Ren
Dimensão dos Unown
Segunda-feira, 16 de maio, ano 30 (Era Tōitsu)
Ren sentiu como se tivesse sete anos novamente, o frio da escada sob a pele, os joelhos encostados no peito, e as vozes abafadas que vinham da cozinha. Aquela era uma das noites em que ele desejava simplesmente desaparecer.
Os sons vinham em ondas: primeiro o tom contido, quase civilizado; depois, o timbre que subia, as palavras afiadas que cortavam o ar, seguidas do silêncio pesado de quem não queria ceder.
Apesar de os pais estarem em casa, Ren estava sozinho. Durante o dia, ficava sob os cuidados da babá ou dos empregados; à noite, quando Sylvia e Kaisei voltavam, era como se a casa ficasse ainda mais vazia. Duas presenças que nada queriam uma com a outra.
A casa, enorme e fria, parecia um labirinto onde cada eco de voz batia nas paredes e voltava multiplicado, como se os fantasmas das brigas passadas também quisessem participar daquela.
Ren permanecia imóvel, o queixo sobre os joelhos, tentando não respirar alto para não ser notado. Observava tudo se desenrolar, sabendo o desfecho: o pai sairia para fumar no jardim, a mãe ficaria sozinha na cozinha, girando a taça de vinho nas mãos, olhando para lugar nenhum. Era sempre assim.
Nos últimos tempos, Kaisei e Sylvia brigavam por qualquer coisa: pela mensalidade da escola, pelos custos do country club, pelas reuniões noturnas de Sylvia no conselho municipal. Tudo virava motivo para acusação, tudo virava ressentimento.
Miyakawa Kaisei era um homem de poucos gestos e longos silêncios. Segundo o que Ren ouvira de alguns empregados, ele vinha de uma antiga linhagem shinobi de Mahogany que caíra à falência, um nome velho sem um tostão. Sylvia, ao contrário, era feita de ruído e presença: exigia ser ouvida e obedecida, o que fazia sentido para alguém em carreira política. Quando os dois dividiam o mesmo espaço, o ar parecia engrossar, como se a própria casa se contraísse.
Eles não eram um casal por amor — nunca tinham sido. Ficaram juntos porque Sylvia engravidara cedo demais, e Kaisei, por dever ou covardia, resolvera “fazer o certo”. Ren era o resultado dessa escolha, e Sylvia nunca o deixava esquecer.
A lembrança se dissolveu. O som das brigas virou apenas um zumbido distante. Quando Ren percebeu, o chão já não existia sob seus pés. Ele flutuava em meio ao vazio, ponderando sua vida depois da separação dos pais.
Ver o pai ir embora fora um baque. Claro, ainda o via duas vezes por ano — conforme o acordo dos advogados. Sylvia, porém, fizera questão de apagar Kaisei da vida de Ren de todas as formas. Ela não queria a lembrança do homem com quem fora casada e tentava moldar o filho à sua imagem. Sylvia Caniedo queria fazer de Ren seu sucessor, seu herdeiro.
Mas filhos nunca são o reflexo dos pais. E Ren não era exceção. Ele estudara violoncelo por ordens da mãe; na primeira oportunidade, pedira uma guitarra ao pai, apenas para contrariá-la. Sylvia queria que ele fosse um atleta excepcional, mas ele jamais alcançara o posto de capitão no time de natação, e faltava aos treinos sempre que podia. Queria que ele fosse um aluno brilhante, mas as notas despencaram e ele acabou expulso depois de pixar o carro do diretor, só para estudar no mesmo colégio que Pierce. Ren fazia questão de ser o oposto do que ela esperava.
— A história sempre se lembra dos rebeldes — disse alguém, uma voz ecoando no éter. — Dos rebeldes, e também dos tiranos e usurpadores. Bons moços nunca fazem as páginas dos livros de história.
Ren moveu o pescoço, mas não viu ninguém. Algo frio tocou-lhe o ombro. Quis recuar, mas não conseguiu. Era como se estivesse em um estado de paralisia do sono. Uma figura surgiu ao seu lado, flutuando, envolta em vestes brancas. A cabeça nua, marcada por manchas hepáticas, e a longa barba denunciavam uma idade avançada. O corpo translúcido deixava claro que, diante de Ren, estava nada mais que um fantasma.
— Quem é você? — perguntou, a voz embargada. — Eu... morri?
— Para a segunda pergunta, a resposta é não — disse o espírito, fitando-o com olhos da cor de pedra. — Para a primeira... talvez eu deva devolver com outra: quem é você?
A pergunta soou simples, mas pesou como chumbo no peito. Quem era ele? O eco dessa dúvida reverberou no vazio como se o espaço inteiro zombasse da sua hesitação. Ren engoliu em seco.
— Meu nome é Ren.
O espectro inclinou a cabeça. Um sorriso tênue, quase compassivo, surgiu em seu rosto.
— E o que é um “Ren”? — indagou, a voz rouca e paciente. — Minha alma tem estado neste limbo por éons, tempo o bastante para que as palavras perdessem sentido. Eu já não sou um nome, sou apenas um eidolon, um reflexo pálido do que fui. Só restaram os Unown para me fazer companhia, e eles não conhecem o conceito de nome.
Ren tentou responder, mas o som se perdeu antes de sair. Ficou ali, imóvel, com a garganta seca e os olhos fixos naquele ser que parecia condensar a própria solidão do universo.
