Ren
Dimensão dos Unown
Segunda-feira, 16 de maio, ano 30 (Era Tōitsu)
Navegar por aquela imensidão era pior do que nadar contra a correnteza do rio Cherrygrove, como fazia antes das competições de natação quando a mãe o obrigava a treinar até os músculos queimarem. Ainda assim, com a ajuda de Feebas, Ren conseguia mover-se entre os blocos iridescentes de cristal que flutuavam no éter.
Unown circundavam-no aos montes. Giravam em torno do garoto e de seus Pokémon, orbitando-o como planetas em torno de um sol. Seus olhos únicos, fixos e estáticos, miravam o rasgo no sobrecasaco onde o fragmento do Núcleo de Mystri pulsava, embutido em sua carne: um segundo coração, latejando em sincronia com o primeiro enquanto fincava-se ainda mais em sua carne, clivando-a.
Ren ainda se acostumava à ideia de carregar aquilo dentro de si: um pedaço de joia opalescente feita de poder primordial, do Hidden Power condensado de milhares de Unown como um presente aos Celestica e aos Alph que se estabeleceram nas terras frias de Sinjoh. Talvez fosse por isso que os Unown se atraíam a ele, aquele fragmento era parte deles, uma minúscula partícula do todo que dera forma ao universo. E, mesmo assim, homens como Brandon, Alphaeus e Grex haviam cobiçado aquele grão microscópico de criação como se pudessem, com isso, rivalizar os céus e o próprio Criador.
Às vezes, pensou, o menor grão de areia era capaz de pender toda uma balança. E, às vezes, os grandes homens eram, na verdade, anões tentando dar passos maiores que as próprias pernas.
Era irônico. Ele, Ren Caniedo, um garoto comum de Cherrygrove, sem pretensões de grandeza como seus amigos Pierce ou Lyra, carregar consigo algo que um dia fora uma centelha de Arceus. E, por um instante, ele achou que conseguia entender, ou ao menos fingir entender, o que levava pessoas como Brandon a desejar tanto poder. A loucura, talvez, não viesse do poder em si, mas da fome pelo impossível.
Atrás dele, Styx remava devagar, com o Swinub de Khoury adormecido em suas costas. Ren olhou para eles e sentiu um aperto duplo no peito. Khoury. Luca. Cynthia. Miri. Onde estariam agora? Será que estavam bem? Será que estavam vivos?
Um suspiro escapou-lhe. Ele parou, suspenso naquele oceano de nada, e ergueu o olhar. Ou seria abaixou? Ali, não havia direção. Feebas flutuava imóvel, observando-o; Styx o fitava, língua pendurada, e Swinub continuava a roncar, alheio ao caos do cosmos.
— Eu tenho medo... — murmurou, baixo. — E se... eu não conseguir encontrá-los? E se eu não conseguir deter Brandon? E se…
Os “e se” se empilharam na mente dele como pedras no fundo de um rio, cada um mais pesado que o outro. O coração apertava, o ar parecia rarefeito. Os Unown giravam mais rápido, formando uma espiral ao redor dele.
Ren levou a mão ao peito. Sentiu o batimento descompassado e então, o outro, o novo. O Núcleo pulsava sob sua pele, vibrando como as cordas de um violão. De súbito, a pressão aumentou. O fragmento afundou-se por completo em seu esterno. Um choque percorreu-lhe o corpo, dos pés à nuca, atravessando a espinha até o cérebro, mas não doeu.
Não era dor. Era energia. Um calor elétrico, vivo, subindo pelas veias, queimando de um jeito bom. Um arrepio, uma vertigem, uma expansão. Ele soltou o ar, um gemido breve, quase um suspiro. A sensação era como segurar um espirro por muito tempo e não conseguir soltar.
E então ele sentiu tudo: O éter. O fluxo invisível de Hidden Power correndo entre os blocos de mnamita. O bater coletivo dos Unown como um coral de pulsações. O tecido da Dimensão dos Unown respirando, lenta, constante, viva.
— O que... o que foi isso... — murmurou.
