terça-feira, maio 12, 2026


Khoury

Cidade Sagrada de Sinjoh

Segunda-feira, 16 de maio, ano 30 (Era Tōitsu)


Khoury havia nascido e crescido em uma fazenda de Swinub em Mahogany, uma pequena vila enclausurada entre duas cordilheiras de montanhas em Johto: a de Mortar e a de Blackthorn. Por conta da localização isolada entre as duas formações geográficas o clima de Mahogany era considerado alpino com uma temperatura que nunca passava dos dezesseis graus mesmo no verão. Isso não queria dizer que o garoto estava acostumado com o vento cortante dali das montanhas.

Enquanto estavam a caminho das ruínas da cidade abandonada ele se agarrou à cintura de Ren enquanto o snowmobile era pilotado pela assistente de Cynthia. A campeã, por outro lado, estava no dorso de um grande dragão índigo com a barriga avermelhada, o nariz tinha uma mancha em formato de estrela e do lado da cabeça despontavam dois cefalofólios. Nas costas, onde Cynthia se agarrava, havia uma grande nadadeira dorsal. Era um Garchomp, um Pokémon nativo das regiões montanhosas de Sinnoh, o ás da campeã da região.



Eles haviam deixado a Vila Musuhi a não muito tempo. Eles se dirigiam ao que parecia, construída no centro do vale entre a cadeia de montanhas, uma cidade amurada coberta pelo gelo. Torres emergiam, uma delas caída pela ação do tempo e bem no topo, em uma acrópole encoberta pelo brancor, estava um templo entalhado na pedra. Aquela a cidade dourada de Sinjoh.

Durante seu estágio com o Professor Spencer Hale nas Ruínas de Alph, Khoury costumava se perder nas tardes silenciosas dentro da biblioteca do museu. O trabalho de campo era fascinante, mas havia algo de quase sagrado no ato de manusear aqueles volumes antigos que repousavam nas estantes empoeiradas, alguns não escritos pelo próprio Hale, mas por seus pais, Adam Longfellow Hale e sua esposa, Fujiwara Makomo, publicados cerca de cinquenta anos antes de Khoury nascer. O casal, pioneiro no estudo dos Unown, havia sido o primeiro em milênios a traduzir os hieróglifos gravados nas paredes das ruínas.

Sozinhos, de maneira paciente e obstinada, eles compilaram quase cento e cinquenta e dois livros, reunindo tudo o que conseguiram extrair de murais, tábuas, pergaminhos, placas e estelas: registros agrícolas, códigos legais, manuais rituais e, acima de tudo, mitos e lendas. Eram estes que Khoury mais amava. Lia e relia sem parar.

Entre a coleção, um livro se destacava para ele. Traduzido de tabuletas de argila e pergaminhos, tinha como título Onde os Sonhos Sonham: Uma Coleção de Contos e Lendas de Alph. Em uma das histórias, havia uma cidade magnífica, construída de ouro e prata, com torres de cristal que cintilavam como se feitas de aurora boreal. E ainda assim, agora, olhando pelas lentes embaçadas de seus óculos para a cidade em ruínas diante de si, ele não sentia nada além de uma pontada de decepção. Sinjoh, a “cidade perdida”, não passava de uma sombra congelada do que talvez tivesse sido. Era como se o tempo tivesse guardado uma cópia falha de Alph em um congelador e esquecido ali por três mil anos.

Miri estacionou a snowmobile diante do portão oeste da cidade. O motor morreu, restando apenas o sopro constante do vento glacial. Adiante, pastando junto ao muro erodido, um pequeno rebanho de Pokémon se movia lentamente, mastigando plantas congeladas e pedras recobertas de musgo azul-acinzentado, como se o gelo fosse tão parte de sua dieta quanto da paisagem.

Os menores tinham corpos pálidos e gélidos, como estalagmites ambulantes com pernas curtas e olhos amarelos que brilhavam. Os maiores, no entanto, eram colossais, seus corpos rochosos lembrando camadas de permafrost, cobertos por uma couraça vítrea que refletia a luz do fim da tarde em tons de azul e branco. De suas cabeças projetavam-se placas que pareciam tanto presas quanto lâminas de arado.

Curioso, Ren sacou sua Pokédex. O aparelho apitou, e uma voz metálica recitou:



Bergmite, o Pokémon Pedaço de Gelo. Tipo Gelo. Ele congela o vapor d’água do ar, resfriando-o a -100 ºC, solidificando a armadura que cobre seu corpo. Sempre permanece próximo de Avalugg, viajando em suas costas através de mares congelados ou cordilheiras nevadas.