— Eu fui o sábio de uma cidade dourada — disse o espírito, a voz agora grave, como se ecoasse de dentro da terra. — O líder espiritual de um povo que acreditava poder tocar o divino. Pastoreei os Celestica de nossa terra natal de Hisui até as terras de Sinjoh. Uma vez desejei demais. E este foi o meu preço.
Ren respirou fundo. As peças começaram a se encaixar.
— Você é... Grex — murmurou Ren, recordando-se das inscrições antigas, dos símbolos entalhados nas paredes de Sinjoh, das histórias que pareciam lendas demais para serem reais. — Você e o rei Alph... foram vocês que destruíram tudo.
O fantasma não respondeu de imediato. Um sorriso fino, gasto, apareceu em seus lábios translúcidos, o tipo de sorriso que alguém dá ao reconhecer no outro o mesmo erro que já cometeu. Ele entrelaçou as mãos, e o gesto, humano demais para algo que não vivia mais, tornou tudo ainda mais incômodo. Os olhos, opacos como granito, refletiam a luz dos cristais suspensos ao redor, e dentro deles não havia arrependimento, apenas a serenidade fria de quem já aceitara o próprio castigo.
— Sim — respondeu, a voz reverberando como um eco em uma caverna esquecida. — Eu e Alphaeus tivemos o mundo em nossas mãos, ainda que por um breve instante. Fui eu quem arquitetou o ritual. Sinjoh seria o catalisador, os Unown, a linguagem para o ritual, e o Núcleo, a chave e as pessoas e os Pokémon de Sinjoh, a oferenda. O poder que tentamos roubar de Arceus não nos fez deuses, apenas nos lembrou que éramos pequenos, anões à nossa própria insignificância. Quando ousamos tocar a divindade, ela nos arrancou dela. Nossas almas foram despidas e lançadas para este lugar, a ruína do nosso orgulho. A Dimensão dos Unown.
O nome pesou no ar. Ecoou e se multiplicou, até que o próprio vazio ao redor pareceu se dobrar em resposta. Foi então que Ren compreendeu onde estava.
Não havia chão, nem céu, nem horizonte. Apenas um oceano suspenso de éter, imóvel e, ao mesmo tempo, em constante movimento. Os Unown flutuavam em lentos círculos, como vaga-lumes órfãos presos em um sonho esquecido, e blocos colossais de mnamita pairavam acima e abaixo, refletindo luzes furta-cor — lilás, turquesa, âmbar e lilás. Tudo vibrava, mesmo no silêncio. Era como estar dentro do coração adormecido do universo.
Grex observou o menino com a calma de quem mede o valor de algo antes de julgá-lo.
— É curioso ver humanos aqui — murmurou, a voz soando distante. — Seis ao todo. A mulher... ah, em minha era a chamariamos por outro nome, apenas por se mostrar tão forte quanto um homem: bruxa, rainha, pecadora, amazona, depende de quem estivesse vendo. Sua aprendiz, contudo... há nela um brilho inquieto. Ela já presenciou muitas coisas em suas jornadas antes. Uma garota interessante.
Cynthia e Miri.
— Onde elas estão? — perguntou Ren, apreensivo.
— Eu apenas as vi cair — respondeu o ancião. — Assim como os outros dois garotos. Um vestido como um Lucario, o outro escondendo os olhos atrás de vidro. São seus amigos, imagino.
Luca e Khoury. Só de ouvir os nomes ecoarem em sua mente, o coração de Ren apertou. O vazio ao redor pareceu se contrair e, por um instante, ele achou que fosse cair, mesmo sem chão algum sob os pés.
Grex continuou, cruzando as mãos atrás das costas, o tom agora mais grave, quase melancólico.
— De todos os visitantes inesperados, você e o outro homem são os que mais me intrigam. São opostos e, ainda assim, refletem a mesma essência. Contrapesos de um mesmo erro. Os Unown o observam, garoto, mas o temem. O outro, porém... eles o obedecem. — Ele fez uma pausa. — Você segurou nas mãos o mesmo poder que nós um dia buscamos, e o destruiu sem hesitar. Ainda assim, não deseja possuí-lo. Por quê?
Ren não respondeu. O olhar se perdeu no abismo. Ser comparado a Benjamin Brandon o enojava, mas ouvir-se chamado de “contrapeso” também o incomodava.
Grex deu um passo à frente, ou algo que se parecia com isso. O ar em volta dele estalou, como se o próprio espaço resistisse à sua presença.
— O que o torna especial, então? — perguntou, a voz reverberando no éter. — O que o torna “Ren”?
O silêncio se estendeu, denso como neblina.
Foi então que ele ouviu, primeiro um som fraco, abafado, depois um latido curto e rouco, e, em seguida, o ronco familiar que ele reconheceria em qualquer lugar. Ren virou-se e, por um instante, tudo dentro dele pareceu se acender.
Styx. O cão negro avançava pelo nada, as patas se movendo como se houvesse solo sob elas. Atrás dele, o pequeno Swinub de Khoury remava no ar, deixando um rastro luminoso a cada passo. Eles o encontraram. Mesmo ali. Mesmo no meio do impossível.
Ren ajoelhou-se e os abraçou. Sentiu o calor pulsando sob o pelo escuro de Styx e o toque frio do focinho de Swinub contra sua mão. Por um instante, o vazio perdeu o sentido. Havia vida ali. Havia vínculo.
— Até aqui vocês me acharam... — murmurou Ren, a voz trêmula, o olhar fixo em Styx e no pequeno Swinub.
