Luca
Sinjoh
Segunda-feira, 16 de maio, ano 30 (Era Tōitsu)
— Nos reencontramos, filho da floresta.
Luca ficou emudecido ao ver a criatura a frente dele, erguendo-se em meio a algidez da neve que os cercava. Ele abraçou, por impulso, a encubadora e viu o Pokémon branco caminhar até ele com tanta leveza que a neve não afundava sob suas patas.
O pelo era alvo tal qual a neve ao redor deles. O rosto de um azul escuro visível que o fazia se distinguir da cor da paisagem que os cercava. Um chifre curvo como um arco despontava da lateral de sua cabeça. A criatura encarava Luca com olhos inteligentes demais para um Pokémon comum.
— Q-q-quem é você? — ele gaguejou, com um pouco de medo.
A criatura ergueu o pescoço e fixou seus olhos cor de carmim no menino que não pôde evitar tremer, mas ele não sabia se era de frio ou de medo.
— Os homens chamam os meus de Absol — ele disse, embora quando abrisse a boca só um som gutural saíra, mas a mente de Luca automaticamente traduzir aquilo. — Mas nomes são uma coisa que só vocês humanos se importam. Vivi muito tempo. Tive muitos nomes. Me chame de Kutabe se assim preferir, foi um dos últimos nomes que recebi.
— C-certo, Sr. Kutabe — ele engoliu em seco. — C-como você me conhece?
— Uma vez eu te salvei quando era um bebê — disse o felino alvo. — Eu posso prever desastres. É um poder de minha espécie, embora os seus pensem que somos nós trazemos os desastres. E eu também previ que precisava salvá-lo e assim fiz e cá estamos nós de novo, reencontrando.
Luca engoliu em seco.
— Meu Future Sight previu que nós nos encontraríamos de novo aqui— continuou Kutabe. — Eu o deixei aos cuidados dos humanos eras atrás e me afastei. Pensei que o fio do destino que nos ligasse tivesse sido partido quando me fui, mas parece que foi inevitável, estou ligado a você. Como você se chama, Filho da Floresta? Que nome os humanos te deram?
— L-Luca… — ele disse. — Luca Bennett Culpepper.
— Um nome muito longo — ele comentou. — Chamarei-o de Luca. Um diminutivo para Lucario. Que hilário, veste-se até como um, Filho da Floresta.
Luca engoliu em seco. Era verdade, ele usava aquele moletom azul e o boné que remetiam ao Pokémon lupino sinnohense, o que ele poderia fazer se era um dos seus favoritos? Além de que, quando ele ainda era um garoto de rua os meninos mais velhos do lar de caridade o chamavam de Lucario por conta da correntinha que sempre carregava consigo desde que tinha sido encontrado.
A correntinha… Céus, ele se lembrava dos rumores das tias do lar de caridade de que haviam encontrado ele em um beco sendo cuidado por um Pokémon e que o único pertence que ele tinha era aquela correntinha. Ele sempre achou que o Pokémon era um Houndoom ou algo parecido, mas encarando Kutabe, tudo fazia sentido agora. Ele tinha que perguntar e sanar as dúvidas.
Ele tocou a correntinha no pescoço e puxou-a, mostrando para Kutabe e perguntou:
— Você disse que me conhece — ele começou. — Me chama de Filho da Floresta e tudo mais. Sabe de onde é isso? Quem era a minha família?
O Pokémon felino olhou para o pingente de madeira em formato de Lucario e depois olhou para o menino.
— Não — respondeu, ríspido e breve. — Eu apenas salvei um bebê de uma choupana em chamas. Eu não sei quem são seus pais nem quem você é. Apenas previ que teria que viver mais um dia. Os humanos não me interessa, mas você…
— Mas eu…?
— Esquece — ele o cortou. — Há uma nevasca vindo. Precisa encontrar abrigo ou você e este ovo vão acabar congelando. Venha comigo.
O ovo. Verdade. Ele precisava protegê-lo. Durante a batalha na câmara mortuária nas Ruínas de Alph aquele patife do Brandon o chutara e fizera Luca ir em direção da encubadora que agora apresentava mais rachaduras que antes. Todos os mecanismos que mostravam a temperatura, o acrílico e tudo tinha avarias e parecia que o ar frio estava adentrando o interior do objeto.
