellsprout saltaram no ar e tomaram a frente enquanto Yanma, seu mais recentemente Pokémon que ele havia pego naquela manhã, voou bem atrás do coordenador, as asas zumbindo.

Ele virou de costas e viu Kousei e Órion distraindo Aurorus com seus Pokémon. Vulpix disparava labaredas azuladas enquanto Cranidos desferia cabeçadas contra a amargassaura.

— Lyra, faça o Croconaw inundar o chão com água! — gritou Aleks, os olhos fixos no colosso escarlate vindo em sua direção. — A gente precisa que o gelo fique grosso e escorregadio! Pierce, manda o Gligar pegar o Aipom e liderar o Yanma pelo ar. — A voz de Aleks tinha um comando firme, mas por baixo dela havia urgência. — Vamos tentar fazer o Tyrantrum despencar por cima da Aurorus. Se der certo, os dois vão cair um sobre o outro!

— Certo! — respondeu Lyra, já pegando a Pokébola e arremessando-a com precisão. — Croconaw, em campo! Use Water Gun no chão, agora!

O jato d’água saiu com força da boca do crocodilo azulado, atingindo o piso de pedra que já estava coberto por uma fina camada de gelo. O resultado foi imediato: uma superfície completamente espelhada, traiçoeira, mortal. O corredor tornou-se uma pista de morte onde o menor erro de equilíbrio podia ser fatal.

Aleks se virou a tempo de ver o Tyrantrum se aproximando, cada passo dele soava como uma bola de demolição. O chão sob seus pés vibrava com o peso da criatura, e agora seus movimentos começavam a vacilar. As patas pesadas do simulacro deslizavam no gelo. O corpo reanimado por Unown cambaleava, pedaços de carne já endurecida pela geada despencavam como estalactites quebradas.

— Vai, Gligar! — gritou Pierce, liberando o Pokémon voador. — Pega o Aipom e leva ele pro alto! Yanma, segue eles!

O Aipom de Aleks agarrou-se sem hesitar às garras do Gligar, balançando no ar com a confiança de quem já tinha feito malabarismos piores. O Yanma disparou logo atrás, suas asas zunindo em um frenesi que preenchia o ar com um chiado agudo e crescente.

— Ilya, ataque com Swift! Cegue ele! — comandou Aleks, apontando para a frente.

Com um giro do corpo e um movimento preciso da cauda, Aipom disparou uma saraivada de estrelas coloridas de sua cauda que começaram a girar em volta da cabeça do Tyrantrum como uma tempestade mágica. Os Unown que pilotavam o cadáver perderam momentaneamente a coordenação e o gigante colidiu contra a parede lateral do corredor com um baque seco, rachando a pedra.

— Yanma, ataca também! Faz alguma coisa! — gritou Aleks, sem saber o que esperar.

O inseto não hesitou. Começou a se mover com tanta velocidade que parecia se duplicar e triplicar no ar, deixando rastros esverdeados pelo ar. Os clones circularam o Tyrantrum como uma nuvem viva, cercando-o.

— Isso é Double Team, — murmurou Pierce, os olhos brilhando. — Mas e aí, o que mais ele sabe fazer?

— Eu não sei! Eu literalmente capturei ele hoje de manhã! — respondeu Aleks, o desespero transparecendo por um instante na sua voz.

— Foda-se, tá funcionando! Continua! Pede pra ele usar outro ataque — qualquer um e depois manda sua Bellsprout usar Grass Knot! Ela tem esse golpe, né?

— Tem sim! — Aleks assentiu com firmeza, já se virando.

— Então vai! Agora, Aleks!

— Yanma, ataque com o que você tiver! Qualquer coisa! Vai!

A resposta veio em forma de uma brisa prateada. As asas da libélula bateram com mais força e, em meio ao zumbido e aos clones dançando ao redor do simulacro, uma corrente de vento cintilante se formou. Pequenas escamas de luz cortaram o ar, girando como lâminas num redemoinho prateado.

O tornado de luz e vento envolveu os Unown, que começaram a dispersar como folhas secas, perdendo a formação. Sem a coordenação exata dos seus controladores, o Tyrantrum tropeçou. Parte do crânio já coberto por rachaduras bateu com força no chão e deslizou.