Então ele escaneou os maiores, mas recebeu apenas silêncio. A tela piscava uma mensagem:



Nenhum dado adicional disponível para este espécime. Consulte um Professor Pokémon ou a autoridade científica mais próxima. Fotos e dados foram coletados e armazenados na memória interna.


Khoury franziu a testa. Ren, também surpreso, arqueou uma sobrancelha. Apenas Miri sorriu de leve ao descer da snowmobile.

— A Pokédex não tem registro porque esses Pokémon não são vistos há mais de um século e meio — explicou ela. — São Avalugg de Hisui. Bem diferentes de seus primos de Kalos e Paldea. Pensávamos que haviam sido extintos em Sinnoh depois da colonização… mas aqui, em Sinjoh, resistiram. Prosperaram, até. Lindos, não?

Uma voz firme interrompeu:

— O mesmo aconteceu com um Braviary de Hisui que vi certa vez — disse Cynthia, limpando a neve do casaco enquanto desmontava de Garchomp. — Quando cheguei aqui pela primeira vez, enviei fotos ao Professor Rowan. Ele não resistiu. Ofereci-me para documentar e até transportar alguns espécimes para estudo. Chegamos a considerar reintroduzi-los na natureza em Sinnoh.

Seu tom ficou mais grave:

— Mas infelizmente não é por isso que estamos aqui. — suspirou. — Temos um criminoso a encurralar. Quanto mais tempo perdermos aqui fora, mais chances damos para Benjamin Brandon se preparar.

A garganta de Khoury secou. Mas Ren, ao seu lado, apertou uma Moon Ball e disse, em tom firme:

— Não se preocupe. Se você ficar com medo, eu protejo você.

As palavras simples aliviaram o peito de Khoury. Ele respondeu no mesmo espírito:

— Então eu também protejo você, se precisar. — ergueu a Friend Ball de seu Swinub, apertando-a com força. — Párias devem ficar juntos, não é?

Eles riram juntos, brevemente, mas com sinceridade, antes de seguir atrás de Cynthia e Miri para o interior da cidade.

A cidade se desdobrava como um esqueleto de pedra e gelo. Ruas se estendiam sob a neve endurecida, construções corroídas como se o tempo as tivesse roído. Nenhuma mão humana tocava aquele lugar há milênios, e ainda assim o traçado das casas e vielas ecoava o de Vila Musuhi, a poucos quilômetros dali.

Ao longo das avenidas maiores, erguiam-se estátuas semienterradas, representando um quadrúpede — algo entre um equino e um camelídeo — cercado por um colossal anel em torno da cintura. A figura exalava reverência.



— São estátuas de Arceus — murmurou Miri. — Ou pelo menos, daquilo que eles acreditavam ser Arceus.

Khoury estremeceu.

— Arceus como o Criador…? — perguntou à assistente. — O Primordial?

Cynthia, à frente, assentiu. Sua expressão parecia suspensa entre a vigilância e a devoção. Garchomp farejava o ar, tenso.

— Os povos de Celestica e de Alph tinham mais em comum do que imaginamos — explicou a Campeã. — Os de Alph se comunicavam com os “Olhos e Braços do Primordial”, os Unown. Já os de Celestica afirmavam ter estado diante do próprio Primordial. Sinjoh foi o ponto de encontro entre eles: uma civilização que floresceu em comunhão com Aquele que moldou o universo. Talvez tenham florescido tanto que se tornaram arrogantes, ousando tornar-se como Ele.

Ren ergueu os olhos para a estátua.

 — Mas… por que essa forma quadrúpede? — disse, não em tom de deboche, era mais uma pergunta genuína. — Arceus não deveria ser mais humanoide?

— Ninguém conhece a forma verdadeira de Arceus — respondeu Miri. — Isso é apenas o que os mortais conseguiam conceber, a imagem mais próxima que seus olhos podiam suportar.

— Talvez a verdadeira pergunta seja o contrário — acrescentou Cynthia. — Por que esperaríamos que um deus se parecesse conosco? Por que não imaginar que Ele se revele em formas além do humano?

Os garotos silenciaram. Khoury pensou em sua cidade natal e no pequeno santuário na parte leste da vila, onde havia algumas estátuas de Ho-Oh e Lugia, cuidadas por um monge mais velho que sua bisavó. Chamavam-nos de deuses-pássaro, e ninguém questionava. As pessoas simplesmente iam até o santuário, deixavam moedas na caixa de oferendas, acendiam incensos, murmuravam orações e seguiam com a vida. Nunca ninguém se perguntou se o Deus do Arco-Íris ou o Deus Prateado poderiam aparecer em forma humana. Não era blasfêmia pensar assim, apenas… nunca pareceu necessário.