O som dos Unown tomou a forma de zumbidos e chiados dentro de sua cabeça. O caracol de seus tímpanos vibrava em diapasão, as frequências misturando-se, até que ele não soube mais onde terminavam os sons e começavam os pensamentos. De repente tudo ficou mudo, um silêncio completo, como se o universo tivesse abaixado o volume e deixado Ren pensar.
Aos poucos ele abriu os olhos, as luzes que refletiam dos cristais adentraram suas córneas e a primeira imagem que viu foi os Unown rondando-o como um cinturão de asteróides o que chegou a assustar ele. Ele estava controlando os Unown?
Os Pokémon cor de tinta flutuavam pelo vazio ao redor dele, seus olhinhos piscando. O Houndour de Ren cheirou eles, mas eles se afastaram enquanto Feebas circundava-os e, como de praxe, o Swinub de Khoury ignorou-os.
Ren não queria controlar os Unown. Não como Brandon havia feito, mas de algum modo ele exercia seu controle sobre aqueles Pokémon simples. Ele havia sido controlado a vida toda, obrigado a ser o que não era, não seria ele que continuaria um ciclo e impôr suas vontades sobre um grupo de Pokémon que nem vontade própria tinham.
— Vocês poderiam me ajudar a encontrar os meus amigos? — perguntou para os Pokémon que o cercava.
Os Unown ao invés de darem respostas diretas, começaram a girar, seus olhos piscaram e logo flashes invadiram a mente de Ren mostrando partes diferentes da dimensão.
Primeiro ele viu Cynthia nas costas de seu Garchomp, enquanto logo atrás vinha Miri em seu Staraptor. Luca estava junto delas com seus dois Pokémon e aquele Pokémon branco que ele desconhecia, que corria logo atrás. Um segundo flash veio à sua mente e ele viu uma massa escura e pulsante em meio ao furta-cor e, preso em meio aos cristais, estava Khoury enrolado em faixas de seda como uma múmia e, com ele, estavam o que parecia ser os Pokémon de Brandon, os três com medo de algo foi então que Ren viu do que se tratava a massa escura miasmática que parecia sugar tudo ao seu entorno.
Uma figura masculina erguia-se, flutuando entre os blocos de mnamita. Um homem jovem em seus vinte e poucos anos de idade observava Ren de volta com um olhar sardônico. Aqueles olhos leitosos fixavam nos de Ren, por um segundo ele questionava quem era aquela pessoa até notar uma rachadura no monóculo. Aquele era Benjamin Brandon, mas… mas como?
A aparência de Brandon era jovial. A pele não era marcada por rugas e nem marcas de idade, não havia mais os cabelos brancos ou aquele bigode grosso, mas cabelos negros como a asa de um Murkrow que batiam até a nuca. Ele parecia até um daqueles atores de filme unovano, mas havia algo de uncanny em sua aparência.
Os braços e as pontas dos dedos eram translúcidos como cristal contendo todas as cores do espectro. Veias de luz passavam pelo corpo, tremeluzindo no éter. Os olhos leitosos e opacos não pareciam humanos. A confirmação veio com um baque forte quando aquilo moveu os lábios, duas vozes saindo de uma única boca.
— Finalmente te encontrei, garoto.
Ren recuou, mesmo Brandon não estando presente ali. Ele sentiu cada célula de seu corpo arrepiar-se, até mesmo sua alma quis sair pela garganta.
— Venha até mim — persuadiu a voz, entremeando entre as dobras de seu cérebro e invadindo o âmago da sua mente.
Outro flash percorreu as córneas do garoto. Aquele ser estranho, aquilo que já fora Benjamin Brandon, circundava Khoury, Bronzong e o Pokémon inseto que Ren desconhecia, tal como uma serpente, saboreando o medo tangente vindo dos três em meio aos blocos de cristal. A criatura encarou Ren e deu um sorriso.
— Venha até mim, criança — disseram as duas vozes, sobrepostas, reverberando como um eco dentro da própria mente de Ren. — Entregue-me o que é meu por direito. Dê-me o que carrega em seu peito e ofereça aquilo que sempre busquei conquistar. Faça isso, e eu pouparei o garoto.
