Tenma Subterrâneo das Ruínas de Alph, Johto Segunda-feira, 16 de maio, ano 30 (Era Tōitsu) Aqueles túneis eram como um labirinto sem fim. Os dois adolescentes já tinham vagado por metros e mais metros tendo apenas as chamas azuis do Will-O’-Wisp de Vulpix para iluminar o caminho. — Acho que já passamos por esse estalagmite antes — disse Lyra encarando a pilastra de rocha quartzo que torreava sobre eles como um dedo apontando para o teto da caverna. — Os cristais são os mesmos de antes. — E como você sabe disso? — perguntou Tenma encarando Lyra nos olhos, eles não tinham mais aquele brilho selênico de antes, tinham voltado ao tom achocolatado de avelã de antes. — Você é geóloga por acaso? Ele riu e ela riu de volta, dando uma breve acotovelada. — Não, mas sério, acho que estamos dando voltas em círculos aqui no subterrâneo. Não vamos chegar a lugar nenhum assim — disse ela. — Odeio cavernas. Depois de ter me embrenhado naquela caverna na Rota 30 eu não pensava que iria acabar em outra tão cedo. — Espera, o quê? — Foi quando eu encontrei minha Dunsparce — ela respondeu. — Foi bem no comecinho da minha jornada. Eu vi ela e acabei seguindo até a caverna direto pro ninho de um Dudunsparce. — Espera, o que é um Dudunsparce? — pergunta Tenma curioso. — A evolução do Dunsparce. — Dunsparce evolui? Lyra acenou a cabeça e pegou algo no bolso do macacão, era sua Pokédex, ela mostrou a imagem de um Pokémon parecido com Dunsparce, porém maior e com o corpo segmentado em três partes. — Isso daqui. — Você tá de brincadeira, né? — indaga o garoto olhando para a imagem no aparelho eletrônico, ele se lembrava do Dunsparce de Lyra, como um Pokémon como aquele evoluia e só, sei lá, apenas crescia outro segmento corporal? Não fazia sentido. — Porra. Achei que ele iria evoluir para algo mais legal, tipo um dragãozão maneira. É um Pokémon serpente com asas. E ele só vira uma serpente maior e com asas menores ainda? — Bem, nós apenas crescemos e mudamos pouco na aparência — riu Lyra. — Se bem que você cresceu bem mais que eu. Quanto de altura você tem, Kousei? — Hã, acho que eu tenho mais de um e setenta de altura, eu tive um estirão de crescimento ano passado quando ainda estava morando em Galar — ele disse coçando a nuca. — Um e setenta e sete, talvez? Eu sou um pouco mais alto que o Silver e bem mais alto que a minha irmã e olha que somos gêmeos. — Chega a ser destoante vocês dois serem gêmeos, eu só sei por que os olhos de ambos são dourados — comenta Lyra. — tipo a Tomoki-chan é baixinha e gordinha e você é… — Eu não gosto que comentem muito sobre o corpo da minha irmã — diz ele na defensiva, ele sabia o quanto Masako se sentia em relação ao próprio corpo, como as pessoas comentavam coisas repugnantes e como ele havia se encrencado várias vezes na Academia Fairbairn para proteger ela. — Só não mencione assim. É… indelicado. — Me desculpa, não disse por maldade — falou ela. — A Tomoki-chan é praticamente uma amiga. Eu não falaria mal de outra pessoa… Bem, eu sinto muito. Me desculpa. — Tá tudo bem, Lyra. Eu só… — ele hesitou, os olhos desviando para a chama azulada do Will-O’-Wisp que tremeluzia à frente. — Eu só sinto que tenho que proteger meus irmãos o tempo todo, entende? Eles são tudo o que eu tenho. Meus pais são… um desastre. Sempre foram. Nunca foram família de verdade. Ele fez uma pausa, como se estivesse reunindo coragem para continuar. — Meu irmão caçula foi sequestrado. Eu não sei se ele tá bem, se tá com medo, se tá chorando. — seu lábio tremeu por um instante, mas ele tentou se manter inteiro. — E minha irmã… ela tá em algum lugar nesses túneis, com o Silver. Eu não confio nele. Mas… ele é tudo o que temos no momento. E isso me assusta pra caramba, por que eu sei o que ele fez. Sei o que ele é… Lyra não disse nada por um instante. Apenas caminhou ao lado dele, com passos silenciosos, como se soubesse que palavras demais, naquela hora, quebrariam algo delicado. — Me desculpa extravasar com você, okay? — Eu também fui errada em falar da Tomoki assim… — ela olhou cabisbaixa para o chão rochoso da caverna. — Vamos focar em tentar sair daqui. Quanto mais rápido sairmos daqui. — Bem, você mencionou seu Dunsparce, por que não usamos ele? — perguntou. — Ele é um Pokémon cavernícola, acho que ele pode nos ajudar, né? — É ela. Minha Dunsparce é fêmea. — corrigiu Lyra. — Ela tá fora de combate. A batalha contra Silver, se lembra? — Oh… A Dunsparce de Lyra havia sido derrotado pelo Wooper de Silver na batalha no anfiteatro. — Espera, eu acho que eu tenho um revive na minha bolsa! — ele exclamou e procurou na bolsa carteiro pelos comprimidos. — Aha, achei. Aqui, dá pros seus Pokémon. Eles devem estar um caco depois da batalha. Ele colocou os comprimidos de revive na mão de Lyra que assentiu e pegou as Pokébolas do bolso de seu macacão e liberou seus Pokémon. Com a ajuda de Tenma, ela deu para cada um deles um dos comprimidos. Croconaw engolira por inteiro igual Dunsparce, já Meowth fizera um pouco de birra, mas logo tomou o remédio. Em poucos instantes o pequeno time de Lyra revigorou-se e parecia novinho