Grex observou em silêncio. Um espectro de humanidade cruzou seu rosto translúcido, algo entre ternura e lembrança.
— Curioso — disse, em tom baixo. — Mesmo em um mundo onde o tempo não existe, o vínculo ainda os encontra. Talvez seja isso que Arceus tentou preservar em vocês. Aquilo que nós, em nossa arrogância, esquecemos.
O éter pareceu vibrar em resposta, como se o próprio espaço tivesse ouvido e concordado. Ren arqueou uma sobrancelha.
— Se você não tivesse sido tão egoísta, talvez não tivesse se metido nessa presepada toda — retrucou. — Quis brincar de deus e ignorou o fato de que o poder não era pra você. Mil perdões, mas... você meio que pediu pra tomar no cu.
O fantasma piscou várias vezes, visivelmente confuso, como se tentasse decifrar uma língua completamente extinta. Era possível que um sábio de milênios atrás não estivesse preparado para a boca suja de um adolescente do século XXI.
— As palavras realmente perderam o sentido... por Todo-Poderoso Sinnoh, eu não entendi uma única sílaba do que você disse! — exclamou Grex, quase indignado. Depois suspirou, resignado. — Mas sim... reconheço meu erro. Fui tolo, soberbo, hubrístico. Acreditei que o universo era um livro aberto, e que bastava ler suas páginas com força o suficiente para controlá-lo. Fui punido por isso, merecidamente.
Ele se aproximou, erguendo a mão translúcida, e apontou um dedo esquelético na direção de Ren.
— Mas, criança... talvez não percebas. O poder que me foi negado, o poder que destruiu Sinjoh, agora pulsa dentro de ti.
Ren franziu o cenho.
— O quê...?
Grex não respondeu de imediato. Limitou-se a fitá-lo com olhos vítreos, a expressão pétrea de quem enxerga algo que não deveria existir. O olhar do espectro pousou sobre o peito do garoto, e foi então que Ren percebeu. O sobrecasaco de Cynthia estava rasgado, e, logo abaixo da fenda no tecido, algo opalescente cintilava em meio à carne: um fragmento. Um pedaço do que restara do Núcleo de Mystri.
Ele piscou, confuso. Tocou o local com cuidado, esperando sentir o ardor de vidro rasgando a pele, mas não havia dor. O fragmento parecia... vivo. Pulsava em sincronia com o coração, e a cada batimento a luz reverberava em tons de branco e violeta, como se respirasse junto dele.
— Que inusitado... — murmurou Grex, observando com fascínio. — Um vestígio do Núcleo incrustado em tua carne... e, ainda assim, o corpo o aceita. É como se o reconhecesse.
Ren não soube o que dizer. O peito parecia quente, mas não de febre — era como se algo se movesse dentro dele, girando em um redemoinho lento e constante, silencioso e íntimo.
— Eu deveria ter pensado nisso enquanto ainda respirava — continuou o espírito, nostálgico. — Alphaeus era impaciente... sempre ansioso por provar que podia ser mais do que um homem. Se eu tivesse tido tempo de estudar o Núcleo com cautela, talvez Sinjoh não tivesse sido condenada. — Ele soltou uma risada seca, como o eco de um trovão distante. — Mas o tempo é cruel até com quem tenta desafiá-lo. Ah... que séculos desperdiçados.
Ren manteve os olhos no brilho que pulsava sob sua pele. Um arrepio subiu-lhe a espinha. Não sabia se aquilo era um presente, uma maldição ou apenas o preço por ter sobrevivido. O pensamento o assombrou por um instante, mas foi interrompido quando o Swinub de Khoury se aproximou farejando seu peito, tocando o nariz frio e úmido sobre o fragmento. Styx fez o mesmo, a respiração quente do cão contrastava com o toque gelado do leitãozinho. O garoto passou os dedos sobre o núcleo e percebeu, atônito, que a textura era idêntica à da própria pele. Aquilo não estava alojado nele. Aquilo era ele.
— Se eu fosse você, começaria a procurar seus amigos o quanto antes — disse Grex, a voz mais grave. — Eu, por outro lado, continuarei a vagar. Mas me atentaria ao espírito de Alphaeus. Ele se tornou um fantasma faminto. O pós-vida neste umbral entre as dimensões não foi gentil com ele.
Ren ergueu o olhar.
— Do que está falando?
— Eu sou um eidolon — respondeu o sábio, sereno. — Um eco do que fui, uma sombra sem carne, sem desejo, sem ira. Reconheci meus erros, minha arrogância, minha prepotência. Se esta é minha danação, eu a aceito. — Ele fitou o vazio. — Alphaeus, porém, não. Ele se recusou a abandonar a raiva. Deixou que o ódio o moldasse. Agora vaga por este lugar, consumido por fome e ambição. Se encontrar aquele outro homem…
— Benjamin Brandon — completou Ren, o nome pesando no ar.
— Sim. Se eles se cruzarem, temo que firmarão um pacto. Dois espelhos rachados tentando se juntar para formar um deus. Eles buscarão o que você carrega, pois acreditam que lhes pertence por direito.
Ren engoliu em seco. Já não bastava um galariano megalomaníaco, agora também tinha um espírito obcecado vagando pelo limbo? Maravilha. Ele precisava sair dali assim que conseguisse... isso é, se ele conseguisse.
— E como eu saio da Dimensão dos Unown? — perguntou.
Grex deu de ombros, com um sorriso enigmático.
— Descubra.
— Achei que você fosse um sábio — resmungou, revirando os olhos.
