sexta-feira, maio 15, 2026


Ren

Dimensão dos Unown

16 de maio, ano 30 (Era Tōitsu)


Quando Ren abriu os olhos depois do clarão ele apenas viu banquisas e mais banquisas de mnamita flutuando em meio ao éter e, entre eles, ele conseguiu ver rostos amigos. Luca estava ali, são e salvo, junto com Khoury que estava enfim solto das amarras. Cynthia também estava presente e havia Miri também perto dela. Ele ficou reconfortado em vê-los seguros e bem, mas ele também sentiu a raiva arder na garganta quando ele viu o corpo estático de Brandon jogado em algum canto longe e, acima de tudo, um elemento novo e estranho.

Um homem em robes régios erguia-se soberano flutuando, translúcido como luz atravessando um lençol. Os cabelos brancos e ondulados cascateavam as costas e, no topo da cabeça, havia um diadema feito de prata, mas com um formato um tanto peculiar como os ossos de uma mão humana em torno da circunferência do crânio. Ren já havia visto aquela pessoa antes, ao menos a sua múmia encarquilhada e ressecada estirada num sarcófago nas catacumbas de Alph. Era Alphaeus, o antigo rei dos Alph, a pessoa que causou o cataclisma em Sinjoh.

— Finalmente você chegou, criança — ele dá um amplo sorriso, rasgando a pele das bochechas espectrais. — Meu banquete enfim veio até mim. Devo me refestelar do Núcleo de Mystri que bate agora em seu peito e assim reiniciar o Universo quando eu usurpar o trono Dele.

— Mas nem fudendo que você vai — diz Ren, convicto. — Vem pra cima, otário.

Styx, seu Houndour, ladeou seu treinador, rosnando, chamas formando no canto como espuma. Feebas, que nunca estivera em uma batalha, também juntou-se. Do bolso do casaco de Ren, uma de suas Pokébola abriram e a sua Murkrow, Gorgyra, saiu e começou a bater as asas e grasnar. Até o Swinub de Khoury se juntou ao fronte de batalha.

Os Unown arrodearam Ren e como um enxame furioso de zangões eles tomaram a dianteira, indo na direção do espectro. Ren mergulhou e se juntou aos Pokémon ciclopes que disparavam feixes de Hidden Power contra o Alphaeus que não teve tempo de revidar.

Houndour disparou uma torrente de brasas contra o espírito. Murkrow mergulhou em um rasante, suas asas cortando contra o corpo intangível do antigo rei. Swinub soprou uma rajada de neve que congelou quando Feebas conjurou uma onda lamacenta de água. Os golpes foram uma escolha até que razoável, mas apenas rasgavam o ectoplasma do rei espectral sem muita eficácia. Era como golpear uma projeção de slide, os golpes atravessavam sem causar dano.

Ren não era um expert em batalhas como Pierce ou Lyra. Ele não estava lutando contra outro Pokémon, muito menos com uma pessoa. Alphaeus era um troço. Ele era um fantasma de algo que já foi um ser humano, nem mesmo poderia ser tratado da mesma maneira que um Pokémon da tipagem Fantasma. Era algo bisonho.

— Tolo! — cuspiu Alphaeus, e sua voz ecoou pela dimensão como o estalar de um chicote. — Não há nada que possa fazer contra mim. Sou virtualmente invencível aqui. Agora me dê o que desejo… ou tomarei à força.

— Não — disse Ren, firme apesar da secura cortante em sua garganta.

Alphaeus inclinou a cabeça levemente, e o sorriso que se esticou por seu rosto parecia esculpido ali, como se alguém o tivesse talhado na pele com uma lâmina cega.

— Então será pela força.

Ele se desfez na hora, evaporando em um vórtice de fumaça negra que devorou a luz por um instante. A massa avançou como uma maré viva, e os Unown se dispersaram como folhas num vendaval. Styx foi arremessado para longe com um baque; Gorgyra caiu com as asas abertas; Feebas e Swinub rolaram como peças derrubadas num tabuleiro.

Ren nem teve tempo de respirar. Alphaeus rompeu da fumaça como uma fera emergindo da própria sombra e já estava sobre ele. Mãos ectoplasmáticas se fecharam em torno de seu pescoço, erguendo-o do chão como se ele não pesasse nada. O impacto arrancou o ar de seus pulmões, suas pernas chutando o vazio sem aderência.

Então Alphaeus sorriu, rasgando suas bochechas translúcidas em um sorriso aterrorizante e assassino.

— Vamos ao que interessa.

A mão dele atravessou o peito de Ren, mas não como um soco, mais como uma vivissecção. Garras espectrais deslizaram por pele, músculo e osso como se o corpo de Ren fosse feito de papel molhado. Um frio tão agudo que parecia cirúrgico percorreu seu corpo, não como o frio do inverno, mas o vazio de algo que nunca deveria tocar a vida.

Ren gritou, um som rouco, preso na garganta, enquanto o fantasma o segurava como presa.

Ele tentou arranhar, empurrar, arrancar Alphaeus dali, mas o rei morto era fumaça e rancor. Seus dedos iam mais fundo, perfurando, procurando o seu coração. Seu segundo coração: o fragmento do Núcleo de Mystri.

Ele sentia como se estivesse sido arrastado para o fundo do rio de Cherrygrove como nos treinos desumanos que sua mãe o obrigava a fazer. A mesma impotência. A mesma dor ardida nos músculos. A mesma sensação de que iria se afogar.

— O Núcleo de Mystri será meu, — sibilou Alphaeus em seu ouvido, sua voz gélida o bastante para partir pensamentos. — Eu não falharei novamente. Não como há milênios. Vou sacrificá-lo como sacrifiquei uma cidade inteira. Centenas morreram por minha ascensão: humanos, Pokémon, inocentes, dispostos, relutantes. E você, criança, será a oferenda final. A centelha da minha apoteose.

Ren arfou, o ar ardendo na garganta, fúria e dor misturadas como metal derretido.

— Você fala… como se aquelas pessoas… tivessem escolhido morrer por você, seu psicopata! — ele cuspiu, cada palavra um esforço. — Você as matou. Você as massacrou como se fossem nada! Isso não foi sacrifício. Isso foi a porra duma carnificina! Você negociou com as almas delas enquanto as assassinava! Por quê? Para virar um deus?!

Ele fitou Alphaeus com ódio puro, límpido, cortante.

— Você não é um deus. É só um monstro. — ele cuspiu. — A história não te lembra como salvador nem como um grande rei. Os povos de Alph tentaram te apagar e começaram de novo como se você não tivesse existido. Os de Sinjoh viraram espectros vagando pela neve, uivando aos ventos por causa de você. Não aprendeu nada? Deuses não massacram seus fiéis. Um deus não mataria uma criança pra realizar seus caprichos.

O rosto de Alphaeus se contorceu, rachado de raiva, como um vaso se partindo por dentro. Sua mão apertou mais fundo, garras buscando o Núcleo. E então algo pulsou: uma luz iridescente.

O Núcleo explodiu em um brilho súbito: um batimento de pura energia que rejeitou o toque do rei. Um trovão soou dentro do peito de Ren. Alphaeus soltou um guincho enquanto a luz queimava o ectoplasma preso ao peito do menino e mesmo assim ele não soltou.

A luz cresceu, expandindo em uma variedade de cores. Hidden Power. A energia de todos os tipos em um só. O golpe assinatura dos Unown. Um fragmento infinitesimal do poder de Arceus.

Alphaeus guinchava e Ren, em escárnio, sentiu aquele poder queimar por suas veias. Era uma sensação boa como se ele estivesse sob o sol de primavera. Não muito quente, não muito frio, apenas a mornidão que acalentava os ossos. Alphaeus ardia como um palito de fósforo aceso, mas o aperto contra o Núcleo no peito do garoto era tão forte que quando ele puxou do peito de Ren ele sentiu todo o ar ser expulso dos seus pulmões.