Ele quebrou o restante da encubadora e colocou o ovo, em segurança, dentro do seu moletom e abraçou-o, aquecendo. Absol que o via aguardou e começou a andar sem afundar a neve abaixo de suas patas.
— Suba nas minhas costas, Luca — ofereceu o Pokémon esfinge com calma calculada. — Será mais rápido se eu levá-lo até a cidade em ruínas. Lá, você poderá se aquecer.
Luca hesitou por um instante, mas o frio assobiou e o fez subir nas costas do felino. Assim que se agarrou nos pelos de Kutabe tudo ao redor se tornou um borrão, era como se ele estivesse enxergando pelos olhos de uma pessoa míope, a paisagem nevada tinha desaparecido conforme o Absol caminhava sobre a neve como se seu grande corpo não tivesse peso.
Observando a vastidão branca das montanhas ele conseguia, em meio a tudo aquilo, as cordilheiras de montanhas despontando como uma espinha dorsal de um gigante pelo solo, florestas de coníferas iam até a onde a vista alcançava. Os campos de neve pareciam desertos, nenhum Pokémon à vista.
Eles passaram por uma garganta dividia em dois penhascos a paisagem e um rio cheio de corredeiras clivava logo abaixo, Absol em um salto só, atravessou a garganta, o que deixou o menino absurdado com a proeza da esfinge.
A travessia continuou por mais alguns quilômetros. Eles tinham atravessado o que parecia a distância entre New Bark a Violet em instantes, na sua cabeça não fazia nem dez minutos. Absol começou a desacelerar assim que chegaram próximo a uma ravina de onde era possível ver os muros caiados do que devia ser uma cidade. Uma cidade abandonada.
A cidade construída em pedra era assustadora. Ela estava completamente deserta, coberta por neve e gelo, as casas caídas e as ruas vazias. Quatro torres despontavam nos cantos cardeais, mas caídas, uma delas estava tombada. Será que aquela era Sinjoh, o lugar o qual Brandon tanto procurava?
Absol pisou com cuidado entre os escombros gelados, conduzindo Luca até uma das casas que, surpreendentemente, parecia mais íntegra do que as demais. Era uma residência simples, feita de pedra e madeira escura, mas resistindo ao desgaste dos anos e às intempéries. A porta havia desaparecido há muito tempo, deixando a entrada aberta ao vento frio. Luca desmontou do felino, sentindo cada músculo ainda rígido pelo frio e pela tensão da travessia. Seus dedos estavam dormentes, o corpo latejando de cansaço, mas a segurança do abrigo temporário trazia um alívio imediato.
Ao entrar, o ar estava mais frio do que esperava, cortante e pesado com o cheiro de madeira molhada e neve derretida. A estrutura de pedra oferecia algum abrigo contra o vento que ainda assobiava do lado de fora. A nevasca havia começado lá fora com o vento uivando.
Dentro, a lareira central permanecia apagada, ela não havia sido usada há milênios, e o mobiliário estava coberto de poeira e neve derretida, os utensílios marcados pelos anos de abandono. Cada sombra nas paredes parecia contar histórias de moradores há muito desaparecidos.
Luca se dirigiu até o que restava de uma cama e sentou-se cuidadosamente, abraçando o ovo contra o peito. Vapor branco escapou de sua boca. O ovo tremeu levemente, irradiando um calor reconfortante contra o tecido da camisa e do moletom. Era um calor que acalmava, uma sensação quase materna que contrastava com a neve e o frio lá fora. Ele fechou os olhos por um instante, sentindo a vida pulsar de dentro do ovo, o vínculo silencioso que já os ligava.
Absol entrou no local e se acomodou ao lado do menino, os olhos vermelhos brilhando na penumbra, fixos nele e no ovo. O silêncio entre eles era pesado, mas não desconfortável
— Geralmente vocês humanos já têm um Pokémon consigo — disse a esfinge, sua voz grave reverberando na mente de Luca. — Amam nos colocar naquelas esferas pequenas e nos transportar por aí como se fôssemos bibelôs. Por que tem um ovo? Que eu me lembre, vocês humanos não botam ovos e não costumam cuidar de um.