em folha após a batalha. — Uau, eu não sabia que revives eram instantâneos assim — disse ela segurando um dos comprimidos amarelos entre os dedos. — Do que isso é feito? — Eu não sei, talvez de alguma planta? — Tenma deu de ombros. — Devem ser cristais de açúcar de alguma planta medicinal, os Pokémon geralmente gostam de coisas doces. Remédios amargos, pelo que sei, faz o Pokémon parar de confiar no treinador. — Eu também pararia de confiar em alguém que me dá coisas amargas — ela colocou a língua para fora e fez uma careta. — Detesto coisas amargas! — Somos dois — Tenma riu. — Meu tio-avô tomava chá amargo toda manhã. Um horror. Parecia mato fervido! — Deve ser coisa de velho — Lyra riu junto. — Minha avó também carrega balinhas amargas na bolsa. Vive me oferecendo. Aceitei uma uma vez… nunca mais repito o erro. A risada dos dois ecoou suave pela caverna, como um sopro de vida naquele subterrâneo frio. — A gente não vai ficar assim, né? Velhos e cheios de manias bizarras? — disse Lyra com um sorriso de canto. — Não quero ser uma velhinha que carrega bala de boldo por aí. — Se algum dia você me vir tomando chá amargo por vontade própria… — Tenma fingiu arrepio — me dá um tapa. Ou melhor, me enterra de vez. É sinal de que eu pirei. Ela riu alto. — Falando sério… eu ainda nem fiz quinze. Faço no fim do mês. — Espera aí… o quê? — Lyra o olhou como se ele tivesse acabado de revelar ser um Ditto disfarçado. — Você é mais novo que eu? Tenma franziu o cenho, confuso. — Mas você é enorme! E musculoso! — disse ela, apontando com uma quase indignação. — Quem tem esse corpo aos catorze? Olha o tamanho dos seus braços, pelo amor de Arceus! Ele suspirou, meio rindo, meio embaraçado. Já tinha ouvido isso antes — muitas vezes, na verdade — mas ainda o deixava desconfortável. — Eu te falei, né? Estirão de crescimento. Acho que sou até mais alto que meu pai. — Coçou a nuca, envergonhado. — E não sou trincado. É só... esporte. No internato eu tinha atividades extracurriculares obrigatórias… fiz esgrima, rugby, que eu odiei, depois fui para o futebol. E minha família insistia no kendo, kenjutsu… artes marciais tradicionais. — Você tá brincando. Sério? — Os olhos dela brilharam. — Espada mesmo? Tipo, katana? — É. Naginata também. — A voz de Tenma caiu para quase um murmúrio. — Minha família é de um clã antigo de Johto. Não samurais, exatamente… mas da nobreza. Meu tio-avô lutou nas Guerras Fronteiriças, do lado de Kanto. Desde sempre, os homens treinam com katana e naginata. Meio que… herança de sangue, sabe? Não tive muita escolha. Lyra ficou em silêncio por alguns segundos. O tipo de silêncio que escuta mais do que julga. Tenma não queria mentir. Mas dizer que era um príncipe? Não. Para Lyra, ele queria continuar sendo apenas Kousei. — Deve ter sido pesado — disse ela, por fim, com suavidade. — Eu mal consigo segurar uma vassoura direito, imagina uma espada. — Foi — ele respondeu com um meio sorriso sem humor. — Meu sensei tem mais de noventa anos. Já era velho na época da guerra. Samurai de verdade. Aprendi tudo com ele: postura, técnica, honra... Virou minha fixação, na real. — Pelo menos você tem uma história incrível — ela sorriu. — Eu sou um tédio completo. — Não fala isso — ele rebateu de imediato, a voz ecoando na caverna antes que conseguisse conter. Corou. — Você não é… não é nem um pouco desinteressante. Eu… — Tá tudo bem, Kou-kun — ela interrompeu gentilmente, com um sorriso pequeno. — Vamos focar em sair daqui. Você precisa encontrar sua irmã. E, ugh, o Silver. — E o Aleks também — ele acrescentou, o tom voltando a pesar. — Dunsparce, você consegue nos ajudar a encontrar o caminho? — perguntou Lyra. A tsuchinoko assentiu, vibrando a cauda em forma de broca e logo desapareceu no solo, escavando à frente. Meowth saltou para o ombro de Lyra, a moeda koban em sua testa refletindo a chama azulada do Will-O'-Wisp de Vulpix, que agora descansava nos braços de Tenma, como um bichinho de pelúcia aconchegante. Guiados pela serpente, os dois caminharam por mais de dez minutos em silêncio atento, ouvindo apenas os próprios passos e o som de gotas d'água ecoando ao longe. Aos poucos, as rochas cruas deram lugar a paredes de tijolos, marcadas por hieróglifos Unown e murais antigos. Estavam de volta às Ruínas de Alph. Tenma já odiava estar de volta, ele só lembrava daquele explorador meia-boca galariano. Só de pensar em Benjamin Brandon ele sentiu o sangue ferver. Falando em ferver, para um lugar no subterrâneo, ali parecia muito quente. Quente como um prolongado dia de verão, ele e Lyra se entreolharam e viram Dunsparce erguer do chão e se esticar àquele calor igual Meowth que preguiçosamente bocejou um miado. — Por que aqui está calor? — indagou Lyra tão confusa quanto Tenma. — Parece que o calor vem dali — ele apontou mais para frente para um par de portas que parecia evidencialmente escancaradas. Os dois foram em direção às portas. A sala do lado de dentro era ampla, grande o suficiente para estacionar uma frota de caminhões cegonheiros. Colunas altas e estátuas decoravam a sala, mas o que mais chamou