Um dos dedos cristalinos da criatura passou pela face de Khoury, e o menino tremeu, o corpo rígido como pedra. Se pudesse falar, teria gritado, chorado, suplicado, mas a seda que o envolvia o reduzia a um suspiro contido. Aquele toque bastou para Ren entender o que via: Brandon não era mais Brandon. Era duas consciências fundidas em uma aberração. Grex havia avisado sobre o fantasma faminto. E agora ele compreendia o que aquilo significava. Benjamin Brandon e Alphaeus haviam se tornado um só.
Ren não conseguiu reagir. Estava além do choque, além da histeria. O que quer que Brandon tivesse se tornado, aquilo precisava ser parado. Ele havia ultrapassado qualquer limite de humanidade, qualquer sede de poder razoável.
O peito começou a arder. Seu coração e o Núcleo pulsavam em sincronia, o calor subindo do esterno até a garganta. Um vendaval de emoções se misturava dentro dele. Os Unown começaram a rodeá-lo, aproximando-se como se respondessem à cada emoção que ele sentia.
Ren apertou os punhos. O Núcleo dentro de seu peito pulsou mais forte, respondendo à torrente de emoções, e por um instante a luz que emanava dele iluminou toda a dimensão.
Tal qual insetos atraídos por esta luz, os Unown se aproximaram de Ren mais e mais. Os Pokémon do menino encararam as criaturas nativas daquela dimensão. Houndour latiu para os seres cor de tinta enquanto Feebas deu espaço para que os pequenos Pokémon se aproximassem do seu treinador que, ainda sem entender, deixou que eles se aproximassem.
— O que vocês… — Ren encarou os Unown se aproximando cada vez mais perto dele. — O que estão fazendo? V-vocês querem me ajudar?
Os olhos ciclopes dos Pokémon Símbolo brilharam e eles começaram a rodar ao redor do menino e dos Pokémon dele como um cinturão de asteroides e antes que ele pudesse dizer algo, um clarão repentino os engoliu.
Luca
Dimensão dos Unown
Rasgando a dimensão nas costas do Garchomp de Cynthia, Luca observava o movimento lento e hipnótico dos cristais, como um mar de icebergs flutuando num oceano sem cor. Os Unown se dispersavam em todas as direções, fugindo como cardumes assustados. A campeã sinnohana mantinha o olhar fixo no horizonte etéreo, a expressão dura, e Luca não podia culpá-la. Ele também estava preocupado. Preocupado se conseguiria voltar para casa. Preocupado com Ren. Preocupado com…
Um estrondo interrompeu sua linha de raciocínio: um impacto seco entre dois blocos colossais de mnamita. Os três voltaram a atenção para o ponto de onde o som viera. Luca estreitou os olhos, tentando enxergar melhor através do brilho iridescente.
Uma figura humana flutuava entre as rochas. Por um instante, ele pensou que fosse Khoury. Mas, quando a imagem se definiu, o choque cortou-lhe a respiração: um homem jovem, pele lisa, cabelos negros batendo na nuca, vestindo o que restava de um terno de safári. A silhueta era mais esguia, mas o olhar… o olhar era o mesmo.
— Brandon… — sussurrou Luca, incrédulo.
— O que aconteceu com ele? — perguntou Miri, a voz trêmula. — Ele está tão… diferente…
— Não importa o que aconteceu com ele — disse Cynthia, num tom frio, entrando em modo de combate. — Olhem ali.
O dedo dela apontava para uma fenda estreita entre dois blocos de cristal. Ali, preso como uma múmia, estava Khoury, completamente envolto em faixas de seda. Ao lado dele, Bronzong e Orbeetle encolhiam-se, aterrorizados pela presença do Brandon rejuvenescido.
O coração de Luca caiu no estômago.
— Temos que soltar ele — disse, firme. Ele sabia o que era ficar preso naquelas teias. Além disso, queria impedir Brandon de uma vez por todas.
— Não podemos ir sem um plano — retrucou Cynthia, já analisando rapidamente o ambiente. — Isso seria suicídio.
Ela coçou o queixo, pensativa, observando o posicionamento dos cristais, do fluxo dos Unown, a distância até o alvo. Miri esperava suas instruções; Luca, com Togepi no colo e Zorua agarrado à sua touca, também.
— Miri — disse Cynthia, repentinamente decidida. — Precisarei do seu Glaceon.