Luca engoliu em seco, sentindo o calor do ovo pulsar contra seu peito como se entendesse sua hesitação. Ele deu uma risada breve.
— Foi meu vô-drasto que me deu — respondeu, a voz baixa e hesitante. — Eu não recebi um Pokémon ou capturei um igual meu irmão e meus amigos. Ele achou que um ovo seria melhor. De acordo com ele, é de uma espécie rara e… bem, eu acabei me acostumando com esse carinha.
O olhar de Absol fixou-se no ovo, estudando-o com atenção silenciosa, e Luca sentiu que, de algum modo, o Pokémon compreendia a importância daquele pequeno ser. Um vento frio ainda soprava lá fora, mas ali dentro, entre o menino, o ovo e o felino gigante, havia uma sensação tênue de proteção, uma trégua contra o mundo implacável que os esperava fora daquela casa de pedra.
— O que é um avô-drasto? — perguntou o felino. — Vocês humanos estão sempre inventando palavras.
— Ah, bem... é o avô do meu meio-irmão, filho da minha madrasta — explicou Luca. — Não muito depois que eu fui adotado meu pai se casou com essa mulher, a Christina, que já tinha um filho de um outro casamento e ela se tornou minha madrasta, eu a chamo de Mama, mas é por quê meu meio-irmão Pierce chama ela assim. O pai da minha madrasta é meu avô-drasto, entende?
— Vocês humanos e suas relações complexas.
— Você não tem família?
Absol ficou quieto.
— Minha espécie não forma laços. Depois que fui desmamado eu e meus irmãos de ninhada fomos deixados aos elementos. — disse a esfinge cruzando as patas dianteiras. — Absol não formam vínculos, somos solitários, não nos reproduzimos com frequência, vivemos muito tempo, sabe? Não há necessidade de criar laços ou ter filhotes quando se vive muito.
— E há quanto tempo você está vivo? — perguntou Luca, apertando o ovo contra o peito.
Os olhos vermelhos de Absol brilharam com algo indefinível, talvez irritação, talvez diversão. O felino esfinge ergueu a cabeça, e a sombra de seu chifre curvado se projetou na parede de pedra como a lâmina de uma guilhotina.
— Você faz perguntas demais para um pirralho tão pequeno! — retrucou, sua voz ressoando grave dentro da mente do garoto. — O que você acha que eu sou? Talvez eu devesse começar a devolver suas perguntas: o que você faz aqui, criança? Por que estava caindo do céu?
Luca abraçou os joelhos, tentando esconder o leve tremor de suas mãos, e encarou o Pokémon branco. Seus olhos estavam cansados, mas havia neles uma centelha de desafio.
— É uma longa história… envolve umas ruínas, um maluco com complexo de deus e uns Pokémon estranhos chamados Unown — respondeu, a voz quase em sussurro. — Meu amigo Ren lutou contra esse arqueólogo maluco dentro do túmulo de um rei múmia esquisito, e… acabamos vindo parar aqui. O chão desabou, os Unown nos puxaram e nós… caímos. E aqui estou eu. Nem sei onde é esse aqui.
Absol abaixou a cabeça, seus olhos carmesim queimando como brasas vivas na penumbra.
— Você está em Sinjoh. — A palavra soou pesada na mente de Luca, então ele de fato estava no lugar o qual Brandon estava procurando. — Ou no que um dia foi a Grande Cidade de Sinjoh. Agora, só resta o esqueleto desta cidade. Restamos apenas nós aqui… nós e as raposas rancorosas.
Luca piscou, confuso.
— Raposas rancorosas? Tipo um Vulpix com mau humor?
— Creio que vocês humanos chamam essas raposas de Zorua — disse Kutabe. — Você sabe o que é um Zorua, não sabe?
Luca assentiu rapidamente.
— Sim, é aquele Pokémon raposinha de Unova. Pelagem escura e tudo mais — disse em resposta. — Meu amigo Colin da escola acha que eles são bem mais legais que o Riolu, o que eu discordo totalmente. Tipo, você já viu um Riolu? Eles são bem mais fodas que um Zorua. Tipo, não tem comparação. Zoroark são só Lucario emos. Eu sei disso. Meu irmão é emo… Desculpa, continua o que você estava falando.