a atenção dos dois foi o sol artificial acima brilhando e um Pokémon dinossaurinho cinzento que parecia se aquecer nas pedras do chão. Tenma já tinha visto aquele Pokémon antes nas ruínas acima com um daqueles gêmeos loiros, se aquele Pokémon estava ali então significava que seu treinador também estavam por ali. — É o Cranidos do Orion — disse Lyra, observando o pequeno Pokémon cretáceo que parecia reconhecê-la com um grunhido curioso. Tenma também notou algo: penduradas em bustos de estátuas estavam peças de roupas. Blusas, calças, meias, pares de sapatos espalhados pelo chão. Todas ainda quentes, com aquele toque seco típico de roupas recém-retiradas do varal ao sol. Lyra se aproximou de uma das estátuas e reconheceu, de imediato, uma jaqueta letterman. — É a jaqueta do Pierce! — exclamou. — E a camisa dele também. Eu reconheceria essa estampa de fóssil em qualquer lugar! — E essa jaqueta roxa aqui é do Aleks, com certeza — disse Tenma, lembrando-se do garoto loiro que haviam conhecido mais cedo. — Mas por que as roupas deles e o Cranidos estão aqui? Ele mal terminou a frase. Um tremor sacudiu o chão debaixo de seus pés. Dos olhos entalhados nos hieróglifos da parede, uma luz vermelha intensa brilhou como faróis ancestrais despertando de um sono profundo. Um grito ecoou de algum lugar da câmara, seguido de passos apressados contra a pedra. De repente, os hieróglifos começaram a se soltar das paredes. E então eles viram: pequenos seres ciclópicos, de corpo escuro como tinta de nanquim e um único olho luminoso. Flutuavam como fragmentos de uma língua esquecida, deslizando no ar com movimentos erráticos e desconcertantes. Num instante, a câmara estava tomada por eles, como um enxame, voavam em círculos, desordenados, preenchendo o ar com uma tensão muda que poderia ser cortada por uma faca de pão. Lyra e Tenma recuaram, instintivamente. Meowth pulou de seus ombros e caiu em posição de ataque. Dunsparce emergiu do chão, firme. Croconaw rosnava com os dentes à mostra. O Vulpix de Tenma avançou, com chamas se formando nos cantos da boca. Até o Cranidos, ao reconhecer o perigo, baixou a cabeça e arranhou o chão com as patas, pronto para uma investida. — Que coisas são essas?! — perguntou Lyra, olhos arregalados, observando os Pokémon flutuantes que, embora cercassem o grupo, não os atacavam. Antes que Tenma pudesse responder, mais passos ecoaram pela câmara. Rápidos. Desesperados. Três figuras surgiram: Aleks, Pierce e Orion, correndo em direção a eles, e apenas de roupas de baixo. Tenma arregalou os olhos e imediatamente puxou Lyra para perto, cobrindo-lhe os olhos com a mão. — Mas que...?! — ele murmurou, perplexo. — Lyra! Kousei! O que estão fazendo aqui?! — gritou Pierce, vindo direto em sua direção. Atrás deles, um enxame ainda maior de Pokémon os seguia, como uma sombra viva. — P-Pierce...? — murmurou Lyra, antes de ter os olhos tapados de vez. — Ei! Se vistam logo, pô! — exclamou Tenma, mantendo Lyra virada contra o próprio peito, visivelmente constrangido. — Por que vocês estão assim?! — É uma longa história... — começou Aleks, ofegante, pegando a camisa e a jaqueta e vestindo-se às pressas, imitado pelos outros dois. — A gente caiu num rio subterrâneo. Eu me afoguei e quase morri. Quase morremos congelados. Então tiramos a roupa pra secar. Foi isso. — E esses bichos aí? — perguntou Tenma, ainda sem baixar a guarda. — Acho que são Unown — disse Orion, subindo a bermuda e passando a camiseta pela cabeça. — Pelo que li em um dos livros da tia Ossie, eles são... inofensivos. Mais ou menos. Eles não parecem querer nos atacar... mas eu não apostaria meus cem ienes nisso. — De onde eles vieram? — perguntou Lyra, afastando a mão de Tenma dos olhos e olhando em volta, atônita com os Pokémon voadores, agora apenas orbitando como se em transe. Pierce levantou a mão, hesitante. — A culpa é minha... Acho que ativei alguma coisa. — disse baixinho. — Toquei numa inscrição e... bom... os hieróglifos começaram a brilhar. Aí... isso aconteceu. — Eu te disse para não tocar em nada! — exclamou Órion. — Mas foi o loiro ali que pegou um daqueles cristais! — grita Pierce na defensiva apontando para Aleks. — Ei, foda-se quem fez o quê, a gente tem que sair daqui logo! — grita Tenma, sua voz ecoando pela câmara. — Ele está certo — acrescenta Lyra observando aquele enxame de Unown girar ao redor ao teto em torno de si mesmos como os braços de uma galáxia, seus olhos brilhando de maneira estroboscópica. — Temos que encontrar os outros e sair daqui. O quão mais rápido possível. Aqueles Pokémon estão começando a me dar medo. Tenma também estava com medo, ele não queria admitir, mas o sentia. E como se os Unown tivessem lido seus pensamentos, a luz que emanava de seus olhos intensificou-se até parecer sólida, como laser pulsante. Um zumbido grave preencheu o ar, e então, tudo tremeu. Tubos de cristal alinhados nas prateleiras começaram a cair um por um. No impacto com o chão, os cristais liquefaziam-se por um instante apenas para se solidificar novamente em formas erráticas e distorcidas, como ondas de vidro