— Meu Glaceon? — Miri piscou, mas assentiu. — Claro.
— E também precisarei de vocês dois — ela olhou para Luca e depois para Kutabe. — E, Absol… sua ajuda será essencial.
Kutabe ergueu a cabeça, indignado por ser convocado tão casualmente. A esfinge branca virou-se para ela, a voz gélida:
— O que tem em mente, humana?
Cynthia não se intimidou.
— Vou explicar. Venham.
A campeã desmontou de Garchomp e pousou no ar como quem se senta no chão. Flutuava sem peso, absolutamente estável. Os outros se reuniram ao redor para ouvir o plano: sussurrado, estratégico, preciso. Luca apertou Togepi contra o peito. Zorua espiava por cima de seu ombro. Miri ouvia concentrada. Até Kutabe, relutante, mantinha a cabeça erguida.
O plano era simples, mas ousado.
— Luca, Absol — disse Cynthia após explicar cada detalhe. — Vocês vão primeiro. Precisamos que o atraiam para a isca. Nada de heroísmo estúpido. Apenas provocação suficiente para distraí-lo.
— Irritar alguém é uma arte que eu domino bem — diz Luca com um ar convencido.
Kutabe soltou um ronco.
— Nunca fui isca antes. Detesto a ideia, mas farei.
Luca respirou fundo.
— Ótimo. — Cynthia levantou-se, flutuando. — Miri, assim que eu sinalizar, você solta o Glaceon. Confio em você para libertar Khoury sem ser vista.
— Pode deixar — disse Miri, engolindo seco.
Cynthia devolveu Garchomp à Luxury Ball e trocou por outra, mantendo a expressão séria e convicta.
— Todos a postos?
— Sim! — responderam em uníssono.
Cada um tomou sua posição. A engrenagem do plano começou a girar. Luca e o Absol tomaram a dianteira, passando pelos paredões de cristais até estarem em um ponto alto e visível que deixasse Brandon vulnerável o suficiente para que Miri pudesse se esgueirar por trás. Zorua desceu do capuz do moletom do menino e deslocou-se, a raposa havia entendido o plano e queria ajudar também. Togepi também foi junto do parceiro, pulando dos braços de seu treinador, Luca não argumentou deixou que seus Pokémon o auxiliasse. Os dois Pokémon se separaram e foram para a outra borda do paredão.
— Olha só, Brandon, quem diria — disse ele do topo do paredão cristalino, mirando Brandon lá embaixo. — Vir para outra dimensão fez milagres em um brucutu igual você. Parece que tribufus igual a você ainda tem salvação.
Benjamin Brandon ergueu o pescoço e encarou Luca com aqueles olhos pétreos e leitosos, frios, mas possessos de raiva. Seu rosto se retorceu em furor. Tocar na ferida do arqueólogo era mais fácil do que parecia.
— Você... Bastardo ingrato, pivete maldito! — disse, sua voz duplicada como se tivesse passado por um programa de computador, o que só tornava tudo mais sinistro. — Eu sou mais do que você pensa, pirralho. Eu sou Benjamin Brandon. Eu sou Alphaeus. Você não passa de um roedor imundo, mais baixo que um Skwovet.
— Que dózinha dele, gente, mas fala a minha língua, por favor. — diz Luca. — Que foi, se acha o maioral só por que ganhou alguns anos a mais de vida, foi? Quem foi seu cirurgião-plástico, aberração? Será que o Muk que aplicou ácido hialurônico na sua fuça tem vaga pra mim? Ah, pera, foi ácido sulfúrico!
Provocar Brandon era fácil demais. Absol o olhou e depois encarou Benjamin Brandon-Alphaeus ali em baixo que parecia furioso, os punhos apertando-se, as veias de cristal sobre a pele saltando. O temperamento dele era fácil de cutucar tal qual um vespeiro de Beedrill.
— Criatura insolente...
Ele grunhiu em raiva e flutuou no quantum e ergueu os braços. Os paredões de rocha tremeram e Luca perdeu o equilíbrio, mas conseguiu apoiar-se em Kutabe.
— Você tem um desejo de morte, hein, garoto — diz a esfinge nívea.