Alphaeus era teimoso. Enquanto Grex havia aprendido com suas lições e considerado a Dimensão dos Unown como sua punição por ter ousado demais, o rei dos Alph em vão tentava alcançar algo que nunca deveria pertencer a ele. Mesmo tendo o Núcleo arrancado de seu corpo e respirando com dificuldade enquanto sangue escapava pelos cantos do lábio.

— Criança tola — sibila o rei. — Eu tomarei o poder Dele enquanto deixo seu cadáver apodrecer neste umbral.

— Eu... já disse que... — disse com a voz falha, seu corpo esfriava e a respiração parecia parar na garganta, em meio ao seu peito havia um rombo de onde Alphaeus havia arrancado o Núcleo. — Não! Se eu for você vai comigo!

O Núcleo brilhou em uma luz arco-íris e explodiu em luz clareando todo o éter da dimensão. Os outros lá em baixo, presos sobre a influência da gravidade de Alphaeus ergueram seus pescoços enquanto a explosão de luz varria tudo. Um diapasão agudo invadiu o caracol dos tímpanos do garoto enquanto tudo que via a sua frente era luz.

Se ele morreria ali ele iria levar o espírito de Alphaeus com ele de uma vez por todas. Alphaeus e Grex quiseram sacrificar milhares de pessoas para obter divindade. Benjamin Brandon estava disposto a fazer o mesmo mais de uma vez naquele dia pertubadoramente longo. Ren estava disposto a sacrificar a si mesmo.

Ele olhou para seus Pokémon desacordados. Para Luca a quem ele já conhecia a uma vida. Para Khoury que, apesar de conhecer a poucas horas, era uma pessoa boa. Tinha sido bom conhecer Miri e Cynthia também. Ele pensou em Lyra, em Pierce, em todos os seus amigos e antes que seu coração humano desse a última batida ele deu um leve sorriso e deixou-se ser engolido pela luz iridescente.




Ren

???


— Ei, ei… — disse uma voz familiar, cutucando o ombro de Ren. — Acorda aí, dorminhoco.

Ele lutou para abrir os olhos; seu corpo parecia distante, dormente, como se pertencesse a outra pessoa. Uma luz iridescente invadia suas retinas enquanto ele finalmente erguia a cabeça… e congelou. Diante dele estava ele mesmo: outro Ren com  mesma pele parda, o mesmo cabelo tingido de fúcsia, os mesmos olhos cor de chá. As mesmas covinhas, a mesma postura, o mesmo tudo. Ren engoliu seco e recuou, assustado ao se ver ali: um garoto magro de quinze anos com o cabelo roçando a nuca, igualzinho ao seu.

— Q-quem é você? — ele perguntou. Sua voz saiu rouca, trêmula entre medo e incredulidade.

O outro Ren sorriu, não um sorriso humano, mas um gesto que parecia existir antes mesmo da ideia de sorrir.

— Eu sou Todo Mundo e, ao mesmo tempo, Ninguém — continuou, inclinando a cabeça. — Alguns podem me chamar por outros nomes, mas eu sou, sobretudo… Você.

— Eu?

— Sim, eu sou você — respondeu ele. — Mas Ren… quem é você?

Ren abriu a boca, mas nenhuma resposta veio. O outro ele apenas olhava, paciente, esperando. Ren não sabia quem realmente era. Era só um garoto de Cherrygrove que queria viajar com os amigos. Ele gostava de nadar, de ler mangás e assistir animes BL, de ouvir música, principalmente rock. Gostava de tocar guitarra. Amava filmes de terror e o gosto das besteiras de konbini, mas detestava frutos do mar. Tinha medo de tempestades, principalmente relâmpagos. Mas… o que ele era, de verdade?

— Eu… não sei — admitiu Ren, sentindo a própria voz oscilar como se estivesse falando dentro de um copo d’água.

A entidade inclinou a cabeça num gesto quase curioso.

— Então por que não descobre? Quem é Ren? Quem Ren será?

A pergunta pairou no ar como uma lâmina. Ele mordeu o canto do lábio sem saber se queria realmente descobrir a resposta. Quem ele era? O que seria? O pensamento parecia vasto demais para caber dentro dele.

— Eu morri? — ele perguntou enfim.

— Sim — respondeu a entidade sem um instante de hesitação. — Mas também não. Você se sacrificou na Dimensão dos Unown para impedir Alphaeus. Quando ele removeu o Núcleo de Mystri do seu peito, seu coração humano não suportou a carga, ele foi rompido. Você morreu, Ren. Mas ainda não se foi.

O silêncio que se seguiu pareceu mais pesado que a própria morte. Ren tentou assimilar aquilo. Seu corpo, ou o que restava dele, parecia distante, anestesiado, como se estivesse feito de um sonho que estava prestes a desfazer-se.

A entidade levantou-se. Não vestia roupas, mas também não parecia ligar para a própria nudez, mas talvez a estranheza maior era perceber-se nu sem realmente estar. Era como olhar para o próprio corpo sem estar dentro dele.

— Você é Arceus? — perguntou Ren, sua voz soando menor do que gostaria.

— Não. Não sou o Primordial. — a resposta veio fácil, fácil até demais. — Eu sou você. Ainda não entendeu? Eu sou o que faz de você você. A parte que pensa quando você não pensa. A sombra que permanece quando tudo o resto se apaga. É por isso que estou aqui: para lhe oferecer uma escolha.

— Uma escolha? — repetiu Ren.

A entidade virou o rosto em direção a um horizonte inexistente.

— Você pode escolher partir, ficar livre das amarras da vida. Ou… — seus olhos, idênticos aos dele, brilharam com algo indecifrável — … pode escolher viver de novo. Toda escolha tem um preço. Então me diga, Ren: o que você estaria disposto a pagar? O que estaria disposto a dar para voltar a ser você?

— Eu não sei — respondeu por fim, pequeno diante do infinito.

— Talvez eu tenha sido brusco demais — disse a entidade, com a calma de alguém que não conhecia o tempo. — Mas encruzilhadas são assim: abruptas, cortantes, te obrigam a escolher por onde seguir. Talvez seja melhor se eu mostrar o que acontece caso você parta… e caso você fique. Isso lhe soa justo?

Ren apenas assentiu.

O espaço ao redor se dobrou como um papel sendo virado. As cores furta-cor se retraíram, dobrando-se para dentro, e o chão surgiu debaixo de seus pés: frio, sólido, terrivelmente real. Um cemitério. Fileiras e mais fileiras de lápides cinzentas sob um céu sem vento.

E diante de uma delas… estavam Pierce, Lyra e Luca, os meninos em ternos pretos e ela em um vestido preto. Ele nunca pensara ver os amigos em roupas tão formais, chegava a ser estranho.

Pierce mantinha o maxilar travado, mas seu rosto denunciava noites mal dormidas. Lyra chorava abertamente, olhos inchados, soluços presos na garganta. Luca tentava consolá-la, mas seus próprios olhos estavam vermelhos. Houndour chorava como um cão que perdeu o dono enquanto sua Murkrow, empoleirada na lápide marcada com o nome “Ren Caniedo”, soltava grasnados tristes, as penas eriçadas. O peito de Ren apertou.

— Eles… — ele começou, mas a voz não saiu.

— Pierce e Luca seguirão seus próprios caminhos — disse a entidade, observando a cena como quem contempla uma pintura. — Você era a cola que mantinha o grupo unido. Sem você, o equilíbrio se rompe. A dor deles é grande demais para que continuem como eram.

Ren sentiu o estômago cair.