— Um sábio não entrega respostas, garoto — respondeu o espírito, cruzando as mãos atrás das costas. — Ele permite que os outros as encontrem. Agora vá. Talvez os Unown o escutem. Quem sabe…
A voz se desfez no ar, e o espectro começou a se dissipar, como fumaça puxada por uma corrente invisível. Ren o observou sumir, e por um instante, teve a sensação de que o vazio à sua volta sussurrava.
Ele olhou para Styx e para Swinub, soltando um longo suspiro. Precisava começar a se mover, mas o simples ato de remar naquele oceano sem forma era inútil. O éter o prendia como um sonho viscoso. Ainda assim, ele não era alguém que desistia fácil — havia nadado desde criança, treinado por anos em piscinas frias e madrugadas vazias. Aquilo não podia ser tão diferente, podia?
Por sorte, e graças à Cynthia, ele ainda tinha um Pokémon que poderia ajudá-lo.
Ren pegou a Luxury Ball no bolso interno do casaco e a abriu. Dela emergiu Feebas, flutuando no vazio como se ainda estivesse no tanque de água do chalé de Cynthia. O pequeno peixe de escamas opacas e corpo irregular se movia com lentidão, as barbatanas tremendo levemente como se testassem o ar denso daquele lugar. Por um instante, seus olhos fundos e enormes fitaram Ren, e o garoto, instintivamente, estendeu a mão.
— Sou seu novo treinador — disse, passando os dedos pelas escamas ásperas. — Meu nome é Ren.
O peixe nada respondeu, apenas piscou, indiferente, boiando no silêncio. Styx se aproximou, farejou o novo companheiro e soltou um pequeno rosnado curioso, ao que Feebas respondeu com um olhar confuso, se é que um peixe podia ter expressão alguma.
Ren riu baixo.
— Acho que vou precisar te dar um nome. Alguma sugestão, peixinho?
Feebas, claro, não respondeu. Apenas nadou em círculos preguiçosos pelo mar de quanta, como se tentasse entender onde estava. O brilho de sua pele refletia os fragmentos de mnamita suspensos ao redor, e por um segundo, Ren pensou que talvez o peixe não estivesse tão deslocado ali.
— Pensamos nisso depois — murmurou. — Preciso de uma ajuda. Eu sou um bom nadador, mas você nasceu fazendo isso. Topa me dar uma força?
Feebas fez um som breve, uma bolha luminosa escapando de sua boca, e o garoto interpretou aquilo como um sim. Ele segurou o corpo escamoso do peixe e começou a bater as pernas, como nas primeiras aulas de natação, quando ainda tinha sete anos e o instrutor o mandava não lutar contra a água.
O vazio reagia diferente, mas o movimento bastou. O corpo dele e o do peixe começaram a deslizar pelo éter, abrindo rastros prateados no nada. Styx os seguiu logo atrás, remando desajeitado, o corpo negro refletindo as luzes lilases do horizonte inexistente.
Swinub, por outro lado, decidiu que não tinha a menor intenção de colaborar. Montado nas costas de Houndour, deixou-se levar, resmungando e roncando alto, parecendo alheio à gravidade e ao caos. Ren olhou por cima do ombro e não pôde deixar de rir.
— É, Khoury... teu Pokémon leva o título de preguiça a outro nível.
Luca
Dimensão dos Unown
Segunda-feira, 16 de maio, ano 30 (Era Tōitsu)
Quando tudo aquilo acabasse Luca iria querer férias. Ele queria ao menos um dia em uma praia longe de toda aquela parafernália de ruínas e arqueólogos. Melhor, ele preferiria estar na estrada do que estar na situação atual onde encontrava-se.
Ele, mudo, amaldiçoava a decisão de seu avô-drasto de fazê-los conhecer as Ruínas de Alph. Se ele soubesse que explorar ruínas antigas resultaria ele em uma outra dimensão preso em teias de inseto e com um arqueólogo megalomaníaco querendo ser um deus todo custo.
Agora ele estava flutuando no vazio primitivo de alguma dimensão, amarrado dos pés à cabeça em fios de seda tão compactos que haviam solidificado. Por sorte, Togepi e Zorua estavam com ele, assim como Kutabe. Eles estavam como náufragos, a deriva por aquele oceano quântico, entre os blocos de cristal, imobilizados. Era agonizante.
Circundando-os como peixes naquele mar cósmico estavam os Unown. Pequenos, pretos como nanquim e com um único olho que piscava para Luca e os Pokémon, mas nunca aproximando-se. Eles não eram Pokémon assustadores ou furiosos, na verdade pareciam acanhados e tímidos e, ainda assim, ignorantes do poder que tinham e inocentes demais para deixarem-se ser controlados. Luca perguntava-se se os Unown tinham algum arbítrio ou consciência livre, por que não era possível um Pokémon daquele calibre, capaz de reescrever a realidade, serem usados como capachos na mão de alguém como Benjamin Brandon.
Um dos Unown, tímido, o corpo arredondado com um apêndice em formato de chave se aproximou de Luca, piscando seu olhinho. Olhando de perto até parecia uma letra Q. Até. Unown se parecerem letras parecia uma ideia cômica demais até para ele.
A criaturinha em formato de chave, lente de aumento ou letra Q se aproximou com cautela perto do menino e girando seu corpinho em trezentos e sessenta graus. Ele tocou com seu apêndice na mordaça de fios pegajosos sobre a boca de Luca e, como num truque de mágica, ela se desfez.
Luca soltou um longo arfar. Era bom poder mover a boca livremente.