Os quatro percorreram pela cidade de Sinjoh, passando pelas ruas de pedra a  caminho da acrópole onde uma grande construção parecida com a da plaza central das ruínas sul lá em Alph, um grande templo construído em pedra negra que se mostrava imponente sobre toda a cidade áurea.

Pelo canto dos olhos era possível ver vultos passando pelos becos e pelas frestas das casas, mas nenhum daqueles fantasmas parecia querer aproximar-se. Os olhos amarelados pareciam focados em Ren, pelo que Khoury pôde perceber, eles pareciam evitá-lo. Não. Pareciam evitar o Núcleo de Mystri que ele segurava que o ancião da Vila Musuhi havia o dado após conversarem.

— Os Zorua e Zoroark estão irrequietos — comenta Miri. — Geralmente é impossível fazer investigações no sítio arqueológico sem ser encurralados por eles.

— Eles estão evitando a gente — diz Ren encarando os vultos.

— Não de propósito — fala Cynthia. — Pelo que pude documentar dos Zorua e Zoroark de Hisui desde que cheguei a Sinjoh é que são carnívoros oportunistas. Eles não precisam de nutrição, mas se precisarem, eles vão atrás de uma presa. Acredito que seja a presença do Núcleo de Mystri com você.

— O poder da esfera está afastando eles — deduz Khoury. — Uau. Que tipo de coisa o Núcleo pode mais fazer?

— Bem, não saberemos tão cedo — fala Ren segurando o orbe de opalita. — A gente vai precisar usar ela de isca para atrair Brandon.

— Então melhor nos apressarmos — fala Miri. — Está escurecendo e acho que os Zorua vão ficar mais agitados nesse período. Fora que eu esqueci de trazer uma lanterna.

A assistente de Cynthia coçou a nuca e olhou para o chão cabisbaixa.

— Então é melhor apertarmos o passo — fala a campeã montando no lombo do Garchomp e depois lançando outra Pokébola, dela saindo um pássaro de penas brancas que Khoury jamais tinha visto antes, era um Pokémon delicado e etéreo, quase angelical. — Togekiss, carregue nossos amigos. Vamos para a acrópole.



Miri soltou seu Staraptor e montou nas costas da ave de rapina. Khoury, com ajuda de Ren, montaram em Togekiss, e assim os três Pokémon voadores alçaram voo rumo à acrópole no topo da cidade.


Luca

Cidade Sagrada de Sinjoh


Luca se sentia como um astronauta à deriva no espaço. Seu corpo estava flutuando no ar como se estivesse em gravidade zero. O Pokémon de Benjamin Brandon o suspendia no ar com seus poderes psíquicos, ele não era mais o Bronzor de algumas horas atrás, mas um Pokémon diferente. Maior. O corpo em formato de sino, mas ainda azinhavrado indicava que o Bronzor havia evoluído exceto que Luca não sabia para que Pokémon ele havia evoluído.



Os Unown gravitavam ao redor do arqueólogo, as pupilas ciclopes dilatadas como se estivessem sob efeito de hipnose. Ele se perguntava como ele havia conseguido re-hipnotizar os Pokémon Símbolo uma vez que Ren havia destruído o seu aparelho nas câmaras mortuárias de Alph e ele parecia não ter nenhum cristal de mnamita em posse de si, mas ele não tinha tempo para perguntas.

Não ter domínio sobre o próprio corpo era horrível. O Pokémon de Brandon o suspendia no ar com seus poderes psíquicos, segurando ele, Togepi e Zorua no ar como se fossem marionetes em títeres. Absol parecia inafetado, mas ele também já encontrava-se em posição de ataque, rosnando, a lâmina do seu chifre em riste e envolta em uma massa escuro-avermelhada pronto para desferir um corte.

— Vejo que, no meio tempo em que esteve aqui em Sinjoh, você já fez novas aquisições — disse o arqueólogo, virando-se para a Togepi de Luca, que chorava assustada. — Para um moleque que só tinha um ovo há algumas horas atrás, devo admitir que é impressionante. Um Togepi é um achado raro. Ninguém vê uma dessas em Johto ou em Kanto há quase trinta anos. A guerra levou todos, mas acho que isso é uma história para outra hora.

Em seguida, ele olhou para o Zorua, que rosnou e chiou.

— E um Zorua de Hisui... esses aqui também estavam extintos há centenas de anos. Nunca pensei que veria um ao vivo e a cores — continuou. — E olha só, um Absol. Este eu nem preciso comentar. Sempre foram considerados espécimes raros, não apenas por evitarem os humanos, mas porque, no passado, eram caçados por serem vistos como prenúncios de desastres e catástrofes. E este aqui parece bem afeiçoado a você.