— Eu tenho um irmão mais velho, já provoquei ele de maneiras piores — fala Luca. — Isso não é nada.
Eles se seguraram tentando manterem-se firmes ali em cima do paredão, mas antes que caíssem em direção ao abismo infinito uma voz cortou o vácuo, a sua voz, exceto que não saia dos lábios de Luca.
— Ei, feioso, eu estou aqui! — ele gritou.
Luca levantou o pescoço e viu. Uma cópia exata dele carregando Togepi em seus braços e com um sorriso vulpino e travesso estampado na face. Os olhos, entretanto, não eram azuis, mas amarelos. Algo então clicou dentro do cérebro de Luca: aquele era Zorua sob uma ilusão. Aquilo estava melhor do que o plano de Cynthia previa. Aquilo iria dividir a atenção de Brandon.
— Roedor imundo! — vocifera Brandon estendendo as mãos e causando tremores no paredão.
Ele estava embebido em fúria. A ilusão de Zorua se desfez em fumaça e logo reapareceu em outro canto. O Luca real aproveitou que Brandon estava distraído e se aproveitou da situação para causar mais confusão enquanto Absol observava a tudo, absorto.
— Ajude a Miri lá embaixo — fala Luca para a esfinge que assente. — Eu e o Zorua iremos distrair esse lunático. Nos encontramos depois.
Kutabe assente e, na surdina, desce pelas encostas íngremes do penhasco enquanto, ao longe, Miri e sua Glaceon esgueirava-se até onde Khoury estava, amarrado e contido pelos fios de seda. Luca esperava que tudo desse certo, não dava para servir como uma isca de raiva para Brandon por muito tempo.
Ele e Zorua divergiam a atenção dele, mas a coisa era que Zorua era um Pokémon Fantasma, ele podia desfazer-se em fumaça e se rematerializar em outro ponto, já ele não, ele era humano e de carne e osso, um passo em falso e ele iria se estabacar todo e quebrar os ossos.
Absol ajudava Miri usando seu chifre em formato de foice para soltar Khoury das amarras enquanto ela cortava com um canivete. Glaceon ficava de guarda. Luca e a ilusão de Zorua corriam pelo paredão, fugindo dos tremores causados pelo estranho poder de Benjamin Brandon.
— Quando eu me tornar um deus no novo mundo que eu criar não haverão pirralhos como você! — esbraveja o arqueólogo, os veios de cristal subindo por seu corpo como geada sobre a grama. — Pivete imundo. Eu deveria ter te matado em Sinjoh! Eu deveria ter me livrado antes daquele moleque amigo seu ter arruinado meus planos pela segunda vez. Quando o mundo me pertencer… Eu, Brandon-Alphaeus, vou execrar você e todos que você ama dessa existência e todas as outras…
— Como se o mundo quisesse você, seu lunático — vocifera Luca. — Você se acha um deus, mas está descontando sua raiva e frustração num garoto de treze anos. Babaca do caralho!
— Babaca, babaca! — grita a ilusão de Zorua.
Brandon grunhiu e sua raiva tomou conta de si, os olhos dele brilharam como um par de estrelas. Olhando por de trás de seu ombro ele viu Miri e Absol soltando Khoury enfim das amarras. Era bom ver Khoury livre, a cor voltava a seu rosto, o medo continuava em seus olhos, infelizmente. Luca se sentia mau por ele, ele próprio sabia que quando tudo aquilo terminasse ele não iria conseguir dormir bem. Aquele dia estava ficando longo demais.
Depois de libertar Khoury, Miri começou a agir. Ela virou-se para seu Glaceon e deu um comando e antes que Luca ou Zorua pudessem dar conta, um feixe frio fora disparado contra Brandon-Alphaeus, o que o surpreendeu, acertando-o por trás e prendendo-o em um esquife de gelo, deixando-o imobilizado do pescoço para baixo.
— O quê?! — diz Brandon-Alphaeus, sua voz esbravejando. — Quem foi que armou esse ardil?! Quem ousa me aprisionar depois de chegar tão perto de meu ápice?!
Ele tentou se desvencilhar do gelo que o prendia, mas parecia quase impossível romper o bloco por pura força. Fúria estampava sua face enquanto grunhia.