— Lyra continua a jornada — prosseguiu a entidade, com a mesma calma quase cruel. — Sozinha. Ela é forte, mas nunca mais será a mesma. E seus amigos cuidarão de Styx e Gorgyra, como prometido. Eles vão se esforçar para honrar você… mesmo que isso machuque todos os dias. A morte não é razoável, sabe por quê, Ren?

Ele acenou que não com a cabeça.

— A morte não é razoável, ela não pode ser desafiada — disse a entidade. — Não se negocia com a morte, ela tem seus próprios termos.

A cena se alterou sutilmente. Professores conhecidos. Colegas da equipe de natação. Pessoas que Ren encontrara nas últimas semanas. Uma corrente de rostos entristecidos, uma procissão silenciosa. Todos prestando seus respeitos. Um por um.

E então… Seu pai apareceu. Só ele. Kaisei estava cabisbaixo, o cabelo preto tinha faixas cinzas, ele segurava em mãos um buquê desajeitado de lírios-aranhas. Ren sentiu algo dentro de si escorrer como areia dentro de uma ampulheta.

— Ele carregará culpa — disse a entidade. — Achará, todos os dias, que poderia ter feito algo. Que poderia ter estado presente na sua vida. Que poderia ter prevenido esse final. Mas ele não saberá como. Porque não há como.

Ren olhou ao redor, sentindo o vazio crescer dentro do peito.

— E a minha mãe… ela nem vai aparecer, não é? — perguntou ele, a voz reduzida a um fiapo.

— Não — a entidade respondeu com um aceno simples, quase triste. — Sylvia já havia selado a própria solidão quando o expulsou de casa. Vivo ou morto, seria indiferente. Ela talvez aparecesse uma vez, por formalidade… e seguiria adiante. O filho que ela tentou moldar à força não existe mais, e o máximo que ela conseguiria fazer… seria fingir que sua existência teve algum valor para ela no fim.

O vento não soprou. O mundo não respirou. Tudo estava parado, exceto Ren, e a dor que ele sentia.

O vento inexistente dissolveu o cemitério como pó ao sol. O chão sumiu. O horizonte também. Ren piscou e, de repente, estava de volta ao espaço branco e infinito, sozinho diante da entidade que usava o seu próprio rosto.

— Essa é a realidade se você escolher partir — disse ela, sem qualquer dramatização. — Apenas verdade crua. A dor dos vivos. A continuação sem você. O mundo segue… mas não sem cicatrizes.

Ren sentiu algo pulsar dentro de si, não exatamente um coração, mas um eco distante, insistindo em existir. Como se cada batida dissesse “ainda não”. A entidade o observou por um instante e ergueu a mão. O espaço vibrou sob os pés de Ren, como se um tapete colossal tivesse sido puxado, e outra visão ergueu-se ao redor.

Desta vez, não havia lápides. Havia luz. Havia movimento. E havia caos.

Os cristais da Dimensão dos Unown ressurgiram, distorcidos. Styx cambaleava, tentando ficar de pé. Gorgyra batia as asas freneticamente. Feebas debatia-se como se nadar no nada fosse natural. Khoury mal mantinha a consciência. Miri pressionava as mãos no peito congelado de Cynthia; o Spiritomb tremulava como uma vela sob vento prestes a apagar. Os efeitos do poder de Alphaeus pesava sobre eles ainda.

— Você conseguiu derrotar Alphaeus, a dimensão dos Unown está se estabilizando de volta e vai curar-se desse câncer que foi o Rei dos Alph — fala o outro Ren. — Mas cânceres sempre deixam marcas, sabe? Seus amigos precisam sair da Dimensão dos Unown o quanto antes. Não é possível ficar muito tempo nessa dimensão, não sem perder a sanidade.

— Mas como eles vão sair? — ele pergunta para a entidade. — Como eles vão sem mim?

— Não sei, cabe a você escolher. Se você escolher viver — continuou a entidade — você voltará. Mas não voltará igual. Nada retorna igual depois da morte. E você perdeu seu coração humano e seu outro coração. Reconstruir um corpo vivo exige algo em troca.

Ren respirou fundo. Ou tentou.

— Que preço?

A entidade sorriu. O mesmo sorriso dele, mas distorcido pela onisciência.

— Tudo tem um preço, Ren. — seus olhos brilharam. — Para obter algo, algo de valor equivalente deve ser oferecido. O universo se equilibra dessa forma. Nada se perde. Nada vem de graça. Então lhe pergunto: o que você está disposto a entregar em troca de uma vida humana?

A visão evaporou. Apenas o branco restou, absoluto, sem forma, sem sombra.

— Mas a escolha é sua — acrescentou ela, aproximando-se. Tocou o peito de Ren com a ponta dos dedos. — Partir é fácil. É suave. É o fim da dor. Mas viver…

Os olhos da entidade ardiam como sóis pálidos.

— Viver é suportar o peso de ser você.

Ren mal conseguia engolir. Sentia a pergunta atravessá-lo como um bisturi.

— Do que você tem medo, Ren? Medo de voltar… ou medo de quem você será quando voltar?

Ele não respondeu. Não porque não queria, mas porque não sabia.

— Quem é Ren? — repetiu a entidade, agora com uma voz suave demais para ser conforto e afiada demais para ser crueldade. — Quem Ren escolhe ser agora?

O silêncio que caiu entre os dois não era vazio: era cortante, pesado, quase físico. Parecia dividir Ren em duas metades: a que existiu e a que poderia existir. Então a entidade estendeu a mão, palma aberta, oferecendo algo que parecia maior do que o universo e menor do que um átomo: destino, vida, morte, renascimento, ruína… e algo entre tudo isso.

— Escolha. O que daria para voltar a ser você?

Ren fechou os olhos. E, no breve instante em que a escuridão o envolveu, ele viu todos os rostos que amava como um arranjo de constelações surgindo atrás de suas pálpebras. Ele se viu com Luca, Lyra e Pierce ao redor de uma fogueira de acampamento. Viu Cynthia e Miri no chalé na Vila Musuhi depois de um dia no sítio arqueológico de Sinjoh. Viu Khoury e os gêmeos Wehrii no museu das Ruínas de Alph. Ele viu cada pessoa que conheceu nas últimas semanas: Mira, Joey, Kara, o grupo de Silver, Min. Então ele abriu os olhos e decidido disse:

— Minha humanidade — disse. A voz firme. Fria. Resignada. — Eu dou a minha humanidade.

A entidade piscou lentamente, e por um momento Ren não soube dizer se ela se surpreendera ou se já esperava pela resposta desde antes dele existir.

— Sua humanidade por sua vida humana. Que intrigante. — A entidade inclinou a cabeça, estudando-o como quem observa um quebra-cabeça que muda de forma sozinho. — Alguns trocariam a humanidade por divindade, afinal, a divindade é ser sem falhas, perfeito, mas ser humano é ser imperfeito. Quando alguém troca a humanidade pela chance de ser humano o que acontece? Que pergunta paradoxal.

O infinito branco pareceu reagir às palavras. Tingiu-se de furta-cor, de prismas quebrados, de tons que não existiam no mundo real. E então, como linhas de código digitadas no tecido da realidade, caracteres Unown começaram a surgir ao redor rodopiando, orbitando, reorganizando-se como se reescrevessem a própria existência.

— O que acontece quando alguém escolhe dar a própria humanidade? — musitou a entidade, os olhos se estreitando como se olhasse além do tempo. — O que Ren se tornará quando der a sua humanidade? O que Ren significará quando renascer, mas não como um humano? O que você vai ser assim que abrir os olhos e não lembrar deste acordo?