Kutabe rosnou e, com um movimento ágil de cabeça, lançou um corte de energia rubi na direção de Benjamin Brandon. Night Slash. O golpe atravessou o ar, mas, antes que pudesse atingir o arqueólogo, os Unown se agruparam ao redor dele, formando uma barreira viva. A parede psíquica desviou o golpe Sombrio e o rebateu com força, lançando o Absol contra a parede. A esfinge, no entanto, se recompôs, rosnando em desafio. Os Unown contra-atacaram em seguida com uma explosão elemental furta-cor, mais intensa que o ataque anterior.

— C-como...? — murmurou Luca, mal conseguindo mexer a boca.

— Bem, vocês pirralhos destruíram meu Neo Reticulador — respondeu Brandon, com um sorriso frio. — E me deixaram sem alternativas quando fomos teleportados para este fim de mundo gelado. Tive de recorrer a meios alternativos... não é, Bronzong?

O Pokémon em formato de sino flutuava logo acima, mantendo Luca e os outros Pokémon suspensos no ar. Brandon então tirou do bolso uma pequena cápsula azulada. Luca reconheceu de imediato: uma Rare Candy.

Rare Candies eram um tópico controverso entre treinadores. Embora não fossem ilegais, eram difíceis de conseguir no mercado comum — daí o rare no nome. Eram cápsulas capazes de acelerar artificialmente o crescimento energético de um Pokémon, aumentando seu poder sem o esforço do treino real. Um atalho perigoso: sem esforço, o Pokémon podia se tornar forte demais para obedecer a seu treinador... ou se tornar dependente da substância.

— Tive de recorrer a isso para fortalecer meu Bronzor e forçar sua evolução — explicou Brandon. — Aumentar o poder do Confuse Ray e do Hypnosis do Bronzong me permitiu ter mais controle sobre os Unown. Foi arriscado, mas agora eu os tenho na palma da minha mão. Incrível, não acha?

Luca não achava aquilo nem um pouco incrível. Brandon havia distorcido o crescimento natural de seu Pokémon para dominar os Unown, que agora se contorciam no ar como marionetes de energia psíquica.

— Bem, você vai achar incrível quando eu realizar o Feitiço dos Unown — prosseguiu Brandon, o olhar cada vez mais insano. — Já que você e aqueles dois moleques estragaram meus planos, farei do jeito difícil. Usarei os Unown para reescrever toda a realidade. Se não posso forçá-los a me tornar um deus como Arceus nesta, então ela precisa ser inteiramente reescrita! Esse é o preço que pagarei para obter o que desejo: toda a realidade!

Você é louco! — grunhiu Kutabe, arfando, as presas expostas.

Brandon o observou com fascínio.

— Um Absol que consegue falar… fascinante. Talvez, quando eu refizer o mundo, ou se isso não der certo, eu possa lucrar com você, com o Togepi e com o Zorua — ele então levou a mão ao bolso. — Mas antes… Orbeetle, prenda-os em Sticky Web!

Ele pegou uma Pokébola do bolso e a lançou ao ar. Dela surgiu uma criatura insectóide que parecia saída de um pesadelo alienígena. Era parecida com uma joaninha, isso é, se uma joaninha tivesse tido um caso amoroso com um extraterrestre, e o filho deles crescesse para se tornar um cientista megalomaníaco do mal.

Seu corpo era diminuto, coberto por uma carapaça vermelha salpicada de manchas pretas que brilhavam em tons azul-ciano e turquesa. Os grandes olhos, de um azul translúcido, cintilavam com uma calma perturbadora. O corpo principal era magricela, com membros finos e alongados, dando-lhe uma aparência quase frágil, mas havia algo profundamente inquietante em sua quietude.



O Pokémon flutuou no ar, silencioso como um óvni. As antenas arqueadas, que mais pareciam sobrancelhas, captavam cada vibração à volta, como se ele pudesse ler os pensamentos de todos ali. Um zumbido grave preencheu o ar quando seus olhos começaram a brilhar em tom lilás. Fios prateados e pegajosos se materializaram de sua boca e avançaram em direção a Luca e aos Pokémon, envolvendo-os em faixas de seda que, ao contato com o ar, solidificavam-se. Até mesmo o chifre-foice de Kutabe foi contido pela prisão acetinada.

— Não posso ter meus planos frustrados de novo por pirralhos — disse o arqueólogo galariano, sua voz ecoando com um tom quase messiânico. — Preciso orquestrar minha apoteose, garoto... mas também preciso de testemunhas. E você vai assistir de camarote enquanto eu começo a quebrar e reescrever o cosmos usando os Unown!