— Eu sou o Rei dos Alph! — ele esbraveja, as duas vozes guturais rasgando a garganta. — Eu sou Benjamin Brandon. Nós seremos o deus de um novo mundo. Nada pode nos impedir. Nada pode… Nada pode…. Solte-nos. Solte-nos! Eu alcançarei o Primordial e usurparei Seu trono!
Os olhos reviraram em suas órbitas, ele tentava se soltar enquanto esbravejava e vociferava como uma besta enjaulada. Cólera fazia as veias de cristal saltarem em sua testa, Luca até sentia dó dele. Até. Mas ele sabia que no fundo Brandon era apenas um homenzinho patético e simplório. Um homenzinho que queria ir longe demais e acabou caindo na tentativa de voar e alcançar o sol.
Enquanto despejava todo o vitríolo de sua raiva, algo vinha na direção de Brandon-Alphaeus, um rodamoinho fantasmagórico púrpura com esferas brilhantes esverdeadas que emergiam da fissura de uma rocha trapezoide. Um estranho Pokémon que Luca não conhecia. Cynthia vinha logo atrás com um olhar obstinado.
— Spiritomb use Hypnosis! — ordena a campeã. — Termine de imobilizá-lo.
O Pokémon fantasma girou seu espiral e as esferas verdes espectrais em seu ectoplasma púrpura brilharam em uma luz hipnótica que atraiam a atenção dos olhos mortos e pétreos de Brandon que aos poucos pesavam. O corpo aprisionado no esquife de gelo começou a pender e antes que pudesse se dar conta já havia caído no sono tal qual uma âncora afundando no mar. O plano havia dado certo.
— Spiritomb, termine com Dream Eater — ordenou Cynthia.
O jibakurei flutuou até o corpo adormecido de Brandon. Seu espiral ectoplasmático começou a girar, e uma fumaça negra, espessa como betume, foi puxada para fora das vias respiratórias do arqueólogo. Era como ver um exaustor sugando fumaça, algo também foi aspirado para fora de Brandon. E logo ficou claro: não era apenas energia sendo sugada. Era um outro espírito. Um outro ser.
Alphaeus.
A forma miasmática do rei morto contorceu-se quando o Dream Eater o puxou. Ele lutava, vibrava, pulsava como uma tempestade prestes a romper. Cynthia não sabia, ela não tinha como saber que Alphaeus estava dentro de Brandon. Luca também não. Mas, por ironia ou destino, tinha sido o movimento perfeito.
— Eu estava em meu apogeu! — rugiu Alphaeus, sua voz oscilando entre o gutural e o bestial. — Eu seria o deus do novo mundo! Caminharia pela terra com um novo corpo, um receptáculo humano que enfim compartilhava meu ideal, diferente daquele traidor do Grex! Messalina! Bruxa decrépita! Como ousa?!
O espectro explodiu em flashes avermelhados, relâmpagos correndo entre os blocos de mnamita. Com um grito que não parecia humano, Alphaeus se desvencilhou da sucção de Spiritomb e o arremessou pelo éter como se fosse feito de papel. O Pokémon fantasma ricocheteou contra uma formação de cristal. Cynthia nem teve tempo de chamá-lo de volta.
Então Alphaeus abriu os braços e a inexistente gravidade pesou como se subitamente tivesse sido inventada para esmagar.
Luca perdeu o equilíbrio e despencou do paredão. Zorua, cuja ilusão se desfez em nuvens ectoplasmáticas, caiu junto, com Togepi agarrada desesperadamente ao pelo da cauda da raposa branca. Um grito seco escapou da garganta de Luca antes de o ar ser arrancado de seus pulmões.
Cynthia, Miri e Khoury foram prensados contra as rochas de mnamita, incapazes de mover sequer os dedos. Para um espírito que deveria ser impotente, Alphaeus demonstrava ali uma força antinatural, uma força que a própria Dimensão dos Unown parecia amplificar.
— Eu deveria matar vocês todos aqui e agora — vociferou. Sua voz reverberava nas paredes, duplicada, triplicada, ecoando até vibrar dentro dos ossos. — Passei éons predando Unown por Unown neste abismo! Bebi do Hidden Power deles, ansiei pelo poder que deveria ser meu! Passei minha morte como um espírito faminto — e quando finalmente surge a oportunidade, meros humanos decidem que eu não deveria ter posse daquilo que me foi entregue numa bandeja de prata?!