Ren não hesitou. Não porque não tivesse medo, mas porque o medo já não pesava tanto quanto perder tudo e todos que importavam. Então ele apertou a mão da entidade. A mesma mão que era a dele. A mesma mão que poderia ser de qualquer ser vivo do universo.

A entidade sorriu, talvez com certo orgulho.

— Talvez eu deva descobrir quando eu voltar — disse Ren. — Eu sei quem é Ren. Eu sou Ren. Eu defino quem eu quero ser a partir de agora.

A entidade soltou sua mão e, por um instante, seus olhos deixaram de ser apenas olhos copiando os de Ren. Eram estrelas. Eram quasares rompendo de um buraco negro. Eram nebulosas e pó das estrelas. Era tudo. Era nada ao mesmo tempo.

— Então que assim seja — declarou. — Espero não ver você novamente, Renato Caniedo. Isso significará que continuará vivendo. Continua existindo. Ainda há muito pela frente… e eu espero, sinceramente, que você não se arrependa do que escolheu. 

O chão brilhou. O ar brilhou. Ren brilhou. E, enquanto a luz começava a rasgá-lo de volta ao mundo dos vivos, uma última frase ecoou, tão distante quanto um sonho que logo é esquecido assim que se acorda.

— Adeus, Ren… e seja algo novo.



Luca

Dimensão dos Unown


A explosão iridescente ainda queimava nas retinas de Luca. Era uma luz impossível, pura demais, violenta demais, e quando finalmente se dissipou, o silêncio que veio depois foi mais terrível do que qualquer som.

Alphaeus desfazia-se em fitilhos de ectoplasma, gritando sem boca, dilacerando-se como fumaça sendo arrancada por ventania. Mas Luca não viu a vitória. Não viu a queda do rei espectral. Seus olhos estavam fixos em outra coisa, no corpo que flutuava lentamente, como se o vazio estivesse tentando ampará-lo: Ren.

Seu corpo estava caído, morto, como um cadáver de afogamento vindo à superfície. O espaço ao redor parecia perder cor.

Livres enfim do peso gravitacional de Alphaeus, Luca atirou-se para frente, correndo no éter como se suas pernas fossem cacos de vidro rasgando o nada. O peito doía. A respiração falhava. A realidade tremeluzia ao seu redor, mas nada disso importava. Ele alcançou Ren em segundos que pareceram anos.

O corpo do amigo estava frio. Muito frio. A pele já assumia uma palidez mortiça, e o rasgo aberto no peito brilhava, grotesco, uma cavidade vazia onde antes havia um coração batendo.

— Ren… Ren-ren… — Luca caiu de joelhos, segurando o amigo pelos ombros, a voz quebrada, partida em lâminas. — Por que você… por que você fez isso?! Seu mané… seu idiota… NÃO ERA PRA VOCÊ BANCAR O HERÓI!

A garganta dele se fechou. Algo entre um soluço e um grito tentou escapar, mas morreu sufocado.

Khoury aproximou-se mancando, ainda trêmulo. Ele conhecia Ren por tipo, horas, talvez, e ainda assim seus olhos marejaram. Talvez porque alguém morrer por você é algo que atravessa qualquer intimidade, qualquer tempo. Talvez porque ele soubesse, no fundo, que estava vivo por causa daquele garoto que agora jazia imóvel nos braços de Luca.

Miri chegou logo atrás, lágrimas já escorrendo sem pudor. Seu Glaceon roçava o focinho no braço gélido de Ren, insistindo como se um toque suave pudesse chamar alguém de volta da morte. Cynthia permaneceu de pé por alguns segundos, pálida, encarando a cena como quem tenta negar o inevitável. Até Kutabe baixou a cabeça em silêncio, como se o próprio vazio pedisse reverência.

E então os Unown vieram.

Centenas. Talvez milhares. Um enxame gravitacional que se organizava em torno do corpo de Ren, seus olhos únicos refletindo a ferida aberta, aquela cavidade brilhante, profunda, pulsante como o braço de uma galáxia que tentasse nascer. Eles giravam. Vibravam. Convergiam. Um balé em espiral de planetas colapsando em torno de um sol morto.

A respiração de Luca falhou outra vez. Ele puxou Ren contra o peito, como se pudesse aquecê-lo com pura força de vontade. Como se pudesse trazê-lo de volta apenas encarando o absurdo de perdê-lo.

— Cara… — sussurrou entre soluços. — Eu ainda tinha coisa pra te zoar… pra te contar… você não podia só… só sumir assim… porra, Ren… O Pierce vai surtar quando souber… e a Lyra… — a voz cedeu, implodindo — Por favor. Volta. Só… volta…

Cynthia pousou a mão no ombro dele, suave como neve caindo.

— Luca… não há nada que possamos fazer. Ele se foi…

NÃO! — ele explodiu, lágrimas desabando como rios após a chuva. — Meu irmão não vai aguentar isso. A Lyra… E EU… eu não quero viver num mundo em que o Ren não está. Vocês não entendem…

Os Pokémon se aproximaram devagar, como se o luto tivesse seu próprio campo gravitacional. Kutabe pastoreava os demais. O Spiritomb de Cynthia pairava, calado, como uma vela gasta. Glaceon, Swinub, Togepi, Zorua… até o Orbeetle e o Bronzong de Brandon, normalmente tão impassíveis, curvaram-se em respeito.

Mas foram os Pokémon de Ren que mais sofreram. Styx deitou-se ao lado do dono, emitindo ganidos curtos, desesperados, lambendo os dedos já rígidos como se tentasse acordá-lo. Gorgyra pousou sobre os cabelos de Ren e começou a puxá-los, bagunçando-os do jeitinho que sempre fazia para chamar atenção. Feebas apenas repousou encostado nele, como se a tristeza fosse pesada demais para outro gesto.

E então os Unown se aproximaram mais. Talvez não entendessem a morte. Talvez não entendessem a vida. Mas entendiam Ren, entendiam o laço. Um deles flutuou até a ferida. Pequeno, esguio, com um apêndice reto e outro inclinado, olhando bem até parecia uma letra R. Seu único olho brilhou em furta-cor. E uma bolha de Hidden Power emergiu, suave como um suspiro.

Ela pousou dentro do peito aberto de Ren. E então todos os outros seguiram. Bolhas e mais bolhas. Esferas de energia pura gravitando na direção da cavidade. A luz — de todos os tipos, todas as naturezas — condensou-se, cristalizou-se, encaixou-se entre costelas que renasciam, entre músculos que se reteciam, entre pulmões que se inflavam de novo. Algo do tamanho de um punho alojou-se ali, pulsante tal qual a jóia a qual Alphaeus e Brandon tanto queriam.

Luca, de olhos arregalados, viu a cor voltar ao rosto pálido de Ren. Viu os dedos perderem a rigidez. Viu a ferida fechar-se, costura por costura, como se o tempo estivesse remendando o corpo. E então…

O peito de Ren subiu em uma inspiração brusca sugando o ar. Em seguida ele tossiu: um som áspero, quase afogado. E então os olhos se abriram. Eles ainda eram verdes de chá, mas as pupilas… não eram mais no mesmo formato fechaduras. Eram halos espigados em meio ao mar de matcha com partes espigadas em formato de X com pontas terminada em cruzes.

Ren piscou, confuso, a voz embargada, mas viva.

— P-pessoal…? — a voz canora, ligeiramente rouca, exatamente dele e ainda assim diferente. — A gente… venceu… não venceu?

— Não pode ser… — Cynthia levou a mão à boca, chocada.

— Seu desgraçado! — Luca berrou, socando o ombro de Ren. — Por que você fez isso?!

— Ai! — Ren reclamou, encolhendo-se.