Ren

Cidade Sagrada de Sinjoh


Eles haviam pousado algumas ruas abaixo da acrópole de Sinjoh. Era impossível ir voando até o templo da cidade em ruínas sem ser alvejado por uma explosão de Hidden Power. Eles quase despencaram do alto se Cynthia não tivesse sido ligeira e comandado para que Garchomp e Togekiss desviassem, Miri havia feito o mesmo. Os quatro se viram obrigados a recuar e tomar outra rota por baixo.

Por onde os olhos alcançavam, flutuando como um enxame desordenado de insetos, estavam os Unown. Centenas. Milhares de Pokémon ciclópicos passando pelas vielas e ruas de Sinjoh. Chegava a ser desconfortante ver todos aqueles Unown, desorientados, como uma nuvem negra e disforme pela cidade antiga.

Os Pokémon Símbolos pareciam mover-se contra as suas vontades, as pupilas estavam dilatadas e estáticas como tivessem sido colocados em um transe e, para piorar, a cabeça de Ren doía ainda pior do que quando estava no subterrâneo das Ruínas de Alph. Parecia que alguém tinha pego um furador de gelo e batido no seu crânio e direto no seu cérebro causando uma dor lancinante o que só o deixou zonzo e com dificuldade para andar e respirar. Se não fosse por Khoury talvez ele teria desmaiado quando desceu das costas do Togekiss de Cynthia.

— Vo-você está bem? — perguntou o outro garoto, mas Ren não respondeu.

— Tá… tá tudo bem — mentiu. — Eu só nunca voei nas costas de um Pokémon antes e… a altitude…

Khoury expressava genuína preocupação. Seus lábios murcharam. Por trás das lentes embaçadas pelo ar frio, dava para ver como seus olhos exalavam desassossego e receio por Ren.

Em sua cabeça algo chiava. O tinido de antes, ressoando no caracol dos seus tímpanos como um diapasão, mas dessa vez não tão nítido. Ren quis gritar, mas apenas tapou as orelhas em vão. Seus joelhos tremeram, ele pensou que iria desabar no chão, mas Khoury o segurou.

— Me fala o que está acontecendo — ele disse. — Você também estava assim nas ruínas. Eu queria ter percebido lá, mas eu… eu estava cego querendo reconhecimento do Dr. Brandon e…

— Tá tudo bem, Khoury, sério mesmo — ele forçou-se a sorrir.

Antes que o garoto de óculos protestasse Cynthia levantou um braço e chamou-os.

— A costa está limpa, venham!

Cynthia, Miri, Khoury e Ren esconderam-se em uma das casas abandonadas na cidade alta. Os Pokémon grandes haviam sido recolhidos, não era seguro sobrevoar a área se havia olhos — literalmente — por todas as partes.

— Temos que achar uma outra rota — disse Cynthia. — Parece que Benjamin Brandon previa que alguém viria em seu encalço. Não conheço este homem, mas ele é bastante ardiloso.

— Como vamos passar pelos Unown? — pergunta Miri pegando uma de suas Pokébolas. — Eles estão por todo o lado.

— Podemos usar nossos Pokémon menores para tentar descobrir rotas por onde passar — sugere Khoury. — Meu Swinub tem um bom nariz para farejar.

— Eu posso usar meu Houndour também — fala Ren. — Styx é um bom farejador.

Cynthia coçou seu queixo.

— Não parece uma ideia ruim, acho que posso incrementar a ideia dos dois com algo — ela pegou uma de suas Luxury Balls no bolso de seu casaco e jogou-a no ar.

Da Pokébola preta e dourada saiu um Pokémon lupino bípede azulado e preto. O rosto era envolto por marcas pretas que lembravam uma máscara. O peito era coberto em uma pelagem amarelo-creme e no centro dele havia um espinho metálico idêntico aos que tinha nas patas dianteiras. Na parte de trás da cabeça quatro apêndices pendiam, recaindo sobre a nuca do lobo cerúleo. Se Luca estivesse ali com eles, ele iria surtar de ver um Lucario ao vivo e a cores diante dele.



Ren mordeu o interior da bochecha. Ele já estava sentindo falta do amigo e nem sabia onde ele estava ou como estava. Eles precisavam encontrá-lo, mas precisavam deter Benjamin Brandon antes que ele fizesse alguma loucura hedionda na acrópole pior do que o que fizera na câmara mortuária nas Ruínas de Alph.

— Lucario use a sua aura para rastrear os Unown, precisamos de uma rota segura — ordena a campeã. — Pode fazer isso, amigo?