— O que você quer dizer, seu lunático?! — gritou Luca, mas sua voz saiu fraca, quase engolida pelo vazio.
Alphaeus sorriu. Um sorriso que não tinha luz, nem calor, nem humanidade. Um sorriso de lápide.
— O garoto. O outro. Ele vem ao meu encontro — disse o espectro, e sua silhueta oscilou como uma fogueira negra prestes a consumir o próprio ar. — Ele traz o que eu desejo: o Núcleo de Mystri. O último sopro d’O Primordial. Eu o consumirei. Rasgarei este umbral entre os mundos e, enfim, alcançarei o Saguão da Origem. Lá, desafiarei o Criador e tomarei Seu trono. Serei rei mais uma vez. O Alfa e o Ômega. O Juiz, o Júri e o Tribunal. Nada estará acima de mim.
— Você se escuta? — gritou Cynthia, forçando-se contra a gravidade insana que o fantasma impunha. — Nenhum homem pode ser um deus! Você está morto e ainda assim é um louco delusional! Não acha que levou sua brincadeira longe demais?!
Alphaeus virou lentamente o rosto para ela, e por um instante seus olhos, duas crateras opacas, pareceram expandir-se como buracos negros.
— Calada, messalina imunda! — ralhou, cuspindo cada sílaba como veneno. — Ele, Aquele que se senta no canto dos Céus, completamente onipotente, contempla o mundo que criou como um colecionador entediado. E nós? — a voz reverberou, duplicada, triplicada, ecoando dentro da cabeça de todos. — Nós, suas crianças, deixados na miséria da fragilidade, abandonados à morte, ao sofrimento, às limitações. Por que Ele não compartilha Seu poder? Por que não distribui Sua glória? Não é egoísmo? Não é tirania? Não é arrogância?!
A luz dos cristais tremeu, como se até a Dimensão dos Unown tivesse passando por um terremoto tão forte que nem a escala Richter pudesse medir.
— Eu posso usurpar o poder que Ele detém — continuou o fantasma, sua voz ganhando corpo, crescendo como uma onda prestes a destruir a praia. — Eu devo usurpar. Pois Ele não é digno. Ele criou, sim. Mas não governa. Não cuida. Não intervém. E um trono vazio deve ser ocupado. O mundo merece alguém que o molde. Que o controle. Que o redefina.
Ele elevou-se, expandindo-se como uma sombra colossal.
— E esse alguém sou eu.
O ar ficou denso. O vácuo pareceu inclinar-se. Khoury, ainda arfando, mal conseguia olhar para cima. Bronzong e Orbeetle se agarraram a ele, com medo. Miri apertou o Glaceon contra o peito. Luca, preso pela força invisível, sentiu um frio rasgar-lhe a espinha. Luca protegeu seus Pokémon com seu corpo enquanto Cynthia lutava para manter-se de pé com Spiritomb ao seu lado.
O corpo desmaiado de Brandon, envolvido pelo esquife de gelo era o único inafetado pelo poder roubado de Alphaeus que, então abriu os braços em ira, e gritou como uma fera ensandecida. A sua resposta foi o éter retumbando em resposta e rasgando, quebrando tal qual uma vidraça enquanto um enxame de Unown vinha de todas as direções e uma luz branca engolia a tudo.
Tão certa e clara como a luz do sol, algo fendia a Dimensão dos Unown e em meio ao clarão Luca conseguiu ver uma figura humanoide e esguia, os cabelos flutuando em meio ao vácuo. Era Ren.
Ren estava cercado por uma legião de Unown. O casaco preto que ele usava tremulava enquanto o sobrecasaco estava com um rasgo bem no peito onde era possível ver algo encrustado ali, bem do lado esquerdo, algo brilhante, mas que fez Alphaeus abrir um grotesco sorriso que fez seu rosto rasgar de uma orelha a outra.
— O meu banquete veio — sua voz saiu como um gorgolejo. — O Núcleo de Mystri. A chave para minha apoteose.