Houndour latiu, tremendo de felicidade, e começou a lamber o rosto do treinador; Murkrow grasnou alto, batendo as asas enquanto puxava o cabelo dele; até Feebas nadou no ar etéreo, roçando-se contra o garoto como se estivesse prestes a chorar também, se é que peixes choravam.

— Pessoal, para, para! Eu tô bem, eu não morri — Ren disse, rindo, como se o próprio riso ajudasse a manter o mundo grudado no lugar.

— Então… — Miri coçou a têmpora, constrangida — tecnicamente cê morreu sim. Tipo… bem morto. Você estava com um rombo no peito do tamanho de uma maçã. Você se sacrificou pra derrotar o rei maluco ali.

Ela apontou para um aglomerado de fitilhos ectoplasmáticos flutuando no vácuo, que começavam a se contorcer e tentar assumir uma forma vagamente humanoide. Luca soltou uma risadinha nervosa; Ren apenas fitou aquilo, sério demais para alguém que acabara de voltar dos mortos.

— Você se lembra do que aconteceu enquanto “não estava aqui”? — Cynthia perguntou com cautela.

Ren balançou a cabeça em negação. A campeã franziu o cenho, claramente interessada. Luca franziu também, mas porque estava cansado daquele dia continuar piorando.

— Bem… — Cynthia suspirou — temos um problema maior. Seu sacrifício… atrasou Alphaeus, mas não acabou totalmente com ele. Ele está tentando se recompor, então precisamos sair daqui antes que isso termine mal pra todo mundo.

À frente, os filamentos ectoplasmáticos se retorciam como destroços marinhos puxados por correntes invisíveis, reunindo-se em pulsos irregulares. Era como assistir o coração de um pesadelo tentando voltar a bater.

— Então… é isso? — Luca engoliu seco. — Ele ainda pode voltar?

— Não sei por quanto tempo podemos mantê-lo assim — Cynthia respondeu. — Precisamos sair desta dimensão. Todos vocês precisam voltar para casa. E Benjamin Brandon… — ela olhou para o arqueólogo desacordado, agora livre do esquife congelado — …precisa responder pelos crimes que cometeu.

— Vai ser divertido explicar isso pra polícia — Miri murmurou com  ironia.

Khoury ergueu as mãos, desesperado:

— Tá, ótimo, mas como a gente sai daqui?! Não existe porta, não existe chão, não existe nada. Como?!

E então… Uma voz ecoou pelo vazio. Velha, grave, cansada.

— Basta pedir aos Unown.

Todos olharam para cima ao mesmo tempo, alguns em alerta, outros em puro esgotamento emocional. Entre as banquisas e blocos de mnamita, surgiu uma figura idosa e translúcida, com túnicas longas que ondulavam como fumaça e uma barba que parecia tocar o infinito. Ren abriu um sorriso pequeno e genuíno. Luca suspirou alto, exasperado demais para fingir educação.

— Ah não. Não — Miri gemeu. — Outro fantasma não…

— Se eu ganhasse uma moeda pra cada fantasma que apareceu hoje eu teria duas — Luca declarou. — E duas já é dinheiro demais. Eu só quero ir pra casa.

Ren ergueu as mãos, tentando acalmar o amigo:

— Grex é inofensivo. Se não fosse por ele eu nem teria encontrado vocês. Ele é… bom.

O espírito soltou uma risada curta, doce na superfície, amarga no fundo, como alguém que já esqueceu o sabor do perdão.

— Ha, criança… eu não diria que sou bom — Grex corrigiu, a voz reverberando como vento dentro de um templo vazio. — Cometi coisas irreparáveis. Sacrifiquei uma cidade inteira. Fui eu quem arquitetou tudo o que Alphaeus desejava: por inveja, por orgulho, por ganância… pela luxúria covarde de tocar um fiapo do poder do Todo-Poderoso Sinnoh. Ambicionamos aquilo que jamais nos pertenceu. E paguei o preço. Este lugar é meu tártaro. Minha prisão. Minha punição. E meu fim.

O fantasma dobrou-se em si mesmo, afunilando-se, até virar uma nuvem de fumaça branca que serpenteou pelo ar. Ele passou pelos fitilhos de Alphaeus, que ainda agonizavam no vazio, e aproximou-se do grupo.

— Encontrou as respostas que queria, rapaz? — perguntou, a voz soando mais velha do que antes. — O que o torna “especial”? O que o torna “Ren”? E… o que você sacrificou para continuar sendo “Ren”?

Luca piscou, confuso, porque nada daquilo fazia sentido para ele. Mas Ren pareceu igualmente perdido, como se a pergunta abrisse uma porta que ele ainda não queria olhar por dentro. Ele respirou, desviou o olhar por um segundo. Depois encarou Grex de volta.

— Eu… não sei se tenho essa resposta. E também não lembro de nada quando eu tava morto por, sei lá, cinco minutos — disse com honestidade nua, crua. — Só sei que o que me torna especial é que eu sou Ren. E o que eu vou ser é algo que eu quero descobrir por conta própria. E com meus amigos. Isso te responde alguma coisa?

O fantasma apenas assentiu. Devagar. Sem julgar. Sem contestar.

— Vocês conseguiram parar Alphaeus — disse Grex. — Sua loucura, sua voracidade, tudo. Mas fantasmas famintos sempre voltam. Uma hora seu corpo ectoplásmico tentará se formar de novo. Ele ficará preso aqui, eternamente, mas vocês… vocês têm a escolha de partir.

Grex inclinou a cabeça na direção de Ren.

— E cabe a você abrir o caminho.

— A mim? — Ren ergueu as sobrancelhas, incrédulo.

— O poder do Núcleo de Mystri e o Hidden Power dos Unown são irmãos — explicou Grex, a forma dele já começando a desfiar em véus brancos. — E parte disso… pulsa em você agora, bem onde seu coração esteve. É como se os próprios Unown tivessem dado a você um novo Núcleo como fizeram em Sinjoh uma vez. Isso me lembra até uma das histórias antigas…

Ren franziu o cenho, mas não disse nada.

— Entre os antigos, havia um nome para isso que você é. O primeiro rei de Alph ele também caiu nesta dimensão e quando voltou, ele não era mais humano. Assim dizem as histórias. — continuou o sábio, quase como se falasse para si mesmo. — As histórias o chamavam de “óculo de Avalokiteshvara”.

Ren continuou sem entender, assim como Luca que estava achando aquela conversa uma grande maluquice. Sua mente já estava exausta demais para processar tudo aquilo. No momento ele apenas queria tomar um banho estupidamente longo e dormir até que o sol raiasse no dia seguinte.

— Perdão, ese velho sábio gosta de divagar, mas resumindo, os Unown o reconhecem porque o seu novo centro fala a mesma língua que eles — disse Grex, com a voz agora quase vento. — É por isso que o seguiram. E é por isso que podem levá-los de volta.

A luz fantasmagórica dele vacilou, diminuindo.

— Você se lembra de como chamou os Unown antes, para guiá-lo até aqui?

Ren assentiu devagar, sentindo o peso do momento pressionar o peito.

— Então peça de novo — disse Grex. — Peça que eles o levem de volta. Todos vocês. Peça o caminho para casa.

Grex recuou, dissolvendo-se completamente, como cinzas soprada por um vento que não existia.

— Esta é uma despedida, criança — murmurou sua voz ao sumir. — Que eu não torne a vê-lo. Este lugar não é para seres humanos. É meu tártaro. E o de Alphaeus. E a morada eterna dos Unown.

E então veio o silêncio. O tipo de silêncio que só existe quando um fantasma, de fato, vai embora.

Ren permaneceu imóvel por alguns segundos depois que a voz de Grex desapareceu, como se ainda tentasse entender o vazio que ficava no lugar onde o espírito estivera. O silêncio do éter parecia expandir, quase se espreitando dentro de seus ouvidos. Ele engoliu seco, olhar perdido nos cristais flutuantes, nos pedaços de ectoplasma, nos rostos de seus amigos ainda pálidos, tensos, esperando que ele dissesse alguma coisa.