O lobo assentiu e grunhiu. Ren liberou Styx e Khoury fez o mesmo com Swinub. O cão doberman e o porco começaram a farejar o chão e Lucario tomou a frente, seus olhos cor de rubi tomaram uma cor safira enquanto escaneava os arredores.

Lucario inclinou o corpo para a frente e os braços para trás e começou a correr como um ninja em um anime. Os quatro seguiram o lobo azul pelas ruas, com o Houndour de Ren logo atrás dele e o Swinub de Khoury que rateava pelo chão em passinhos desengonçados na tentativa de ser rápido.

Desviando por becos e algumas casas, o grupo chegou ao que parecia a boca de um túnel metros abaixo do templo. Cynthia, cautelosa, adentrou primeiro.

— Parece ser seguro, Lucario não está detectando nada — ela afirmou. — Venham.

Eles seguiram a campeã que recolheu Lucario, mas Ren, por outro lado, resolveu manter Styx consigo Algo em sua mente dizia que ele deveria deixar o Houndour fora da Pokébola por precaução. Khoury pareceu fazer o mesmo com seu Swinub, o leitãozinho marrom ficou ao lado do treinador e roncou.

Os quatro adentraram o túnel que, apesar do que Ren pensava, não era tão escuro assim. Cristais emergiam da parede, opalescentes igual o Núcleo de Mystri. Ele pegou o orbe e ergueu-o, calor pulsava dele como uma chama ba lareira. Era possível sentir o mesmo poder do Hidden Power dos Unown naquela esfera. Ren podia sentir os pequenos pedacinhos da criação. Era como se entregassem para ele blocos de Lego e que cada bloco fosse um pedaço do universo, de suas essências primitivas, indo tipo Normal ao Fada.

Aquilo nas mãos de Benjamin Brandon seria como doce na mão de uma criança. Agora, àquela altura, ele entendia por que o Ancião Elli e Cynthia haviam confiado o Núcleo a ele. Era a isca perfeita.

Eles continuaram vagando pelos túneis. A luz dos cristais nas paredes tornava tudo menos claustrofóbico. Inscrições gravadas nas pedras pareciam contar histórias, havia desenhos de Pokémon que Ren não conhecia e palavras em um idioma que deveria já estar morto há eras.

Quando o chão de pedra deu espaço a ladrilhos e paredes de tijolo, eles sabiam que haviam chegado ao Templo de Sinjoh. Cynthia, que tomava a frente, pegou outra Luxury Ball do bolso interno de seu casaco e arremessou-a ao ar, liberando mais um Pokémon de seu arsenal.

Um Pokémon diminuto e bípede tomou a frente do grupo. O topo de sua cabeça era uma rosa branca com uma máscara de baile verde cobrindo seus olhos rubros. Uma capa de folhas espinhosas de rosas recaía sobre as suas costas e na ponta de onde deveria estar suas mãos estavam dois ramalhetes de rosas, um vermelho e um azul. Ren já havia visto aquele Pokémon em revistas e na TV, sua mãe sempre quis enfeitar os jardins da sua casa com um Roserade, mas ela não se importara o suficiente para ir atrás de capturar um. Ver um diante de si era de tirar o fôlego.



— Roserade use Grass Knot — pediu Cynthia à roseira. — Precisamos ser cautelosos, pode haver armadilhas à frente.

O Pokémon roseira apontou um de seus braços-buquês para a frente e lâminas de grama emergiram do solo e entrelaçaram-se como os cadarços de um tênis em um nó. Os nós de grama se estenderam pelo corredor, e conforme avançavam, serpenteando, cortando fios de armadilhas ou placas de pressão o que facilitou a travessia sem caírem ou tropeçarem em algum alçapão. Depois do que Ren havia passado nas Ruínas de Alph ele não queria passar pelo mesmo de novo ali, depois de um dia inteiro.

Os quatro avançaram pelo corredor, passando pelos murais idênticos aos de Alph. As pinturas mostravam Arceus e o povo de Sinjoh, as quatro torres de cristal, o rio que cortava a cidade, lembranças petrificadas de uma era perdida, de um elísio que não mais existia. Ali já houvera vida. Luz. Fé. Mas o brilho dos tempos antigos agora não passava de ecos de um passado inalcançável de tão distante.

Humanos não deveriam ser deuses. Alguns poderes não deveriam estar ao alcance de ninguém. Ren pensou nisso ao sentir o Núcleo de Mystri vibrar sob o casaco, pulsando como um coração extra em seu peito. A cada batida, ele tinha a sensação de ouvir vozes: fragmentos da própria criação, pedindo para não serem usados.

Benjamin Brandon estava trilhando o mesmo caminho do rei dos Alph e do sábio dos Celestica. Dois homens que quiseram dominar o universo e foram devorados por ele por conta de seus húbris. Eles eram nada além de cascas vazias agora e como consequência, Sinjoh havia pago o preço.