crescendo para todos os lados. Era como se a própria realidade estivesse sendo devorada e remodelada por algo impossível de entender. — Corram! — berrou Pierce, puxando Aleks pelo braço. Sem esperar mais, Lyra, Tenma e Órion recolheram seus Pokémon. Meowth e Vulpix foram engolidos pelas Pokébolas em lampejos de luz. Dunsparce mergulhou no solo, mas logo foi chamada de volta. Croconaw soltou um último rosnado antes de desaparecer também. Cranidos foi o último a retornar ao seu treinador, relutante, os olhos ainda fixos no caos ao redor. A onda cristalina se alastrava pela câmara, engolindo colunas, escadarias e paredes como se estivesse cobrindo-as com um pano de rocha cristalina, não era mais como... como se estivesse reescrevendo o mundo à sua volta. O chão que haviam pisado segundos antes não existia mais, só havia brilho vítreo, ondas de gelo furta-cor que subiam e engoliam as escadas enquanto eles corriam. Os cinco adolescentes corriam como podiam, mas a maré quântica os alcançava. Os Unown giravam em redemoinhos insanos, como partículas de uma explosão congelada no tempo. A câmara tornava-se um palácio de vidro iridescente, com estalagmites de cristal se formando em tempo real diante de seus olhos atônitos. A fuga era inútil. Num instante final de silêncio absoluto, a realidade quebrou. Não. Ela se refez. Não estavam mais em uma câmara subterrânea. Estavam... em um corredor. Armários metálicos, vermelhos e pretos, se alinhavam de ambos os lados. O piso era de granito branco manchado, gasto por anos de sapatos escolares. Luz fluorescente piscava acima. O cheiro de cera recém-passada invadia as narinas de Tenma com aquele cheiro característico de capim-limão. Cochichos preenchiam o corredor com fofocas e burburinhos adolescentes. Era um corredor escolar qualquer. Talvez diferente dos da Academia Fairbairn em Galar, onde Tenma havia estudado nos últimos anos, mas... todo corredor de escola no fim era parecido. — Mas nem fudendo... — murmurou Pierce, interrompendo o raciocínio de Tenma, os olhos arregalados. — Isso é… — É a Kawazuzakura Junior High... — completou Aleks, pasmo. — A gente voltou pra Cherrygrove. — Não, a gente voltou pro fundamental, Loiro Falso — corrigiu Pierce, cerrando os punhos. — Ou ao menos… — o garoto engoliu em seco. — Uma memória de quando estávamos no segundo fundamental. Merda. Merda. Merda. Masako Subterrâneo das Ruínas de Alph, Johto Eles não estavam mais vagando pelos túneis sob as ruínas. Parecia que eles estavam caminhado por uma eternidade, desviando-se por entre estalagmites irregulares na penumbra. Mas em algum momento, sem nenhum aviso ou transição, os três se encontraram em outro lugar. A caverna em que entraram não era mais feita de pedra e sombra, mas de algo muito mais estranho. As paredes, o chão e o teto brilhavam com cristais vítreos, como uma catedral de luz congelada. Parecia gelo, mas não havia frio: nenhum vapor saía da respiração, nenhum arrepio na pele. Apenas silêncio, e a inquietante quietude de um lugar suspenso fora do tempo. Era como se o mundo tivesse sido mergulhado em âmbar derretido e deixado ali para endurecer. Acima deles, flutuavam criaturas — dezenas, talvez centenas — com corpos escuros e indefinidos, como gotas amorfas de nanquim flutuando no vácuo a esmo. Cada uma possuía um único olho, fixo e inexpressivo, que brilhava com uma luz estranha. Elas pairavam no ar sem esforço, circulando lentamente, em silêncio. Eles giravam em torno de si mesmos e ao redor dos cristais que pareciam liquefazer apenas para solidificar-se em seguida. — O que são aquelas coisas? — sussurrou Masako, olhando para o alto. — Nunca vi esses Pokémon antes… — São Unown — respondeu Silver em voz baixa, tensa. — Não são fortes nem nada. A maioria dos treinadores ignora eles. Tipo, ninguém captura eles e quando capturam eles abandonam logo depois. — Por quê? — perguntou ela. — Eles só sabem um movimento: Hidden Power — disse ele, sem tirar os olhos dos Unown. — E geralmente não atacam. Não por conta própria. Sem falar que boa parte das pessoas que os captura arrepende depois por que eles são muito fracos. Pelo menos, é o que eu li em uma revista. — Acho que já li algo sobre eles — murmurou Kessil. — Tinha uma página num dos livros velhos da tia Ossie. Dizia que eles estão ligados a línguas perdidas, alfabetos antigos de civilizações que sumiram há muito tempo tipo essa aqui. Eu e meu irmão nunca demos muita bola. Fósseis são mais legais que ruínas encarquilhadas. Ela se calou, e por um longo instante ninguém disse nada. Os Unown continuaram seu lento e ameaçador giro, como os anéis de um planeta alienígena ou os braços de uma galáxia. Chegava a ser assustador aquilo. — Melhor continuarmos andando — disse Silver. — Não quero ficar perto desses troços. — Muito menos eu, eles me dão um nervoso — diz Kessil tremelicando. Masako também iria falar algo a respeito dos Unown que encaravam-na, mas antes que pudesse abrir a boca qualquer sinapse que seu cérebro podia formar fora interrompida por um eco de uma voz feminina. — Ei Princesinha Cetoddle… — a voz era