— Então… — Luca soltou, com a respiração presa na garganta. — Você consegue fazer… tipo… um portal? Uma saída daqui?

— Bem, não — disse o garoto para o amigo.

— Uma pena, seria um poder bem foda — comenta Khoury — viria muito a calhar.

— Quando eu estava procurando por vocês eu pedi ajuda aos Unown, eu meio que os controlava, igual…. — ele olhou para o corpo desacordado de Benjamin Brandon. — igual Brandon. Eu não queria controlá-los, sabe? Eles reagiram ao Núcleo e souberam o que eu queria.

— Isso faz sentido — fala Cynthia. — Unown são criaturas sensitivas. Eles não tem vontade própria, eles reagirem a uma forma de poder idêntica a deles, mas ciente de si talvez os fez ligar a você. Poderia tentar isso de novo, Ren?

— Posso tentar — ele disse.

O garoto fechou os olhos e antes que pudesse fazer qualquer movimento os Unown vieram a ele. Os Pokémon Símbolo rodearam o menino de cabelos fúcsia, Luca ficou impressionado com o feito. Antes que se dessem conta o espaço rompeu como um papel, rasgando-se em dois e, do outro lado, era possível ver as ruas e casas de pedra e o vale das Vinte e Oito Mansões com seus templos e plazas na parte sul das Ruínas de Alph.

Cynthia, com a ajuda de sua assistente e de Spiritomb, seguraram o corpo inconsciente de Benjamin Brandon. Khoury foi o primeiro a atravessar a fenda dimensional, sem hesitar e logo Kutabe, o Absol, foi carregando os Pokémon do grupo. Luca foi em seguida, deixando Ren que, olhou para o espaço entre dimensões e saltou junto, retornando à Johto, de onde tinham desaparecido horas atrás.




Professor Spencer Hale

Vale das Vinte e Oito Mansões, Ruínas de Alph, Johto


Já tinha passado das cinco e meia da tarde, o sol estava a quase se pondo. As buscas haviam parado, a equipe arqueológica de Professor Spencer Hale não havia conseguido encontrar nem Ren, Khoury ou Luca, muito menos de Dr. Brandon.

A polícia havia sido notificada, alguns policiais  de Violet, estavam verificando o perímetro e colocando seus Growlithe e Houndoom rastreadores para procurar por qualquer sinal dos garotos por meio de Odor Sleuth. Spencer não podia deixar sua reputação ir para a lama agora que havia assumido o sítio arqueológico das Ruínas de Alph. O neto de seu antigo mentor havia desaparecido junto com o amigo, ele tinha crianças esperando por elas no museu, esperando impacientemente. Mr. Pokémon iria ficar abalado se soubesse que seu neto tinha simplesmente sumido ali no sítio arqueológico.

Caminhando pelo Vale das Vinte e Oito Mansões ao lado da Dra. Wehrii, Spencer estava cabisbaixo, derrotado. Ele não podia acreditar que deixou três crianças que estavam sob sua tutela desaparecer. Se fosse Molly ali ele estaria enlouquecendo revirando pedra sob pedra naquelas ruínas procurando por ela. Ele soltou um suspiro prolongado.

— Acalme-se, Spencer — disse Osmunda para ele. — Não podemos perder as esperanças assim. Se os outros meninos conseguiram sair, os dois também conseguirão. Meus sobrinhos já fizeram coisa bem pior. Houve uma vez em Sinnoh que eles entraram em uma mina de carvão e sumiram por umas doze horas e quando voltaram estavam sujos de pó de carvão e com um fóssil cada um.

Ele sabia que ela estava tentando fazer ele se sentir bem, mas ele havia deixado que seu estagiário e dois adolescentes que foram trazidos por Mr. Pokémon horas mais cedo. Ossie não fazia por mal, mas ele não podia deixar de se sentir mau por não ter ficado tomando guarda e só deixando-os a Arceus-dará para explorarem as ruínas por conta própria.

Pelos relatos de Lyra e de Silver, todos haviam caído no subterrâneo das ruínas, em partes diferentes quando, durante uma batalha, um mecanismo fora ativado num velho anfiteatro. O grupo de Lyra com Pierce, um dos netos de Mr. Pokémon, e os sobrinhos da Dra. Wehrii, Orion e Kessil, e o grupo de Silver com Aleks, Tomoki e Kousei, tinham reaparecido pelas duas da tarde, quase três, mas até agora nenhum sinal de seu estagiário Khoury, do outro neto de Mr. Pokémon, Luca e de Ren, o outro garoto que acompanhava seu grupo.

O sol se punha sobre o horizonte, tingindo o céu de escarlate, laranja e rosa. Spencer ergueu o pescoço e encarou o crepúsculo que vinha e quando estava prestes a cerrar os olhos ele viu o céu se fender em uma rachadura, colorindo todo o céu vespertino sobre  as ruínas de um tom arco-íris, abrindo-se e, de lá, ele viu mais do que os três meninos os quais procurava, mas duas mulheres, uma adulta e uma adolescente, carregando o corpo de um homem jovem e um grupo pequeno de Pokémon.

— Não pode ser… Pelas asas de Ho-Oh, é… — ele fala, pasmo, não acreditando no que seus olhos viam.

— São eles! — aponta Ossie.

O arqueólogo e a paleontóloga correram em direção deles. Logo atrás o latido dos Pokémon cães dos policiais vinham. Vê-los são e salvos havia feito o coração de Spencer bater mais tranquilamente. Ele abraçou Khoury que parecia ser o mais visivelmente cansado ali, todos cheiravam a neve derretida e poeira o que fazia Spencer questionar-se o que havia ocorrido no meio tempo em que estiveram fora naquelas quase oito horas em que estiveram desaparecidos.

O arqueólogo encarou Luca e depois Ren, ambos os meninos também estavam estafados, sujos e com algumas feridas. O sobrecasaco que Ren usava estava sujo de sangue seco e com um rasgo sobre o peito. Isso preocupou um pouco Spencer.

Ele voltou seu olhar para a mulher loira que tinha vindo com eles por aquela fenda que abrira segundos atrás, uma jovem adulta usando um casaco preto e comprido e com olhos cor de granito, ele já havia visto aquele rosto antes na televisão ou nas redes sociais, mas foi apenas quando a Dra. Wehrii arregalou os olhos e falou que Spencer se deu conta:

— Madame Campeã Cynthia — diz a paleontóloga. — Por céus. Que prazer conhecê-la. Sou Osmunda Wehrii, arqueo-paleontóloga e especialista em restauração de fósseis Pokémon.

— Oh, olá, desculpa a situação incômoda, suponho que devam ser os responsáveis pelo sítio arqueológico — ela diz, carregando o corpo desmaiado do homem jovem com a ajuda de um de seus Pokémon e de uma jovem garota, sua assistente talvez. — Mas… Bem, como posso explicar a vocês. Preciso que me arrumem um lugar para colocar o corpo de Benjamin Brandon e que chamem a polícia para interrogá-lo assim que ele despertar.

— Espera, Dr. Brandon? — Spencer arregalou os olhos, não havia como aquele homem que deveria não ter não mais que vinte e cinco anos era o homem velho daquela manhã que havia chegado de maneira tão repentina no sítio arqueológico. — Mas como…

— É uma longa história — fala a assistente de Cynthia. — Melhor arrumar um lugar para se sentar. Aconteceu muita coisa que acho que nem eu acreditaria se alguém me contasse.