Ren não podia deixar isso acontecer outra vez.

O corredor desembocou num salão amplo. Um altar triangular de pedra negra se erguia no centro, coberto por uma fina camada de neve. As colunas rachadas deixavam o vento soprar em assobios agudos, e o frio cortante fazia o ar doer nos pulmões. Estátuas de Pokémon titânicos cercavam o altar, vigilantes, seus olhos gastos pela passagem do tempo.


Cynthia avançou um passo, a voz imponente quebrando o silêncio:

— Dialga, o Regente do Tempo... Palkia, o Regente do Espaço. Dois dos filhos de Arceus. — Ela ergueu o olhar. — Os Celestica os veneravam, e os clãs Diamante e Pérola os chamavam de Todo-Poderoso Sinnoh.

Então, uma voz retumbou pelo salão, espalhando-se como um trovão amortecido pelas paredes geladas.

— E talvez seja a minha vez de ter esse nome também.

Benjamin Brandon emergiu da penumbra: uma sombra desgrenhada de si mesmo. As roupas estavam em frangalhos, a jaqueta cáqui de safári pendendo dos ombros como um farrapo. A pele, pálida e rachada pelo frio, exibia manchas arroxeadas de queimadura. As veias pulsavam sob a têmpora, e o olhar faiscava com a intensidade de um homem que perdera tudo, menos a própria loucura.

Atrás dele, flutuava um Bronzong, o corpo metálico girando devagar, irradiando luz lilás. Acima, uma tempestade de Unown pairava em espiral, centenas deles, milhares talvez. Moviam-se como um enxame vivo de olhos e símbolos, compondo e decompondo palavras indecifráveis no ar.

E pendendo do teto, envoltos em teias prateadas, estavam Luca e três Pokémon que Ren nunca vira, todos imóveis, como casulos brancos suspensos entre o céu e o inferno. Os olhos arregalados enquanto observavam a tudo.

— Que bom que vieram — disse Brandon, abrindo os braços num gesto teatral. — Vieram assistir à reescrita do mundo. Se não posso obter o que quero... criarei tudo de novo. Aqui. Agora!

Sua risada ecoou, grotesca.

— E como você pretende isso? — perguntou Ren, a voz trêmula.

Ele levou a mão ao bolso, sentindo o calor quase queimando da esfera. O Núcleo de Mystri reagia ao poder que inundava o templo, como se reconhecesse o epicentro do caos.

Brandon sorriu, os lábios rachados tingidos de sangue.

— Desde que destruíram meu Neo Reticulador mais cedo, tive de improvisar — disse ele, em tom fanático. — Sem fragmentos de mnamita, forcei a evolução do meu Bronzor, ampliei seus poderes de Hypnosis e Confuse Ray. Hipnotizei cada Unown que encontrei neste deserto gelado! Agora... no teatro do universo, eles dançam ao meu comando!

Ren o observou, o coração batendo em fúria.

Aquele homem não era mais um pesquisador. Era um profeta do fim, embriagado de poder e delírio. Ele se achava no direito de ser um messias para um mundo que apenas ele sonhava, que seria perfeito aos seus olhos. Se naquela manhã alguém o dissesse que ele teria que enfrentar um homem megalomaníaco com complexos de deus ele não acreditaria.

Cynthia deu um passo à frente.

— Benjamin Brandon, você está cego. Está brincando com forças que nem entende. — A voz da campeã era firme como aço. — Isso não é sabedoria, é insanidade.

Ele riu, com desprezo.

— Insanidade é negar a dádiva do poder. Arceus mantém o universo preso às rédeas, e nós rastejamos na lama, pedindo migalhas de iluminação. Eu não aceito mais isso!

A tensão estalou como um trovão. Ren respirou fundo. Era a sua deixa. Ele sacou o Núcleo do bolso, e o orbe brilhou com uma luz tão intensa que os reflexos dançaram nas paredes de pedra. Os Unown tremeram, como se o reconhecessem.

— Se é poder o que você quer — disse Ren, a voz ganhando firmeza —, então vem pegar.

Brandon arregalou os olhos, o brilho da loucura se tornando um clarão.

— Isso é... — ele arfou. — O Núcleo de Mystri?! Me dê! Me dê imediatamente, seu moleque insolente!

— Então vem pegar, balofo! — Ren lançou o orbe para o alto.

Tudo aconteceu de uma vez.

O Bronzong ergueu-se num movimento violento, seus olhos pulsando roxo. Os Unown giraram em frenesi, formando círculos concêntricos no ar. Brandon gritou algo em galariano: uma ordem que se perdeu no rugido da energia.