Absol soltou um som baixo, meio riso em desdém, meio rosnado.
— Engraçado pensar que você os compara aos Zorua de pelagem escura. Hah. — na mente de Luca era uma risada que soava, mas aos seus ouvidos ele ouviu um breve grunhido debochado. — Não, garoto. Estes são brancos como a neve que cai, e cheios de rancor e arrependimento. As pessoas que morreram nesta cidade arruinada renasceram como Zorua, fantasmas em pele de raposa, como aquelas que um dia vagaram pelas terras geladas de Hisui…
— Hisui… ah, você quer dizer Sinnoh! — exclamou Luca, animado. — Eu lembro disso da aula de história. Daquela em que eu não dormi…
O chifre de Absol se moveu de leve. Seu olhar fulminante poderia cortar pedra.
— Não me interrompa, pirralho! Ninguém lhe ensinou que é falta de educação falar por cima de seus mais velhos?
Luca apenas deu de ombros, impassível.
— Meh… Continua falando dos Zorua brancos, velhote.
— Você é uma peste, sabia?
— Estou acostumado com essa palavra. Vinda de você é um elogio, — ele mostrou a língua para o Pokémon esfinge jocosamente. — Meu irmão já me chamou de coisa pior. E isso por que dividimos um quarto por dois anos inteiros!
Absol semicerrava os olhos, prestes a protestar, quando o vento lá fora explodiu em um uivo cortante. A nevasca ganhava força a cada segundo, levantando flocos que giravam como lâminas de gelo, atravessando a porta aberta da casa abandonada. Entre os assobios gélidos, uma voz ecoou, fina e anasalada, um choro esganiçado chamando por uma mãe.
Luca saltou do lugar, os olhos arregalados, o coração disparado. Havia alguém lá fora além deles dois. Talvez fosse Khoury, o nerdola tinha cara de chorar feito criança mesmo com quinze anos. Se fosse ele, perdido na tempestade, Luca poderia ao menos resgatá-lo antes de reencontrar Ren e tentar sair dali.
— Tem alguém lá fora na neve! — gritou, a voz atravessando a sala vazia. — Eu acho que é… que é um amigo meu…
— Não escutou nada do que eu disse, pirralho?! — rugiu Kutabe na mente dele, grave e feroz. — Qual parte de “resta apenas nós e os Zorua lá fora” você não entendeu?
Mas Luca não se conteve. Curiosidade e medo o empurravam para a porta aberta, o frio cortando sua pele com rajadas agudas. Entre os flocos cegantes, uma pequena silhueta se movia, cambaleando, tropeçando na neve cortante.
Seus olhos encontraram um par de olhos amarelados como a lua de outono, brilhando em meio à tempestade. Fogos-fátuos azulados surgiam em torno da silhueta, projetando-se em formas distorcidas que lembravam garras ectoplasmáticas, alongando-se como se quisessem agarrá-lo. Ilusões, talvez, mas reais o suficiente para emanar uma aura de medo e rancor, e também de uma solidão profunda e dolorosa. Era como se quem estivesse criando as ilusões sequer estivesse tentando.
Luca recuou um passo. Não era… não era a voz de uma criança. Eram guinchos convincentes o suficiente para enganá-lo e atraí-lo para fora como numa… emboscada. Por Arceus, ele deveria ter ficado do lado de dentro com Kutabe.
Quando estava prestes a se virar, em meio aos fogos-fátuos azuis, vermelhos e magenta, uma silhueta maior surgiu. Era uma figura sinistra, bípede, com uma cabeleira de pelos brancos e vermelhos desgrenhada, como se a própria neve tivesse sido manchada de sangue em suas mechas. Seus olhos amarelos, brilhantes e quase sulfúreos, fixaram-se em Luca com uma fúria primitiva, como se pudessem enxergar não apenas seu corpo, mas também os medos escondidos profundamente dentro dele. Luca sentiu-se como uma presa, sendo saboreado pela fera apenas com o seu olhar maligno.