Um dos policiais de Violet, acompanhado por seu Houndoom, que estava próximo da área, junto com alguns outros chamados pelo Professor Spencer Hale, aproximou-se e disse:

— Bem, acabamos de presenciar um grupo de pessoas surgir do nada por meio de um buraco no céu — fala o homem. — Qualquer coisa que nos contar não será nada. O depoimento de vocês será levado em consideração e não será duvidado, Madame Campeã, senhora.

— Obrigado, senhor policial — começa Cynthia. — Meninos, vocês estão confortáveis em dar seus depoimentos?

Ela vira-se para Luca, Khoury e Ren que assentem com a cabeça. Os policiais ajudam a campeã de Sinnoh e carregam o corpo desacordado do arqueólogo galariano, levando-o para o museu onde interrogariam-no assim que ele despertasse. Os demais Pokémon retornaram para as Pokébola de seus treinadores, exceto pelos de Benjamin Brandon e um Pokémon de pelagem branca que, a princípio, Spencer não reconheceu, mas parecia protetivo dos garotos, principalmente de Luca.

Quando retornaram ao museu houve uma grande comoção. Spencer havia pedido que os adolescentes, tanto os que vieram com Mr. Pokémon quanto os que haviam vindo com Dr. Benjamin Brandon, assim como os sobrinhos gêmeos da Dra. Wehrii. Perguntas e mais perguntas vieram, os meninos falaram o que podiam, mas logo Spencer interveio, eles precisavam de espaço.

— Por que não dão um momentinho para eles? — pergunta o arqueólogo. — Eles estão exaustos. Khoury, poderia levar os dois para os dormitórios? Acredito que eles precisam de um bom banho e de algo para comer, eu lidarei com os policiais por ora.

O estagiário que, apesar de estar também igualmente cansado, fez o que foi pedido, indo no piloto automático e guiando Luca e Ren consigo.



Ren

Ruínas de Alph, Johto


Quando a noite caiu e os três meninos estavam alimentados e limpos, a polícia, junto de Cynthia, da Dra. Wehrii e de Spencer, foram prestar os depoimentos. Os amigos dos meninos, os sobrinhos da doutora e os garotos tragos para trabalharem como assistentes temporários para Benjamin Brandon deram seus depoimentos, deixando os do arqueólogo por último.

De acordo com as próprias palavras do galariano ele não tinha vindo ali à convite de Spencer Hale, não, ele tinha vindo pelas próprias ambições de explorar as ruínas de Alph por conta própria e usar do poder dos Unown para tornar-se um deus e reescrever um mundo, ele soava como um maníaco homicida, um lunático, suas palavras não faziam sentido, mas Cynthia fomentou o que ele disse e adicionou mais informações.

Luca, Ren e Khoury contaram o que aconteceram nas catacumbas das ruínas e como pararam em Sinjoh e depararam-se com Cynthia e sob uma segunda escaramuça contra Brandon lá e como haviam parado na dimensão dos Unown. Se ele não tivesse visto-os retornando por uma fenda espacial ele iria jurar que eles também estavam enlouquecendo. Os meninos contaram brevemente algumas das coisas que aconteceram à polícia e logo foram dispensados, mas parecia que eles haviam omitido muitos detalhes, mas ele pensou que talvez fosse o certo, havia coisas que não precisavam ser ditas.

A polícia, depois de recolher os depoimentos, algemou Benjamin Brandon.

Ele responderia por tentativa de homicídio qualificado, sequestro e exposição de menores ao risco, exploração e abuso de Pokémon, invasão de sítio protegido, danos ao patrimônio histórico-cultural, falsidade ideológica e danos à fauna local, já que, ao controlar e manipular os Unown, ele violentava uma espécie catalogada no índex nacional de Johto, dentre outras violações às leis regionais.

Seus Pokémon — Bronzong e Orbeetle — seriam encaminhados para um centro de reabilitação especializada, mas Spencer interveio, oferecendo-se para recebê-los no sítio quando estivessem recuperados; seriam valiosos na preservação das Ruínas de Alph e no trabalho de campo.

Mais tarde naquela noite, enquanto policiais completavam relatórios e Cynthia discutia com Spencer Hale uma parceria conjunta para futuras expedições entre Alph e Sinjoh, o silêncio finalmente desceu sobre o museu.

Ren, porém, não dormia.

Ele ficou sentado na varanda dos dormitórios, as pernas balançando no ar frio da noite. O céu de Johto era vasto e calmo, tão diferente da dimensão onde estivera horas antes que parecia um sonho mal lembrado. A luz das lanternas refletia nos cristais de poeira ainda grudados nas dobras de seu casaco.

A porta rangeu atrás dele.

— Não consegue dormir? — perguntou Khoury, sem os óculos e usando pijamas largos que pareciam ainda maiores nele.

Ren apenas acenou com a cabeça.

Khoury se aproximou devagar, esfregando os olhos, e sentou-se ao lado dele na escada de madeira. O silêncio se instalou entre os dois, mas era um silêncio confortável, interrompido pelo arrulhar dos Hoothoot distantes. Eles não estavam na dimensão dos Unown, estavam em fim em casa.

— Quer… conversar? — perguntou Khoury, a voz baixa, oferecendo sem pressionar.

Ren demorou alguns segundos antes de responder.

— Bem, não é como se eu fosse para outro lugar — diz o garoto de cabelos fúcsias em resposta.

— Mas você não vai partir pela manhã com seus amigos? — pergunta Khoury. — Voltar a jornada?

— Detalhes, Khoury Saint-James, detalhes — ele riu. — Eu... ah... é tão estranho voltar a normalidade depois de, sabe, ter morrido, mesmo que por cinco minutos e quando eu volto eu descubro que posso fazer isso.

Ele estende a palma das mãos e pequenos brilhos pirilampam como estrelas em miniatura, não era como abrir uma dimensão inteira, mas também não era como se Ren conseguisse fazer aquilo de novo.

— Olha, ao menos é um poder legal — ele riu. — Eu já ouvi relatos de gente que consegue levitar coisas com a mente ou que se comunica com os mortos. E sobre isso, eu meio que fiz uma pesquisa de última hora na biblioteca... Eu lembrei do que o que aquele fantasma te chamou lá na dimensão dos Unown.

— Ah, Grex, ele me chamou de... hã... óculos de Alola? — ele inclinou a cabeça confuso.

— Óculo de Avalokiteshvara — responde Khoury. — É um nome complicado, mas Avalokiteshvara é como os antigos Alph chamavam o Arceus. Óculo significa "olho". Você é um olho de Arceus.

— Então eu sou tipo igual aos Unown? — ele pergunta e Khoury assente. — É, que loucura. E pensar que horas atrás eu era só um menino comum de Cherrygrove.

— Se te consola, já houveram outros como você pelo que li bem rápido na biblioteca do museu — fala Khoury. — O primeiro rei dos Alph, Lunaeus, a Majestade Opala, ele foi um óculo. E houve casos em outros lugares também, mas eu estava com um pouco de dor de cabeça. Mas em resumo você não é tão diferente assim de qualquer humano paranormal por aí.

— Ah legal, então eu posso ficar aliviado — ele riu.

— Vejo que ainda estão acordados — disse uma voz feminina.

Era Cynthia, surgindo no batente da porta, seu longo casaco preto ondulando no vento frio, Garchomp ao lado como uma sombra protetora. Ela parecia cansada, mas inteira, daquele jeito que apenas campeões conseguem parecer depois de enfrentar um pesadelo dimensional inteiro.

— Achei que não fossem dormir mesmo, depois do dia que tiveram. Estão se sentindo bem?

Ren ergueu as sobrancelhas.

— “Bem” é bem hiperbólico, não acha?

Cynthia riu, aquela risada curta e elegante, cheia de ironia leve.