aguda, carregada por um sotaque galariano cheio de deboche e derrisão. Ela sentiu as pernas congelaram. Sua memória muscular agiu por instinto fazendo ela recuar e se encolher, fechando os olhos. Ela reconhecia aquela voz. Reconhecia o coro de vozes que seguia esta como zangões obedecendo uma rainha. Todos os cristais da sala assim como os Unown começaram a se revolver como água de uma máquina de lavar. Todo o cenário furta-cor começou a mudar de forma e quando Masako menos esperava o chão de cristal começou a dar espaço a um chão de granito escuro e ao cheiro de alfazema e capim-limão da cera. Nas paredes da câmara, armários de metal se projetaram. Ela não estava mais em uma estranha caverna de cristal, mas na Academia Fairbairn em Wyndon. O som de sapatos batendo contra o piso, mas a ausência de pessoas era desconcertante. Ela ergueu o pescoço, mas não via ninguém, mas mesmo assim a sensação de calafrio percorrendo sua espinha não a abandonava. — O qu… o que aconteceu? — Kessil pareceu confuso olhando os arredores. — Não estávamos em uma caverna de cristal? Por quê estamos no corredor de uma escola? Nossa, não é nada parecido com a Goldenrod Tech. — Eu não piso em uma escola assim faz anos. — diz Silver. — A última escola onde estive era um internato só para meninos. Nem tenho mais memórias de lá. — Estamos onde eu estudava… — Masako diz em voz baixa, quase inaudível. — Academia Fairbairn… Mas como… Silver olhou os arredores como se buscasse por respostas claras e depois voltou seu olhar para Kessil que claramente parecia entender mais. — Esse lugar deve estar mexendo com nossas cabeças. Ou os… Não… Você sabe se os Unown são capazes de fazer algo assim? De usar as nossas memórias? — Olha, é como eu disse — começa Kessil. — Eu e o meu irmão Órion somos aficionados por fósseis. A tia Ossie tinha alguns livros sobre as escavações do sítio arqueológico das Ruínas de Alph, mas parecia baboseira, a gente nunca leu aquilo muito a sério. Para mim os Unown eram só uns bichos inofensivos e fracos. — Não importa, va-va-vamos sair daqui — Masako gaguejou se segurando na jaqueta de Silver. — Você não vai a lugar nenhum Cetoddle — disse a voz, dessa vez os garotos pareciam poder ouvi-la. — A Princesinha Cetoddle deixou Galar, mas ela nunca vai conseguir escapar. Não importa onde estiver. Eu estarei lá. — Quem está aí? — grita Silver. — Vamos sair daqui logo, por favor — implora Masako puxando Silver pelo braço, lágrimas começavam a se formar no canto dos seus olhos. — Vamos. Por favor! O garoto de cabelos ruivos olhou para Masako e, por uns instantes, ele cedeu. Os dois, juntos com Kessil, saíram dali dos corredores e correram. Masako não queria estar de volta à Academia Fairbairn. Ela não queria relembrar aqueles dias horríveis em Galar, mas ao mesmo tempo… aquele lugar a obrigava a reminiscir das pessoas terríveis que haviam feito da vida dela um inferno. — Princesinha não adianta fugir — a voz continuou a atazanar. — Uma Cetoddle como você não tem como escapar. É em vão. Seu irmãozinho não está aqui para te proteger. Passos continuaram a ecoar vindo junto com a voz. Um coro de gargalhadas vinha atrás deles, mas… mas não tinha ninguém atrás deles. Silver nem Kessil disseram nada, apenas seguiram Masako enquanto ela corria pelos corredores da Academia Fairbairn. E os passos os seguiam, junto de uma risada zombeteira que ecoava pelo corredor. Vigiando de cima, dava para ver os olhos dos Unown nos cantos, mesmo que por um mero instante. Era enervante aqueles olhos enxergando-a por trás do cenário que tinham arquitetado. Em meio a multidão de Pokémon, Masako conseguia ver um que lembrava a inicial da pessoa dona da voz que ecoava pelos corredores. Uma letra G oblonga que assim que ela viu logo sumiu. Os três adolescentes correram até o que parecia ser um armarinho de produtos de limpeza no fim do corredor, fugindo da voz incorpórea que se aproximava: cada vez mais próxima, cada vez mais real. Se seu coração não estivesse quase saltando pela boca, Masako talvez dissesse que estava vivendo, a cores e ao vivo, uma cena saída direto de um daqueles filmes de high school unovanos. O tipo bem estereotipado, em que a garota má persegue a protagonista pelos corredores para atormentá-la. Exceto que… Exceto que, nesses filmes, a protagonista era sempre bonita. Sempre magra. A garota "esquisita" era, na verdade, perfeitamente palatável: usava óculos ou se vestia de forma tímida, mas nunca era realmente alvo de bullying. Não de verdade. Não como Masako. Masako era baixinha. Era gorda. E era uma estrangeira em Galar, uma garota de Johto num lugar que nunca a aceitaria. As pessoas eram cruéis com garotas como ela. Ela não era a mocinha dos filmes. Nunca seria. Era o alívio cômico. A figurante desajeitada. O tipo de menina que nunca ficaria com o interesse romântico bonitinho. Aquela que, mesmo tentando se encaixar, parecia sempre um erro no cenário. E por mais que tentasse, sua presença soava como um incômodo para todos ao redor. Na Academia, se não fosse por Tenma... talvez tivessem feito muito pior com ela. E ela