Seu corpo era magro, quase esquelético, mas cada músculo parecia enrijecido, pronto para saltar. Suas longas garras afiadas refletiam o frio cortante da nevasca. A criatura movia-se com um silêncio estranho, quase sobrenatural, cada passo calculado, estudando Luca antes de atacar, irradiando uma aura de rancor e ódio concentrados. O próprio ar ao redor parecia gelar ainda mais, como se a presença desse ser sugasse a vida da neve, transformando a tempestade em algo vivo e faminto.
O raposomem lambeu os lábios, arqueando as costas, com as patas traseiras dobradas como molas prontas para lançar-se. E, num instante, lançou-se em direção a Luca, movendo-se com a velocidade e precisão de um predador que já conhece cada movimento de sua presa antes mesmo que este seja feito.
Ren
Cabana de Cynthia, Vila Musuhi, Sinjoh
O interior da cabana de Cynthia era surpreendentemente aconchegante e espaçoso. A sala de estar tinha um grande sofá onde Ren havia se sentado para tomar sopa logo depois de ser acolhido pela Campeã de Sinnoh e sua assistente, Miri. Já Khoury havia sido levado para um dos quartos a fim de descansar junto com os Pokémon exaustos de Ren, recebendo cuidados de Miri e de um dos Pokémon parceiros de Cynthia, que usava Aromatherapy. Toda a cabana agora cheirava a rosas silvestres como as que cresciam no jardim de sua mãe.
A mobília era simples, mas cheia de personalidade: dois sofás, duas estantes abarrotadas de tomos pesados e bugigangas que apenas uma arqueóloga do calibre de Cynthia poderia realmente apreciar. Do outro lado do cômodo, um piano acústico repousava ao lado de uma escrivaninha cheia de papéis, e, no caminho para a cozinha, um tanque de água destoava do ar rústico, onde um Pokémon peixe nadava preguiçosamente.
Curioso, Ren se aproximou, apoiando os braços na borda do tanque enquanto estudava a criatura em seu interior. O peixe era estranho: seu corpo castanho-claro era salpicado de manchas irregulares, suas escamas estavam opacas e gastas, e seus olhos desproporcionalmente grandes afundavam na cabeça fina, dando-lhe um ar de tristeza eterna. A boca curvada para baixo parecia presa em um eterno desgosto, como se nunca tivesse conhecido alegria. Com uma cauda curta e nadadeiras frágeis, agitava-se desajeitadamente, como se até mesmo o ato de nadar fosse um esforço para permanecer vivo.
— Vejo que você conheceu o Feebas — disse uma voz suave atrás dele.
Ren se virou bruscamente, assustado. Cynthia estava parada no batente da cozinha, um leve sorriso em seus lábios.
— Desculpe, não quis assustá-lo — disse ela, com gentileza. — Como você está se sentindo? Depois do que me contou no almoço, imagino que deva estar muito preocupado com o seu amigo lá fora, nessa nevasca.
Os ombros de Ren cederam.
— Preocupado… e com raiva — admitiu. — Com raiva porque não consegui impedir aquele homem. Benjamin Brandon ainda está lá fora. Com raiva de mim mesmo por ser fraco demais, por não conseguir proteger ninguém. Com raiva porque eu e meus Pokémon… — sua voz falhou — …nós não conseguimos derrotar aquele lunático. E com raiva porque… porque eu nem sequer sei como voltar para casa.
Ele não queria chorar, mas as lágrimas já ardiam nos cantos dos olhos. O nó em sua garganta o sufocava, e Ren odiava aquela sensação de impotência. Luca ainda estava lá fora, perdido em meio ao gelo. O arqueólogo lunático também. Do lado de fora da cabana, a nevasca rugia como uma fera indomável, e o mundo de Sinjoh parecia todo hostil, pronto para devorá-lo. Ele queria estar de volta a Johto, onde tudo ainda fazia sentido.
Cynthia se aproximou em silêncio, seus passos suaves abafados pelo assoalho de madeira. Pousou uma mão firme sobre o ombro do garoto. O gesto era simples, mas irradiava segurança. Quando ele ergueu o rosto, encontrou nela um sorriso sereno, quase maternal. Com a outra mão, a campeã afastou as lágrimas de sua face e deslizou os dedos delicadamente por entre seus cabelos, como se quisesse lembrá-lo de que ainda havia calor e humanidade em meio àquele inverno implacável.