— Quanta tenacidade, hein. — Ela deu mais alguns passos, parando perto deles. — Eu só queria passar para vê-los antes de descansar. Vou partir para Sinjoh pela manhã e queria conversar com vocês dois… se estiverem de acordo, claro.

Khoury inclinou a cabeça, curioso.

— Conversar sobre o quê?

— Bem… depois do que aconteceu hoje nas ruínas, eu queria fazer uma proposta.

Khoury e Ren trocaram olhares.

— Luca recusou quando falei com ele — continuou ela. — O pobrezinho está cansado de ruínas velhas e encarquilhadas por um bom tempo, segundo ele. Mas achei que com vocês dois… talvez eu tivesse chance de conversar melhor.

— Sobre o quê? — repetiu Ren.

— Quero convidá-los para fazer parte da minha expedição nas Ruínas de Sinjoh. — a campeã sinnohense sorriu. — Professor Spencer Hale me falou bastante sobre você, Khoury, e eu mesma vi suas notas da Goldenrod Tech. Vejo potencial. E vejo que isso pode fazer bem pra você. Você teria liberdade para pesquisar o que quisesse enquanto estagia comigo. Aceita?

Os olhos de Khoury brilharam como lanternas.

— Sim. Sim! SIM! Mil vezes sim! — ele explodiu, quase tremendo de animação.

Cynthia sorriu, satisfeita.

— Um já foi. Falta mais um.

Ela então virou-se para Ren, que engoliu seco, sem saber onde enfiar as mãos.

— E você, Ren? — disse ela com um sorriso leve, sem pressão. — A escolha é totalmente sua. Se não quiser, tudo bem. Depois do que vocês passaram hoje, seria normal estar cansado de ruínas.

Ren coçou a nuca.

— É… eu tô mesmo cansado de ruínas depois de hoje — admitiu. — E eu já vou voltar pra jornada com os meus amigos amanhã. Pierce, Lyra e Luca precisam de mim. Eu sou meio que a cola do grupo, sabe?

Cynthia deu um risinho.

— Faz sentido.

Ren respirou fundo, pensou e então:

— Mas… posso deixar essa resposta em aberto?

A campeã arqueou a sobrancelha.

— Em aberto?

— É que… eu ainda quero saber quem eu sou. E o que eu quero. Mas também quero, sei lá… descobrir mais. Pesquisar mais. — ele fez uma careta. — Arceus, eu tô soando como um nerd.

Khoury cutucou ele com o cotovelo. Ren reclamou baixinho de dor. Cynthia riu, divertida, mas sem zombar.

— O que eu quero dizer — Ren continuou — é que depois de hoje… eu acho que quero ser um pesquisador. Nunca imaginei isso, mas…

— Mas entende um pouco das ambições de Benjamin Brandon agora, não é? — completou Cynthia, com um tom mais sério. — Não o culpo. Já vi homens muito talentosos e muito ambiciosos acabarem exatamente onde Brandon acabou. E, claro, já vi adolescentes como vocês impedirem esses mesmos homens de destruírem o mundo. Só perguntar para a Miri.

— Espera — disseram Ren e Khoury ao mesmo tempo. — A Miri?!

— Uma história ainda mais longa — disse a campeã, sorrindo de canto.

Cynthia se sentou ao lado deles, apoiando os braços sobre os joelhos, respirando o ar frio da noite.

— Ren, se você quiser ser um pesquisador júnior, mas continuar no seu próprio ritmo… essa é uma escolha sua. E é uma escolha válida. Não precisa nem de ficar em um laboratório ou um sítio como esse. O mundo é seu objeto de estudo. — Ela pousou uma mão leve sobre o ombro dele. — Mas você sempre será bem-vindo na minha equipe. A proposta está aberta. Sem prazo.

Ela então se levantou, ajeitando o casaco, e chamou Garchomp com um aceno de cabeça.

— Agora vão dormir, meninos. — Ela sorriu de um jeito maternal e cansado. — Esta velha aqui precisa de no mínimo oito horas de sono pra funcionar propriamente. Tcha-tchau.

A campeã voltou para os dormitórios, deixando os meninos ali, sozinhos sob o céu escuro de Johto, acompanhados apenas pelo piado ritmado dos Hoothoot e pelo farfalhar das árvores. Quando a silhueta de Cynthia finalmente sumiu no corredor iluminado, o silêncio que ficou não era desconfortável; era apenas o som da noite e da natureza que os cercava.

Depois que ela se foi, Ren e Khoury continuaram conversando por mais um tempo, sentados lado a lado na escada de madeira, como se estivessem tentando se convencer de que, sim, o mundo ainda era normal o bastante para permitir conversas banais.

E funcionou.

Ren descobriu que Khoury colecionava action figures de animes mecha e tokusatsu, que tinha uma prateleira inteira dedicada ao Mecha Tyranitar, sua saga favorita, justamente porque misturava as duas coisas que mais amava: robôs gigantes e monstros colossais destruindo cidades de papelão. Descobriu também sobre sua vida na Goldenrod Tech, sobre como já conhecia os gêmeos Wehrii antes de estagiar nas Ruínas de Alph com Spencer Hale, e como Orion e Kessil eram um caos ambulante desde sempre.

Ren então contou um pouco sobre si. Falou do quanto gostava de tocar guitarra e como, ao contrário de Khoury, era mais atlético já que fazia parte da equipe de natação da escola em Cherrygrove. Contou também sobre seus gostos mais pessoais: animes e mangás boys’ love. Khoury não reagiu com surpresa nem estranhamento; apenas assentiu, como se estivesse comentando a previsão do tempo.

— Bem, se você soubesse o tanto de fanarts que existem dos protagonistas de um anime de esportes que eu comecei a ver essa temporada… O fandom de Draco Meteor Strikers!!!! é uma loucura! — Khoury riu, jogando o corpo para trás. — Sério. Esse anime tem tão pouca personagem feminina que só dá pra shippar os personagens masculinos entre si.

Ren gargalhou alto, a barriga doendo.

— Mas você não liga para isso? — indaga ele.

— Não, bem, eu não gosto de meninos nem nada, mas também não tenho nenhum preconceito — ele deu de ombros. — Lá na escola, na Goldenrod Tech, eu me acostumei com o tempo, tem gente de todo o tipo, o pessoal lá é mais mente aberta que na minha cidade natal.

— Então não tem problemas comigo, sabe, ser gay, não é?

— Nenhum — ele riu. — A gente é dois párias, a gente precisa se unir, né?

A conversa fluiu tão fácil que o tempo passou sem que percebessem. Eles falaram por quase duas horas, atravessando da noite para o começo da madrugada, quando a porta do refeitório se abriu e a Dra. Osmunda Wehrii apareceu com o rosto besuntado de creme hidratante, os cabelos presos em uma touca de cetim e usando um penhoar estampado com fósseis por cima da camisola.

— Senhores — ela disse, seca — alguns de nós precisamos dormir. Façam silêncio ou vou colocar vocês para lavar o chão do museu inteiro até o sol nascer.

Os meninos se entreolharam e entraram instantaneamente em modo furtivo.

— Sim, senhora — responderam em uníssono, lutando para não rir.

Voltaram para dentro, pisando na ponta dos pés, e seguiram para o quarto de Khoury. Mas, claro, continuaram conversando ali, deitados de barriga para cima, olhando para o teto como se fosse um céu estrelado.

E naquele quarto simples, aquecido pelos abajures fracos, pela primeira vez no dia eles deixaram de ser dois garotos que haviam sido arremessados para outra dimensão. Ren esqueceu que tinha morrido em outro plano. Khoury esqueceu que fora sequestrado por um lunático. Por algumas horas, até o sono finalmente vencê-los, eles simplesmente foram adolescentes.

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