— Ei, carinha, pode me soltar? — pediu Luca.
O Unown apenas piscou uma, duas vezes, girando sobre o próprio eixo, e então tocou o fio pegajoso com o apêndice em forma de chave. Num estalar seco, a seda se desfez.
Luca puxou o ar com força, como alguém que voltava à superfície depois de tempo demais debaixo d’água.
— Valeu, carinha. — Ele tossiu. — Agora, se não for pedir demais, pode dar um help com o resto?
O Unown obedeceu. Como se fosse a coisa mais banal do mundo, o pequeno Pokémon cor de nanquim dissolveu as amarras do Sticky Web que prendiam Kutabe, Togepi e Zorua. As teias se desfizeram em partículas luminescentes, que se dispersaram pelo ar antes de se perderem no vazio.
Quando todos estavam livres, o Unown flutuou um pouco para trás, olhou-o uma última vez com aquele único olho inquisitivo e, sem se despedir, desapareceu no éter dimensional.
Luca ficou parado, sem saber o que fazer com o próprio corpo. Piscou devagar, sentindo os cílios colarem e soltarem como se ainda estivessem cobertos de teia. Pegou Togepi nos braços, a conchinha viva tremendo de frio, e sentiu o pequeno coração bater acelerado contra sua palma. Zorua, por outro lado, nadou no éter até seu ombro e se enfiou dentro da touca do moletom como se aquele fosse o lugar mais seguro do mundo. Kutabe, sempre o mesmo, apenas soltou um suspiro carregado de julgamento.
— Devíamos começar a procurar uma saída deste lugar — disse o Absol, a voz grave e calma como uma lâmina recém-afiada.
Luca revirou os olhos para a esfinge.
— Falar é fácil — diz Luca, em deboche. — Mas ainda bem que a gente tá vivo. Se o Ren não tivesse feito aquilo no templo… Talvez não estivéssemos vivos para contar história.
O conflito em Sinjoh passou como um clarão em sua cabeça: os gritos, os Unown em confusão, os golpes trocados dos Pokémon, a voz do arqueólogo ecoando como um trovão seco, e o chão se abrindo sob seus pés. Nem uma batalha aquilo tinha sido; era mais como assistir um pesadelo tentando tomar forma. Mas Ren… Ren tinha sido corajoso. Mais do que qualquer um esperava. Tinha enganado aquele maluco homicida, destruído o que quer que fosse aquela esfera e, no processo, dado a eles uma chance, mínima, mas real, de sobreviver. Agora só restava a Luca um caminho para escapar daquele lugar.
— Foi uma manobra arriscada — disse Kutabe, impassível. — Humanos são imprudentes. Me espanta viverem tão pouco.
— Não, você é que é velho — rebateu Luca, sem pensar. — E chato.
O Absol apenas arqueou seu cenho para o garoto e bufou.
O garoto respirou fundo. O éter ao redor parecia vivo, pulsando como um organismo. Os blocos de cristal flutuavam como icebergs de vidro colorido, e entre eles, os Unown se moviam em círculos lentos, desenhando figuras invisíveis no ar. Havia algo hipnótico naquilo e, ao mesmo tempo, profundamente errado.
Antes que pudesse comentar, algo mudou no horizonte. O brilho difuso do vazio se partiu, e entre os blocos translúcidos de mnamita, uma forma se movia. Primeiro uma sombra. Depois, uma silhueta dourada recortando o éter.
Luca piscou, tentando focar. Era uma mulher loira, montada em um enorme Pokémon reptiliano de escamas azul-índigo que cortava o espaço como um navio quebra-gelo. O dragão-tubarão abria caminho entre os fragmentos cristalinos, e cada batida de suas barbatanas fazia o vazio tremer.
Ao lado dela, vinha outra figura, uma garota de pele escura e cabelos trançados, montada em um Staraptor que parecia planar sem esforço. Luca piscou outra vez, e só então percebeu quem eram.
— Não é possível… — murmurou. — É ela. A mulher do templo…
Luca ficou ali, imóvel, observando-as se aproximarem. As duas cruzavam o éter com uma determinação quase divina, guiadas por uma luz que parecia brotar dos próprios cristais à volta. Ver aquelas figuras familiares era como respirar ar puro depois de horas submerso em fumaça.
Zorua ergueu a cabeça para fora da touca e soltou um latido curto. Togepi balançou as mãozinhas em pura alegria. Até Kutabe pareceu relaxar — o que, para ele, significava apenas não bufar.
A mulher loira o viu primeiro. Os olhos âmbar se arregalaram, e ela deu duas leves batidas na barbatana dorsal de Garchomp, desacelerando o voo. O dragão rugiu em resposta, o som reverberando no éter como um trovão contido.
Luca levantou os braços e acenou.
— Ei! Eu tô aqui! — gritou.
A mulher aproximou-se, descendo suavemente com o enorme Garchomp.
— Você está vivo… — disse ela, a voz misto de alívio e espanto. — Quando a fenda se abriu, achei que ninguém tivesse sobrevivido.
— Nem eu — respondeu Luca, com um meio sorriso cansado. — Mas, aparentemente, o universo ainda não terminou de brincar comigo.
— Você deve ser o amigo que Ren estava procurando — falou a mulher, fitando-o com atenção. — É um prazer enfim conhecê-lo. Meu nome é Cynthia.
— Luca — respondeu. — Onde está o Ren-ren? E aquele outro garoto, o Khoury?