— Ren — disse ela, com voz baixa e calma, como quem fala a alguém febril. — Eu entendo o que você sente. A raiva. A impotência. Eu também já senti isso… mais vezes do que gostaria. Sou uma campeã, já enfrentei todo tipo de coisa. Sentir-se abatido e derrotado é algo que aprendi a enfrentar no caminho que tracei, sabe?
Ela se afastou um passo e gesticulou para o tanque de vidro, onde o tristonho Feebas nadava, raspando o limo e as algas das pedras no fundo do seu viveiro.
— Feebas são Pokémon que vivem em situações adversas, sabia? — disse ela, embora Ren permanecesse em silêncio. — Vivem desde os rios mais límpidos até águas completamente insalubres. E você, o que acha dele?
Ren enxugou os olhos com as costas da mão, ainda confuso.
— Eu… não sei. Ele parece tão fraco. Nem deveria sobreviver no frio daqui…
Cynthia deu um breve sorriso e olhou para o garoto.
— São Pokémon resilientes, sem predadores naturais. Ele é tido como um dos Pokémon mais feios do mundo; nem os pescadores os apreciam, já que a pele é dura e cascuda e a carne insossa demais para comer, não há tempero no mundo que faça a carne de um Feebas tragável. — Ela riu levemente. — O mundo o despreza, mas quando você percebe o valor dele, esse Pokémon desajeitado e feio nunca se deixa abater. Ele continua nadando. Não desiste. Por baixo de cada escama opaca, há uma escama colorida crescendo, pronta para brilhar.
Ren permaneceu em silêncio, o olhar fixo no peixe que agitava as nadadeiras pequenas demais para seu corpo.
— Você se sente fraco agora. — Cynthia pousou a mão de novo sobre o ombro dele. — Mas ser fraco não é o mesmo que ser derrotado. O que importa é o que você decide fazer com isso. Vai continuar nadando… ou vai deixar a correnteza levá-lo?
Ren pensou nas competições de natação da escola, nos treinos exaustivos que a mãe o obrigava a fazer no turvo rio Cherrygrove, nas vezes em que ele ultrapassava os próprios limites só para obedecer… e odiava a sensação da água empurrando-o. Mais ainda, odiava a mãe por querer moldá-lo como um atleta olímpico quando ele nem queria aquilo.
Mas a analogia de Cynthia era diferente. Ele não estava ali por imposição. Estava em Sinjoh por razões que iam além de si mesmo. Olhou para o peixe endurecido e pensou em como a vida daquele Pokémon devia ser dura na natureza. Então Ren sentiu uma centelha de determinação: podia ser fraco agora, mas poderia se fortalecer. Ele também precisava continuar nadando.
Ren piscou algumas vezes, deixando que o calor do momento e a sensação de propósito recém-descoberta se assentassem em seu peito. Ele ainda tremia, mas não de medo, mas de uma excitação contida, a adrenalina de saber que finalmente poderia agir.
Cynthia permaneceu em silêncio por alguns instantes, observando-o com seus olhos calmos e penetrantes, atentos a cada gesto e respiração do garoto.
— Não precisa me responder agora, okay? — disse ela, sua voz baixa e firme, mas acolhedora. — O que você decidir, e se for uma decisão bem ponderada, saiba que estarei ao seu lado.
Ela fez uma pausa, os dedos repousando brevemente sobre o ombro de Ren, um gesto simples que irradiava confiança e segurança.
— Agora, vou precisar que você venha comigo. Acho que há alguém que queira vê-lo.
Ren ergueu as sobrancelhas, surpreso.
— Alguém?
— Sim — respondeu Cynthia, esboçando um sorriso discreto, quase maternal. — Aproveitei enquanto você se recuperava para sair. Miri estava cuidando do seu amigo, e eu fui à vila antes que a nevasca piorasse. Pelo que você me contou sobre o que aconteceu nas Ruínas de Alph e esse tal Brandon, achei que essa pessoa poderia ser de grande ajuda para você.
Ren engoliu em seco, o coração batendo mais rápido, misturando expectativa e apreensão. Ele não sabia se deveria sentir alívio ou ansiedade.