sabia disso. — Ei, Princesinha Cetoddle... onde está você? — ecoou a voz feminina, debochada, cortando o silêncio. — Aparece, princesinha. Não tem pra onde fugir. Masako reconheceria aquele timbre em qualquer lugar: Gabriella Lancaster. Gabriella era uma das garotas mais populares da Fairbairn. Herdeira de um império industrial galariano, seu pai era dono da Lancaster Motors, uma das maiores fábricas de veículos conhecidas no mundo todo. A família de Masako tinha doze ou mais modelos Lancaster só na residência de verão em Olivine. Carros sedan e esporte. Limousines. Carros-forte. Impossível não ter um quando se era alguém do estirpe dela. Gabriella era a principal tormenta de Masako desde que ela pisara na academia. Ela era a Vespiquen rainha daquele lugar. Nem mesmo o reitor escapava de sua influência, já que sua família financiava parte da escola, tinha ligações com o parlamento galariano e com a Liga Pokémon. A Fairbairn era o playground dela. E Masako? Um dos brinquedos favoritos. Gabriella nunca se importou com o fato de Masako ser sobrinha-neta do imperador de Johto. Ou de ser, como qualquer outra, uma aluna daquele colégio de elite em Wyndon. Nada disso importava. Ela só precisava encontrar Masako sozinha, e, com seu enxame de zangões, sua turminha de amigas inseparáveis, sempre encontrava um jeito de incomodar. De ferir. De fazer Masako se esconder. Igual agora. Aos olhos de Gabriella, Masako não era uma princesa. Era uma aberração. E por isso, sempre seria seu alvo. — O que está acontecendo, Tomoki? — perguntou Silver, segurando o braço dela. Ele a encarava nos olhos, preocupado. Masako tremia como se tivesse acabado de sair de uma nevasca. — Do que a gente está correndo? — Eu também não entendi — disse Kessil, franzindo a testa. — Foi só essa voz começar que você quis correr. Esse lugar… é onde você estudou, né? Essa voz é da sua bully? Ela não respondeu. Ficou emudecida. Qualquer resposta que pudesse dar veio com o som de batidas pesadas na porta. Gabriella estava ali e ao mesmo tempo ela não estava, mas ela chutava na porta. O seu tom de derrisão. As risadas de suas lacaias/amigas. — Vai Princesa Cetoddle, abre essa porta, vai — dizia Gabriella. — Não vamos dificultar as coisas, não é? Me deixe entrar e tudo vai ser rápido. Vai abre essa porta, Filhota de Snorlax. As amigas interesseiras de Gabriella riram. Os chutes aumentaram, a madeira parecia ceder aos golpes. — Isso não é real, Tomoki — diz Silver, ainda segurando o seu braço. — Ela não vai vir para ferir você. Nada disso é real. A gente ainda está nas ruínas. Ela não respondeu. As lágrimas escorriam pelo canto dos olhos, seus lábios tremiam enquanto ela tentava assimilar que aquilo ali fora era falso. Uma ilusão. Mas ao mesmo tempo tudo aquilo era tão palpável. — Os Unown devem estar fazendo tudo isso — supôs Kessil, dizendo a coisa mais óbvia possível. — Talvez eles nos detectaram como ameaça e, não sei, usaram as nossas memórias para criar um cenário falso. Isso é assustador, mas não é real. — Vai, Chupeta de Wailord, você tem até o três para abrir essa merda de porta — grita Gabriella, sua voz soando mais real o possível. — Abre logo, sua olhos-puxados de merda. Se não abrir, eu vou aí e você tá fodida comigo. Seu irmão não está aqui para te proteger, Princesinha Cetoddle. — Ela não pode te fazer mal, Tomoki — Silver disse se levantando e indo até a porta. — E se ela vier te fazer mal, bem, eu sei como acabar com a vida dessa garota em dois segundos se precisar. Ele estalou as juntas das mãos. — E eu posso ajudar, embora eu não bateria em uma garota — disse Kessil coçando a nuca. — E precisa bater? — Silver ergue a sobrancelha para o garoto. Masako secou as lágrimas e deu um breve sorriso. Silver foi até a porta e virou a maçaneta. Kessil vinha logo atrás as mãos em posição de luta. Os meninos estavam dispostos a proteger ela, mesmo a ameaça de Gabriella sendo uma ilusão projetada pelos Unown, mas isso não fez o medo sumir de imediato, só piorou tudo. Assim que o garoto ruivo virou a maçaneta todo o chão tremeu ao redor, assim como as paredes. O armário desapareceu em um piscar de olhos. Os produtos de limpeza, as prateleiras, os rodos e esfregões encostados, os baldes e vassouras. Tudo sumiu. Evaporado como se nunca tivesse estado ali. Em seu lugar, erguiam-se fileiras em semicírculo de mesas envernizadas, dispostas em degraus suaves que desciam até um tablado polido, como um palco. As cadeiras estavam ocupadas por figuras vestindo blazers pretos, alunos, supostamente, mas nenhum deles tinha rosto. Eram borrões ambulantes, distorções do que um dia talvez tenham sido pessoas. Noppera-bo. Fantasmas sem-face. As janelas, altas e imponentes, projetavam uma luz branca, gélida. Do outro lado, apenas brancura: um vazio estático, como se o mundo externo ainda não tivesse sido desenhado. Como se tudo ali fosse uma lembrança inacabada esperando ser preenchida. O ar tinha cheiro de alfazema e capim-limão. A madeira reluzia, mas havia algo de falso naquele brilho. Cenográfico demais. Como se tudo fosse parte de um teatro