— Esse é o Silver Wind — disse Lyra com um brilho nos olhos. — Um golpe tão bonito.

— Eu sou um coordenador, os golpes do meu Pokémon tem que ser bonitos — diz Aleks com um certo tom de deboche. — Tatiana, agora! Grass Knot! Mira nas pernas dele!

Aleks cerra os punhos e encara a pequena planta carnívora saltou à frente que abriu suas folhas e fixou as raízes no chão congelado. Lâminas de grama emergiram do chão e, como cadarços, eles se amarraram em torno dos tornozelos do Tyrantrum que já não tinha muito equilíbrio e em um puxão aquele golias cretáceo desabou.

MADEIRA! — gritou Pierce, na brincadeira.

Órion e Kousei que distraiam a Aurorus retornaram seus Pokémon para as suas Pokébola e correram enquanto o Tyrantrum caia em cima da amargassaura. Quando os dois dinossauros desabaram no chão e os Unown dispersaram, os corredores falsos tremeluziram. Eles não estavam num corredor infinito, mas de volta às ruínas de Alph.

Os Unown dispersaram como insetos após o impacto. Os pequenos Pokémon dispersaram como insetos, sumindo por entre as frestas nas rochas, desaparecendo como se nunca estivessem estado ali.

No lugar onde antes estavam os corpos marionetados dos dinossauros, restavam apenas duas rochas sobrepostas, incrustadas parcialmente no solo de pedra. A superior tinha o formato rude de um maxilar serrilhado. A inferior, linhas onduladas que lembravam marolas congeladas no tempo ou talvez uma barbatana fincada na terra como uma vela esquecida.


Órion deu um passo à frente, ofegante, os olhos arregalados.

— Por Arceus… são fósseis! — exclamou com um sorriso largo, quase infantil. — Um Jaw Fossil e um Sail Fossil! A Tia Ossie vai adorar ver isso!

Pierce cruzou os braços, analisando os detalhes com o olhar aguçado de um veterano de campo.

— Não acho que é só isso que a tia de vocês vai curtir ver… — disse ele, cutucando de leve o ombro do garoto. — Olha nas paredes. Tem um monte deles por toda parte.

Órion ergueu o olhar, e seu queixo caiu.

Nas paredes ao redor da câmara, parcialmente ocultos por musgo e fuligem antiga, dezenas de fósseis estavam embutidos nas rochas. Conchas espiraladas, garras fossilizadas, fragmentos de carapaças e o que pareciam ser tentáculos endurecidos em pedra.

— Puta que pariu… minha nossa senhora dos paleontólogos… — balbuciou Órion, visivelmente impactado. Seus olhos não sabiam para onde olhar primeiro. — Quando tudo isso acabar, a tia Ossie e o Kessil precisam vir aqui. A gente procurando cobre e acabamos encontrando ouro nessas ruínas!

Ele se aproximou devagar, os dedos pairando a centímetros da rocha como se não quisesse profanar algo sagrado.

— Parece um antigo leito marinho — disse o garoto. — Faz sentido. Aqui já esteve embaixo do oceano, dã. Afinal o que não estava durante o Cambriano?

Ele continuou admirando os arredores por alguns instantes, enquanto os demais apenas perambulavam por aquela câmara. O silêncio durou apenas alguns segundos antes que a razão voltasse.

— Bem, agora que tudo acabou, melhor irmos encontrar os outros — disse Lyra, voltando o olhar para a saída da câmara.

— Melhor irmos, sim — assentiu Kousei, ainda atordoado, seguindo ao lado dela e de Órion pelo túnel que levava para fora das ruínas.

Pierce e Aleks, no entanto, ficaram para trás.

Ambos pararam diante dos fósseis no chão. O silêncio que pairava entre eles era pesado, não desconfortável, mas denso. Aleks mordeu o lábio inferior, só naquele dia já tinham passado por tanta coisa que a sua cabeça não conseguia assimilar mais nada.

Ele encarou os olhos cor de rubi de Pierce no semibreu. Ele tinha feito tanto mal a ele, tinha ferido ele de tantas maneiras emocionalmente que ele nem sabia o que falar depois de tudo que aconteceu nos subterrâneos das Ruínas de Alph.