— Quem é?
— Venha comigo até a cozinha, ele está esperando — disse a campeã. — E não podemos deixá-lo esperando muito tempo.
Ren seguiu Cynthia até a cozinha da cabana. O cômodo era um pouco maior que a sala de estar, com alguns eletrodomésticos simples em contraste com um grande fogão de pedra e barro que ocupava metade do espaço e aquecia toda a casa. Xícaras, canecas e panelas preenchiam os armários de madeira, e em um dos cantos havia uma TV de tubo com palha de aço em suas antenas, acompanhada de um velho aparelho de DVD.
Uma grande mesa de madeira maciça ocupava a outra metade do cômodo. Sentado na cabeceira estava um idoso diminuto, vestido com um grosso casaco de lã e um cachecol, acompanhado por um Piloswine grande e desgrenhado cujo focinho estava coberto de muco.
O idoso lembrava Ren de seu lolo em Olivine: a pele bronzeada marcada por rugas e manchas hepáticas, sobrancelhas grossas quase cobrindo os olhos envoltos por pés-de-galinha. O que faltava de cabelo na cabeça quase oval, ele compensava com uma barba e bigode longos, decorados com pequenas contas coloridas.
— Este é o ancião da vila, Sr. Elli — disse Cynthia. — Ele tem me ajudado desde que cheguei aqui com minhas pesquisas sobre as Ruínas de Sinjoh e a civilização que um dia habitou esta região.
— O-oi — disse Ren, erguendo a mão timidamente.
O idoso balbuciou algo, mas as palavras estavam abafadas e desconexas.
— Ele disse que é um prazer conhecê-lo — traduziu Cynthia, sorrindo. — Sr. Elli coloque a dentadura, por favor. Não vamos conseguir entendê-lo.
Cynthia coçou a nuca um pouco constrangida, como se ponderasse se deveria simplificar ainda mais a comunicação ali à mesa. O senhor de idade puxou do casaco um par de dentaduras e enfiou na boca e após remexer e ajeitá-la nas gengivas começou a falar.
— É melhor assim — disse o idoso. — Estou começando a ficar esquecido. Qual o seu nome, garotinha?
Ren sentiu a sobrancelha em um tique nervoso. Por que todo mundo aquele dia achava que ele era uma menina?
— Eu não sou uma garota, senhor. Eu sou um menino — ele corrigiu-o. — Meu nome é Renato, mas todos me chamam de Ren.
— Renato. Ren. Que nome mais peculiar — o homem passou a mão pela barba encarando o menino com aqueles olhos diminutos. — Nascido de novo. Sabia que seu nome significa isso?
Ren acenou com a cabeça que não. Seu pai queria apenas chamá-lo de Ren, mas sua mãe escolheu Renato, tanto que ele sabia que seu apelido significava flor-de-lótus em johtoniano, mas seu nome por inteiro? Não. Talvez fosse um galã de novelas que sua mãe gostasse ou um cantor. Ele não ligava muito.
— Veio de Johto, certo? — continuou o velho.
Ren acenou em resposta, confirmando a resposta que o homem queria.
— Cynthia me contou brevemente o que aconteceu com você, criança, me falou das Ruínas de Alph — ele continuou coçando a barba, enrolando-a entre os dedos. — Os Alph. Achei que nada viria de lá. Que seria apenas uma cidade perdida e enterrada como a cidade dourada de Sinjoh. Nunca visitamos aquelas ruínas, deixamos-as aos fantasmas ressentidos há milhares de anos. Me conte, o que aconteceu nas Ruínas de Alph e como pararam aqui, meu menino?
Ren engoliu em seco e recontou tudo que havia ocorrido nas ruínas: a luta entre sua amiga Lyra e Silver, a queda repentina no subterrâneo, o encontrão repentino com Benjamin Brandon e os Unown, o que fez o ancião erguer uma de suas grossas sobrancelhas, captando também a atenção de Cynthia. O menino relatou sobre como conseguia entender os Unown e sobre a câmara mortuária e os murais, assim como os delírios de loucura de Benjamin Brandon e a luta.