montado às pressas, apenas para aquela cena. Na lousa digital, uma frase incompleta tremeluzia, alternando entre caracteres galarianos, johtonianos e símbolos de Unown. Era como se a própria linguagem estivesse falhando, bagunçada pela interferência da memória ou dos próprios Unown. As paredes, de um bege-clínico e sem personalidade, pareciam mais altas do que Masako se lembrava. Ou talvez ela estivesse menor naquela lembrança. Distorcida. Em algum lugar, um relógio marcava três da tarde. Os ponteiros estavam parados. Como se o tempo ali tivesse congelado. E havia um silêncio. Foi então que ela apareceu. No fundo da sala, emergindo como se tivesse sempre estado ali, estava Gabriella. Seus cabelos cor de cobre recaiam sobre os ombros com um brilho quase incendiário, contrastando com o laço rosa brega que, de tão delicado, parecia uma zombaria pendurada sobre sua cabeça. Os olhos verdes de Gabriella perfuravam Masako como lâminas afiadas: frios, cortantes, venenosamente ácidos, um olhar ascórbico que parecia dissolver cada pedaço de coragem da menina. O blazer preto estava impecável, a saia vermelha alinhada, mas o conjunto carregava uma aura de autoridade implacável. Braços cruzados, pulseiras reluzentes tilintando sutilmente, dedos engalanados em anéis dourados e prateados, e as longas unhas pintadas do mais venenoso roxo. Gabriella Lancaster parecia o retrato da mesquinhez. E do poder que um dia exerceu sobre Masako. O corpo da menina estremeceu. Cada passo de Gabriella contra o assoalho ecoava como marteladas em seu peito, reverberando lembranças profundas e dolorosas. Ela se lembrou da noite em que foi trancada num armário de vassouras por Gabriella e suas amigas. Lembrou da solidão, do escuro, do cheiro de alvejante e da sensação de abandono até o zelador a encontrar na manhã seguinte. Lembrou do tom de deboche das garotas, rindo cínicas depois de empurrá-la numa pilha de esterco de Mudsdale após uma aula de equitação. Das montagens grotescas que circulavam nos corredores, com seu rosto colado em corpos de Snorlax, Cetoddle e Wailmer. Dos apelidos cruéis. Dos risos abafados no refeitório. Das vozes zombeteiras imitando seus olhos epicânticos, puxando as pálpebras com os dedos como se sua herança fosse uma piada. Masako sempre achou que o problema era ela. Tentou se apagar. Se esconder. Passou dias sem comer até desmaiar na enfermaria. Começou a se esconder dentro de roupas largas, evitando espelhos, odiando cada curva, cada volume, cada sinal de quem ela era. Ela já tinha chorado tantas vezes antes de dormir por conta disso. Ela olhou para si. Coxas grossas, quadril largo, busto cheio. Um corpo bonito e ainda assim carregado de insegurança. Ela deveria amá-lo. Mas Gabriella sempre soube fazer com que ela se sentisse como algo defeituoso. — Eu te disse, Princesinha Cetoddle, você não pode escapar de mim — disse Gabriella, veneno pingando em cada sílaba. — Seu irmão não está aqui pra te proteger. Ela se aproximou. As mãos erguidas com um gesto que simulava carinho, mas que era apenas mais um golpe disfarçado. Os dedos quase tocaram o rosto de Masako, quando uma rajada de ar congelante atravessou o espaço entre elas e congelou Gabriella no lugar. — O q-quê...? — Gabriella arfou, surpresa, os olhos arregalados enquanto o gelo subia por seus braços. — Eu disse que não precisava bater — Silver se adiantou, seu Sneasel empoleirado em seu ombro, observando com desprezo. — Tomoki, ela não é real. Essa garota não pode te fazer nada. — É só uma ilusão — acrescentou Kessil, ele tinha liberado seu Shieldon por precaução. — Não tem poder aqui. Eles estavam certos. Gabriella não era nada mais do que um fantasma de traumas antigos. Masako não era mais a garota que corria pelos corredores da Fairbairn, se escondendo atrás do irmão. Ela já havia enfrentado coisas piores. Escapado de criminosos. Lutado contra Pokémon selvagens. Sobrevivido onde muitos teriam caído. Ela tinha força. E Gabriella... era só o passado. O coração pulsava em seu peito como um tambor de guerra. Masako respirou fundo, esticou as mãos e empurrou a estátua de gelo com firmeza. Gabriella caiu do tablado como uma boneca de porcelana, se espatifando em mil pedaços no chão. O som foi como o de um espelho se partindo. — Eu não vou mais ter medo de você! — gritou Masako. Sua voz reverberou no salão ilusório, carregada de anos de dor e coragem reprimida. — Você não pode fazer nada. Você nem é real! A sala tremeu. O chão se partiu como gelo fino. As paredes estalaram. A ilusão que os Unown criaram ruiu como uma cortina sendo arrancada de um palco. As carteiras, a lousa digital, os alunos sem rosto. Tudo se desmanchou em partículas de luz e pó de cristal. E então, silêncio. As luzes se apagaram. O calor ilusório se dissipou. No lugar da sala de aula: pedra. Ar frio. Realidade. Os Unown se dispersaram pelos cantos, seus corpos cor de nanquim voando como letras soltas de um livro caindo no chão. Estavam de volta às ruínas de Alph. O salão amplo era feito de rocha antiga e musgo, iluminado apenas pela luz tênue das lanternas e do luar