Por um instante, ninguém disse nada. O silêncio pesou no ar translúcido, espesso como vidro líquido.
— Não sabemos onde ele está — respondeu a garota de cabelos trançados, ainda montada no seu Staraptor. — Estamos vagando por esse lugar há um tempo… ou pelo menos parece. O estranho é que, na verdade, o tempo nem passou desde que caímos aqui. — Ela tirou o smartphone do bolso e mostrou a tela. — Olha, 17:33h. Aliás, nem me apresentei, meu nome é Miri.
Luca arregalou os olhos e, por instinto, puxou o próprio celular. Apesar da bateria quase morta e da tela rachada, o visor mostrava o mesmo horário. Nenhum segundo havia avançado.
— O tempo aqui se comporta de maneira estranha — comentou Cynthia, observando a imensidão iridescente ao redor. — E o espaço também. Já li sobre dimensões paralelas, mas nada sobre a Dimensão dos Unown. Se algum humano já veio até aqui, talvez nunca tenha voltado para registrar o que viu.
Cynthia desmontou de Garchomp e flutuou no éter como se caminhava sobre o ar. A cada passo, as partículas à sua volta tremeluziam, reagindo à sua presença. Ela levou a mão ao queixo, pensativa, e então pousou o olhar em Luca.
— Bem… ao menos fico aliviada de ver que você está seguro — disse, estendendo a mão e tocando de leve o rosto do garoto. — Você e seus Pokémon. Há quanto tempo não vejo um treinador com um Togepi. Ao menos em Johto, pensei que estivessem extintos.
— Meu avô-drasto me deu o ovo de um — respondeu Luca, apertando a Togepi contra o peito. A pintinha piou e sacudiu os bracinhos cotocos, como se confirmasse a história.
Cynthia sorriu, um toque nostálgico atravessando seu semblante.
— A minha Togepi também veio de um ovo. Assim como a minha Garchomp. — Ela olhou para o dragão-tubarão, que soltou um ronrom grave. — Lembra quando você era só uma Gible travessa, pequena?
Luca sorriu de volta.
— Aposto que você vai cuidar bem dela — continuou Cynthia. — E do seu Zorua também. Vejo que esse de Hisui se apegou a você. E, olha só… um Absol.
— Eu não sou o Pokémon dele, humana — rosnou o Absol, impassível, a voz grave cortando o silêncio. Cynthia e Miri se entreolharam, surpresas com o fato de o Pokémon falar. — Podemos parar de conversar e começar a nos mover? Não podemos nos dar ao luxo de ficar parados aqui.
— Ele tem razão — disse Cynthia, voltando a assumir seu tom decidido. — Temos que encontrar uma saída daqui o quanto antes. Suba nas costas de Garchomp, será mais rápido.
Luca obedeceu e subiu nas costas do tubarão-dragão. Ele posicionou Togepi dentro de seu moletom e verificou se o Zorua estava acomodado na touca de seu moletom. O menino ajustou o seu boné em sua cabeça e esperou Cynthia montar no dragão. Absol resolveu acompanhar ao lado. Miri, em seu Staraptor, já havia se posicionado.
A mulher loira subiu em cima do tubarão-dragão e com um um gesto, ele decolou pelo éter, sendo seguido pela ave de rapina e pela esfinge. Cruzando o mar quântico de cristais, passando pelos cardumes de Unown.
Eles não tinham tempo a perder, mas também, nem tempo eles ali tinham. Ren e Khoury ainda estavam por aí naquele mundaréu sem fim e, para piorar, Benjamin Brandon também estava em algum canto daquela dimensão. Eles precisavam encontrar ao menos um deles o quanto antes e sair daquele buraco dos infernos e Luca não esperava ver Benjamin Brandon tão cedo.
Khoury
Dimensão dos Unown
Segunda-feira, 16 de maio, ano 30 (Era Tōitsu)
Khoury estava preso. Ele odiava essa sensação. Uma vez, um de seus primos, em Mahogany, em uma brincadeira sem graça, o prendera no chiqueiro dos Piloswine e por uma noite inteira ele tivera que dormir em uma pilha de caixas e só fora descoberto de manhã quando a sua mãe e seu padrasto deram falta dele.
No momento ele preferia o chiqueiro dos Piloswine do que onde estava atualmente. Preso entre blocos enormes de cristal iridescente, seu corpo sendo envolto por fios pegajosos de seda enquanto Benjamin Brandon o mantinha refém.
Por sorte aquele maníaco homicida com delírios de grandeza estava impotente ali no nada da dimensão dos Unown. Os Pokémon Símbolos ali em sua dimensão nativa fugiam do homem e dos comandos hipnóticos de seu Bronzong, era inútil, ele havia se frustrado tantas vezes que àquela altura apenas descontava sua raiva no menino que não podia fazer nada.
O Orbeetle de Brandon havia, com seus fios pegajosos, envelopado Khoury como uma múmia, prendendo-o. A joaninha psíquica havia usado seu Sticky Web para limitar seus movimentos, começando por seus braços e pernas, envolvendo o corpo do garoto com fios pegajosos de seda até a boca.
Ele vai me matar quando perder a paciência, disse Khoury para si mesmo. O medo talhava o sangue em suas veias.