— Ainda me odeia? — foi a única coisa que perguntou.

— Sim. Não. Eu não sei — ele respondeu. — Mas também não te perdoei. Não acho que o que fez comigo tenha perdão, mas...

— É, eu também não seria capaz de me perdoar — ele interrompeu. — Eu basicamente fudi a sua vida.

— Não me interrompe, seu Loiro de Farmácia! — ele acotovelou Aleks e riu. — Bem. Perdão não é fácil de conquistar, mas já que você sempre está topando comigo e com meus amigos acho que podemos nos aproximar. Um passo de cada vez. Eu te dou uma segunda chance para se redimir comigo. É isso que você quer, né?

Aleks assentiu.

— Mais que tudo no mundo — fala Aleks.

— Então, tá fechado, Loiro — diz Pierce. — Não sou seu amigo ainda. Nem seu inimigo. Aliás, o que somos?

— Dois idiotas — respondeu Aleks e Pierce riu.

— Dois idiotas estilosos! Vamos ser sinceros, a gente mudou muito desde que a gente tinha doze e treze anos — brincou Pierce, dando uma risada abafada enquanto chutava uma pedrinha próxima dos fósseis. — Você até pintou o cabelo de loiro. Tá melhor que aquele castanho de antes!

— Verdade, a gente mudou pra caralho. Você tem até piercings! — riu Aleks. — Mas eu continuo mais alto que você!

— Eu tenho um e setenta e cinco, não tenho culpa se você tem quase dois metros — Pierce o acotovelou. — Ei, ‘cê quer ficar com esses fósseis? Eu te deixo escolher primeiro.

Aleks arqueou uma sobrancelha, desconfiado.

— Você, me deixando escolher primeiro? Tá com febre?

— Não, só tô tentando evitar tua ladainha depois. — respondeu Pierce, cruzando os braços. — Se eu pegar o Jaw Fossil primeiro, você vai me chamar de prepotente. Se eu pegar o Sail, vai dizer que sou um poser por que peguei um Pokémon de gelo que ficaria bonitinho na mão de um coordenador. Então... escolhe logo e me poupa do drama.

— Cínico.

— Sempre fui. — disse ele, com um sorrisinho de canto que Aleks fingiu não notar.

Aleks se agachou diante das duas rochas. Passou os dedos lentamente sobre a superfície áspera do Sail Fossil, sentindo as reentrâncias como se tocasse marcas do tempo. Pensou no Aurorus que tinham enfrentado, aquela criatura imponente e ao mesmo tempo melancólica, cuja canção parecia invocar a neve tão triste e fria quanto a sua ária sofrida. Tê-lo num concurso seria deslumbrante, sim. Fácil. Esperado. Óbvio.

Mas, pela primeira vez em muito tempo, Aleks sentia que não queria o caminho óbvio. Ele queria crescer. Queria se testar. Encarar algo... diferente. Ele virou-se para o Jaw Fossil. Havia algo de bruto e desafiador naquela mandíbula fossilizada, como um convite para sair da zona de conforto.

— Vou pegar o Jaw. — disse por fim. — Acho que posso encarar um dinossauro de verdade e não chorar igual uma criança de cinco anos.

— Que fofo. — zoou Pierce, erguendo uma sobrancelha. — Todo homenzinho e enfrentando seus traumas de infância, hein? Tô quase orgulhoso.

— Quase? — Aleks fingiu ofensa. — Depois dessa, vou ensinar meu futuro Tyrantrum a morder a sua bunda.

— Mal posso esperar então — diz, dando-lhe cotoveladas. — Pois a minha Aurorus vai fazer picolé de você!

Ambos riram, e por um breve instante, o peso dos últimos acontecimentos pareceu mais leve. Aleks pegou o Jaw Fossil com cuidado, como se soubesse que carregava mais do que pedra: era uma escolha. Uma promessa. Um novo começo.

Pierce pegou o Sail Fossil e o examinou com um olhar quase respeitoso, embora tentasse manter a pose relaxada.

— Vamos? — perguntou Aleks.

— Bora. Antes que o Órion ache outro fóssil e surte.


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