filtrado. Masako permaneceu parada, respirando ofegante. Sentia-se leve. Não porque o medo havia sumido, mas porque, pela primeira vez, ela o havia enfrentado de frente. — Você está bem? — Silver perguntou, se aproximando devagar. Ela assentiu. Um pequeno sorriso brotou em seus lábios. — Estou. Pela primeira vez em muito tempo... eu estou mesmo. Professor Spencer Hale Ruínas de Alph, Johto Era meio-dia e quase uma dúzia de adolescentes haviam sumido sem deixar rastros. Spencer Hale se sentia irresponsável por deixado todos aqueles jovens treinadores saírem livremente para explorar as ruínas e ainda mais ter deixado outro adolescente, seu estagiário, Khoury como responsável por tomar conta de um grupo tão grande como aquele. Além de Khoury, haviam os sobrinhos da Dra. Osmunda Wehrii: Orion e Kessil. Os netos de Mr. Pokémon: Pierce e Luca, e, claro, seus amigos. Haviam os quatro assistentes temporários do Dr. Brandon. E bem, também havia o próprio Dr. Brandon que, embora já estivesse em sua sexta década, também havia sumido para algures dentro das ruínas de Alph quando se separaram mais cedo tal qual os adolescentes. Não havia nenhum sinal deles e isso atormentava Spencer Hale que havia os deixado a Arceus-dará para explorar livremente aquela parte das ruínas que nem ele com seus anos de experiência havia explorado por inteiro. As ruínas sul eram ainda uma grande incógnita, já que eram os vestígios da primeira civilização Alph da qual havia se poucos registros. Damnatio memoriae. A destruição da memória. Os registros e textos da segunda civilização Alph não descreviam com exatidão o que havia acontecido com seus antecessores. Eles haviam soterrado todo o Vale das Vinte e Oito Mansões e reconstruído uma nova civilização por cima, apenas para apagar o legado deixado por seus antepassados. Seu último rei, Alphaeus, era apenas uma lenda. Ninguém sabia como ele havia morrido, apenas sabiam que seu corpo havia se tornado uma casca vazia em terras nevadas. Apenas um mito. Os Segundos Alph haviam cometido um memoricídio. Matado tudo que remetia ao governo anterior, mas hipocritamente, haviam preservado tudo sobre a terra, permitindo que tudo aquilo fosse achado milênios depois. Seu pai havia traduzido tabuletas com escritos Unown junto com sua mãe: tratados, contos e mitos, registros históricos. Havia uma vasta coleção de textos Alphs de gerações e mais gerações. Ele suspirou. Nenhum texto ou crônica dos Alph iria ajudar ele a localizar quase uma dúzia de pessoas perdidas naquelas ruínas. — Onde será que eles estão? — murmurou Spencer, encarando os degraus do templo principal no Vale das Vinte e Oito Mansões. — Já são quinze para a uma, e eles ainda não apareceram. O telefone do Khoury continua fora de área. — Não se preocupe, Spencer — disse Osmunda, pousando uma mão reconfortante sobre o ombro dele. — Meus sobrinhos se metem nesse tipo de encrenca o tempo todo nos sítios arqueológicos em que trabalho. Logo eles aparecem. O que me preocupa mesmo é o sumiço repentino do Dr. Benjamin Brandon. Para alguém tão empolgado com essas ruínas, ele desapareceu rápido demais, logo após chegar. Spencer assentiu lentamente. O arqueo-paleontólogo galariano havia sumido de forma tão abrupta durante a separação do grupo que era difícil imaginar que tivesse ido longe. Diferente dos adolescentes, Brandon não havia sequer deixado o templo central, ali na praça principal do vale. — De onde o conhece, Spencer? — perguntou Osmunda, olhando-o por trás das lentes espessas dos óculos. — Não sabia que você tinha conexões com a Universidade Real de Hammerlocke. Muito menos que mantinha laços com Galar. — Eu não o conheço, é isso que é estranho, Ossie — respondeu Spencer Hale. — Tenho conhecidos em Galar, claro. Sempre admirei o trabalho da universidade. Mas Benjamin Brandon? Só li um ou dois artigos dele. A única razão pela qual ele apareceu foi porque meu assistente enviou um e-mail para alguns contatos galarianos sobre os achados nas ruínas do sul. Queria compartilhar nossas descobertas. Mostrar que há coisa séria acontecendo aqui. — Bah! — exclamou Osmunda, torcendo o rosto com desdém. — E para quê? Para chamar a atenção do Galarian Museum? Aquelas pessoas só sabem tomar as culturas dos outros e exibir como se fossem deles. Só não levam estas ruínas porque não cabem na mala! E nem me fale das “descobertas” deles sobre fósseis… aquilo, como paleontóloga, me ofende profundamente! Spencer riu, um riso curto e cansado, mas sincero. — É, eu vi algumas coisas em uma revista, mas eu não entendo muita coisa de restauração fóssil — ele disse. — Mudando de assunto. Você acha que devo me preocupar com os garotos? Tipo… Eles são adolescentes. São treinadores. Mas eu sou pai, sabe? Se fosse a Molly ali eu… — Se acalme, Spencer — a paleontóloga pôs uma mão em seu ombro. — Dê a eles mais meia hora, se não voltarem, nós procuraremos. Okay? O arqueólogo assentiu. Talvez ele pudesse se acalmar por alguns instantes, respirar com mais tranquilidade. Eles estavam explorando. Logo voltariam. O que de mal poderia acontecer com eles?
