Khoury o encarava e percebia o quão ensandecido Brandon se encontrava. Os olhos injetados, fundos como cavernas; a pele manchada pelas queimaduras de gelo e pelo cansaço; o bigode sujo de sangue seco; as olheiras escuras, fundas, tremendo sob o peso da própria fúria. Àquela altura, ele parecia menos um homem e mais o reflexo grotesco daquilo que quis ser: um falso deus deformado pela própria ambição. Seu terno de safári pendia em tiras, rasgado, salpicado de lama, poeira e sangue endurecido. As roupas que antes o faziam parecer um explorador agora só o faziam parecer um cadáver inchado e mal vestido.
— Eu os comando… eu exijo! — gritou, rouco, para o vácuo que nada lhe devolveu.
Bronzong flutuava a poucos metros, os olhos piscando em tons alternados de rubi e branco, como faróis defeituosos de um carro. O som metálico que emanava do sino era trêmulo, irregular, o som moribundo de um corpo que não suportava o peso do poder que lhe fora imposto. O Pokémon, evoluído à força, sofria; cada movimento denunciava a exaustão, o colapso iminente.
— Bastardos! — vociferou Brandon, o rosto vermelho, as veias saltadas no pescoço. — Cretinos! Eu sou seu mestre! Exijo que me façam um deus! Reescrevam o mundo para mim!
Aquela não era mais a voz de um homem, mas a súplica de um animal ferido. Ele estava além da loucura, além da histeria. O descenso final o tomara por inteiro. Cada grito era uma cicatriz aberta, e a frustração vibrava em torno dele como uma febre viva. Tudo o que construíra, cada cálculo e ambição, fora destruído por um garoto de quinze anos. O homem que almejara ser demiurgo agora urrava no vazio, impotente, porque o próprio universo o negara. Khoury achava aquilo irônico, trágico, mas ironicamente previsível. Era como um mangá shounen, exceto que ali não havia heróis, nem créditos finais, nem uma trilha foda de j-pop. Era apenas a vida real: fria, implacável e absurdamente cruel.
— Aquele seu amigo… aquele pivete… — grunhiu Brandon, a voz saindo como vidro triturado em um moedor. — Tantos anos de estudo… tantos experimentos… tudo para que um moleque imbecil me atrapalhasse! Quando eu o encontrar, quero o corpo dele aos meus pés. Estou cansado. Cansado do quão longo este dia tem sido. Estive tão perto… e ainda assim, fui impedido do meu triunfo.
Khoury fechou os olhos por um instante, tentando ignorar o som da voz rachada do homem, mas então uma nova vibração percorreu o ar: grave, metálica, diferente. Algo se movia.
— Que curioso… — uma voz ecoou entre os blocos adamantinos, profunda, cortante, ressoando como uma lâmina sendo passada em uma harpa. A espinha de Khoury gelou. — Seres vivos neste vazio entre os mundos… Faz éons que não sinto presença alguma além dos Unown. Uma criança, ainda tenra em idade… e um homem que almejou o sol como eu, mas que caiu quando suas asas de cera derreteram.
— Quem está aí?! — gritou Brandon, ou tentou gritar. O som saiu rouco, fragmentado, mais um sussurro que um brado.
E então o ar se rasgou.
Materializando-se, como fumaça condensando em forma humana, uma figura translúcida tomou corpo diante deles. Flutuava sem mover-se, os cabelos brancos e a túnica longa tremulando sob um vento invisível. Circundando-lhe a cabeça, havia um diadema quebrado, feito de um metal que lembrava falanges humanas mergulhadas em prata. Khoury o reconheceu imediatamente: era como as figuras nas paredes das Ruínas de Alph. As mesmas feições esculpidas nos murais que ele tantas vezes ajudara o Professor Hale a catalogar.
— Eu tive muitos nomes, em vida e após ela — disse o homem, e sua voz soava como pregos arranhando uma placa de metal. — O Rei Coroado de Estrelas. O Lorde do Vale Central de Alph. Rei de Duas Cidades. O Nono Filho de Kephalos e Arsinoe.
O espectro ergueu o queixo e sorriu, um sorriso de mármore rachado.
— Mas eu desejei outro nome para mim: Todo-Poderoso Sinnoh. O Sustentador do Mundo. O Demiurgo. O Arquiteto do Universo.
Khoury prendeu a respiração. As roupas, o diadema, os títulos. O coração do garoto batia como uma marreta. Ele já via lido aqueles nomes muitas vezes na biblioteca do museu no sítio arqueológico. Céus… seria aquele fantasma o próprio…
— Eu fui como você — disse o espectro, apontando para Benjamin Brandon com um gesto lento e régio. — Aspirei à divindade como você. E, como você, falhei.
Brandon cambaleou um passo para trás. Seu rosto, antes endurecido pela raiva, vacilou entre o medo e a fascinação.
— Você… você é Alphaeus — murmurou, incrédulo, o nome escapando-lhe como uma oração profana.
O fantasma inclinou a cabeça, e um brilho pálido cruzou seus olhos mortos.
— E você é apenas mais um tolo — disse Alphaeus, com um tom quase gentil. — Um tolo que, assim como eu, desejou demais… e caiu. Eu admiro isso, sabia? A sua loucura, a sua húbris… somos idênticos, afinal. Espelhos rachados do mesmo delírio.
O espírito moveu-se no éter como tinta derramada na água. Seu corpo translúcido se dissolvia e se recompunha, aproximando-se de Brandon com a leveza de uma serpente que fareja presa. Khoury, imobilizado nas teias, observava tudo com o coração rufando contra a caixa torácica, os olhos arregalados de pavor.
— O que você deseja? — perguntou Brandon, tentando manter firmeza na voz.