Ren correu. Khoury o seguiu.

O Houndour saltou, num arco de pura precisão, e abocanhou o Núcleo no ar antes que qualquer outro pudesse tocá-lo. Os olhos do cão brilharam como brasa.

— Agora, Roserade! — gritou Cynthia.

Do chão, vinhas afiadas de Grass Knot emergiram, enredando os tornozelos de Brandon. O arqueólogo caiu de bruços com um grito sufocado.

— Styx, Smog! — ordenou Ren. Uma nuvem negra se espalhou, encobrindo o altar.

Khoury, com o Swinub, soprou um Ice Shard, formando uma camada de gelo entre eles e o inimigo. Cynthia e Miri correram para os lados, desviando dos feixes psíquicos lançados pelos Unown.

Roserade, Energy Ball! — Cynthia bradou. A roseira dançou pelo ar e atingiu o Bronzong em cheio, que tilintou como um sino rachado.

Brandon se contorceu no chão, rindo e gritando ao mesmo tempo.

You ungrateful whelps! — berrou em galariano. — O Núcleo é meu! Unown, o detenham!

O ar vibrou. Os Unown explodiram em movimento. Um Hidden Power coletivo atravessou o salão, uma onda psíquica tão densa que o chão rachou sob os pés. Ren foi lançado contra a parede. O golpe o paralisou no ar, flutuando sem controle, enquanto uma dor branca atravessava seu crânio.

Miri gritou algo, mas o som se perdeu na reverberação. O Bronzong girou, emitindo um som grave e ensurdecedor, e em segundos Cynthia, Roserade e Miri estavam presas num campo psíquico invisível, suspensas acima do altar.

Brandon se levantou, ofegante, o olhar dilatado e a respiração em soluços.

— Eu não vou ser feito de tolo outra vez! — bradou. — Tenho tudo que preciso bem aqui! Me enganem uma vez, vergonha pra mim. Me enganem duas... e vocês pagarão o preço! Unown comecem!

As palavras se misturaram ao zumbido ensurdecedor dos Unown, que agora formavam um círculo perfeito no teto do templo. A luz deles se intensificou em um arco-íris distorcido de branco, violáceo, turquesa, lilás e dourado, até o ar tremer, distorcido. E então, o tecido da realidade começou a rachar. As bordas do salão se desfaziam em fractais de energia. O vento soprou em todas as direções, o som agudo e metálico de uma nota que não deveria existir.

Ren sentiu o Núcleo de Mystri pulsar em resposta, em sincronia. Brandon caminhou até o garoto que segurava o orbe opalescente com a pressão de um alicate entre os dedos enluvados. Ele sentia as falanges ardendo com a mesma dor que lancinava a sua cabeça.

— Agora me dê o orbe, pirralho — exigiu tentando tomá-lo das mãos de Ren.

— Não — grita. — Prefiro morrer a entregar para você!

Então, mesmo preso pela pressão psíquica, ele luta para se mover e com a força que tinha em si, ele atirou a esfera contra o chão enegrecido do Altar de Mystri. A realidade que já se fragmentava e dobrava sobre si mesma, formando fractais de mnamita, começou a rasgar-se ao meio como uma janela atingida por uma bola de futebol. Uma fenda dimensional abriu-se e começou a engolir tudo, começando pelos Unown e depois Khoury, Cynthia e depois Miri, os Pokémon deles, cada um deles espaguetificando-se e sumindo em uma fita mais fina que uma linha de pesca para dentro da fissura no tecido da realidade. Nem Luca ali no teto, preso em seu invólucro de teia, escapou. Os gritos sufocados deles eram silenciados pelo rugido da fenda.

O Núcleo de Mystri se espatifou e quebrou-se em um milhão de cacos. Brandon, em fúria, pegou Ren pela gola do casaco. O rosto vermelho em fúria e rosácea, encarou e vociferou:

— Você quis sua morte, aqui está ela — ele jogou-o na fenda. — Moleque estúpido. Eu disse que se atrapalhasse meus plano

Ren sentiu ser tragado pela fenda, mas ele antes puxou o arqueólogo consigo. Conjurando toda a força que conseguia.

— Se eu for morrer, você vai junto!

E assim, puxados, reduzidos a meros fios de si mesmo, o arqueólogo e o garoto, foram devorados pela fenda espaço-temporal que, em cacos vítreos da própria realidade, fechava-se após engolir as últimas duas pessoas ali no Templo de Sinjoh.

Pela terceira vez naquele dia Ren caiu em direção ao nada. Dessa vez ele tinha certeza de que a queda seria maior que as duas anteriores.

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