— O que é meu por direito — respondeu Alphaeus, circundando o arqueólogo como um Arbok enrolando um Sandshrew. — O que você também almeja. A divindade. O poder de reescrever o universo e rir na face Daquele que o criou, tomando-lhe o trono.
A voz se tornou um sussurro e um trovão ao mesmo tempo.
— Eu já tive um parceiro que partilhou desse desejo. E o preço foi meu povo — sua voz não tinha piedade nem remorso, era a voz de alguém sem uma grama de sensibilidade em seu corpo, isso é, se ele tivesse algum corpo para início de conversa — meus súditos queimando em nome da glória. No fim, tudo ricocheteou, e tanto eu quanto aquele sábio fomos lançados a este abismo entre mundos por ousarmos demais. Ele aceitou o castigo. Eu não. Eu me nutri do ódio, da fome por vingança contra Aquele que me baniu.
Alphaeus parou diante de Brandon. O olhar do rei morto era como dois blocos de gelo a deriva no oceano.
— E você, mortal… o que sacrificaria para ser um deus? Que preço pagaria para rir na face do Criador e sentar-se em Seu lugar?
Benjamin Brandon hesitou por um instante, um instante apenas. Então, com a voz rasgada, respondeu:
— Minha humanidade, se necessário.
O fantasma sorriu.
— Então que assim seja.
O rei dissolveu-se em fumaça cor de sangue, uma névoa densa, viva, que cheirava a ferro queimado e incenso velho. A forma translúcida de Alphaeus foi sugada para dentro de Benjamin Brandon, pelas narinas, pela boca, pelos olhos, como se o homem estivesse sendo devorado de dentro para fora.
Brandon gritou. Não foi um grito humano, mas um som quebrado, dissonante, que parecia vir de várias bocas ao mesmo tempo. Seu corpo arqueou-se para trás, os músculos convulsionando em espasmos violentos, as veias saltando sob a pele como cordas de um instrumento prestes a se romper. O ar ao redor distorceu-se; até o próprio vazio pareceu temer o que estava prestes a nascer daquela união profana.
O sangue escorria dos olhos, dos ouvidos, da boca e ainda assim ele gritava, cuspindo fragmentos de ectoplasma vermelho que evaporavam assim que tocavam o ar. Brandon estava se transformando, sua carne se desfazendo e se recompondo, até que o homem que um dia fora humano deu lugar a algo novo. Algo que nem seus próprios Pokémon ousavam encarar.
Khoury observava, paralisado. O estômago se contorcia em repulsa e pavor. O ar tinha gosto de ozônio, ferro e pedra. Tudo girava em torno daquele corpo convulsionando no meio do nada.
Brandon caiu de joelhos, e a voz que escapou dele já não era mais sua. Era uma voz em coro, múltiplas entonações sobrepostas, ecoando de todas as direções e de dentro e fora do crânio de Khoury. Aquilo fazia o caracol dos seus tímpanos tinir.
— Eu sou Alphaeus… e eu sou Brandon… — declarou a entidade, e sua voz reverberou através da própria estrutura da dimensão. — Eu sou o que foi e o que será. Rei e sábio. Fantasma e vivente. Eu sou o que sou e não serei negado daquilo que desejo.
A pele de Brandon começou a cristalizar, mnamita espalhando-se por suas veias como geada. Primeiro os vasos, brilhando em tons azulados e brancos, depois o rosto, rachado como porcelana costurada com ouro líquido. Os olhos tornaram-se opacos e luminosos. A carne enrugada do velho arqueólogo se esticou, seu corpo fora de forma e envelhecido mudou, reconfigurando-se até tornar-se algo jovem e terrível: um homem nos vinte e poucos anos, alto, de músculos firmes e cabelos escuros como carvão. Restavam dele apenas o terno de safári em farrapos e o monóculo quebrado pendendo na ponte do nariz.
Khoury tentou gritar, mas o Sticky Web abafou o som na garganta. Sua mente, no entanto, gritava sem parar. Diante dele, o corpo do homem estava sendo esvaziado e preenchido por algo antigo, por algo que jamais deveria ter voltado a existir.
— O garoto… ele está aqui… vivo… posso sentir sua presença, não muito longe… — disse a voz, agora multiplicada, vibrando em cada átomo ao redor. — Ele carrega… o fragmento do Núcleo. O último sopro de Mystri dentro de seu peito, batendo como um segundo coração. Com ele, ascenderemos. Com ele, rasgaremos o véu do céu e tomaremos as coroas que nos foram negadas.
Ao redor deles, os blocos de mnamita começaram a vibrar, reluzindo em luz espectral. O éter pulsava em intervalos regulares, o batimento de um ser colossal. Era como se a própria Dimensão dos Unown estivesse respirando.
O sino de Bronzong soou um toque trêmulo, e o Orbeetle guinchou, recuando atrás do corpo amordaçado de Khoury. Os Unown, aterrorizados, dispersaram-se pelo vazio como insetos negros fugindo de um incêndio. Khoury fechou os olhos. O medo gelava suas veias. Pensou em Ren. Em Cynthia, Miri, Luca. Alguém precisava detê-lo. Alguém precisava impedir que aquela coisa se tornasse um deus.
Então veio o sussurro, próximo, íntimo, rastejando dentro de seus ossos:
— Diga-me, pequeno mortal…
A voz era ao mesmo tempo um rugido e um sussurro, ecoando por dentro e por fora, escorrendo para dentro da mente de Khoury como óleo em água.
— Onde está aquele que carrega o Núcleo?