— Quando menos esperamos a gente estava caindo aqui em Sinjoh — ele concluiu a história. — Bem, eu e o Khoury caímos juntos. Já meu amigo Luca, bem, eu não sei… não sei onde ele está. Eu estou morto de preocupação, ainda mais sabendo que aquele maníaco do Brandon pode estar por aí fora.
— Seu amigo deve estar seguro, acredite em mim — fala o ancião. — Mas este homem que você disse… Temo que o que ele tentou em Alph tentará nas ruínas de Sinjoh. Foi lá que o rei dos Alph e o sábio dos Celestica cometeram o sacrilégio. Nós de Musuhi somos os descendentes dos sobreviventes daquela noite.
— Eu… eu não sabia — ele disse. — Eu não imaginava que Sinjoh era um lugar real ou que, sei lá, houvesse algo vivo por aqui.
— Confesso que eu compartilhei deste pensamento também — diz Cynthia. — Vim à Sinjoh junto com minha assistente, Miri, depois de alguns estudos na biblioteca de Canalave. Eu queria encontrar esta civilização perdida, acabei encontrando esta vila no meio do nada. E bem, também encontrei Pokémon que eu pensei que estavam extintos há séculos desde a colonização de Hisui nestas terras.
— Que legal…
— É, bem legal — sorriu. — Mas não é sobre isso que estamos falando. Sr. Elli você não tinha algo para dar a Ren?
O ancião ergueu as sobrancelhas e puxou algo de dentro do seu casaco. Uma pequena caixa de madeira com entalhes de diferentes Pokémon e colocou-a sobre a mesa, abrindo-a em seguida revelando dentro uma esfera iridescente rajada com veios dourados pela superfície polida. Era a joia que ele viu no mural, a opalita que as histórias nas paredes da câmara mortuária de Alphaeus falavam.
— Isso é… — ele encarou a pedra com certo.
— De acordo com as lendas antigas do nosso povo essa opalita foi dada pelo Todo-Poderoso Sinnoh — disse o Sr. Elli — Os Mil Olhos do Primordial choraram e suas lágrimas e condensaram-se nesta jóia. É graças a ela que sobrevivemos nestas terras nevadas. O poder dela aquece nossa vila e deixa a terra fértil e frutífera. Chamamos essa relíquia de Núcleo de Mystri.
— Os Mil Olhos, você quer dizer os Unown, né?
— Esse é um dos nomes que nós humanos demos a eles — respondeu o Sr. Elli. — Mas sim, são os Unown. O Núcleo foi maculado pelo rei e pelo sábio quando ousaram ser como o Primordial. Benjamin Brandon te contou da barganha que os dois governantes fizeram?
O menino acenou com a cabeça.
— Bem, quando todo o cataclisma acabou restou apenas o Núcleo e os Unown do rei — falou o ancião, Ren se lembrou dos Unown engarrafados na câmara mortuária. — O rei dos Alph e o sábio dos Celestica se tornaram cascas vazias e os que sobreviveram, aqueles que fugiram da cidade, prometeram nunca mais voltar para Sinjoh. Aqueles que pereceram no cataclisma, seus espíritos reencarnaram como raposas rancorosas: Zorua e Zoroark.
Ren conhecia esses Pokémon, eram raros e nativos de Unova, eles tinham pelagem negra. Ele se lembrava de ver na TV, em um programa unovano, uma garota de cabelos castanhos com uma Zorua no colo, filha de alguma atriz de filmes. Reencarnar como um Zorua não deveria ser de todo ruim.
— Não são os Zorua e Zoroark que você conhece — intervém Cynthia que pegou seu celular e mostrou para Ren uma fotografia de dois Pokémon na boca de uma caverna, a pelagem branca e vermelha, os olhos amarelos-enxofre encarando a câmera. — São espíritos de rancor presos à terra. Em Hisui, no período pré-colonial, esses Pokémon percorriam as terras nevadas, mas com o tempo eles desapareceram, mas aqui eles continuam vivendo. Ou melhor, existindo.
— São umas pestes, mas eles nunca vêm à vila — fala o ancião. — Vivem assombrando a antiga cidade dourada. Enfim, o que eu queria dizer é que o Núcleo de Mystri, eu quero que fique com ele. Se o tal Benjamin Brandon está a solta em nossas terras ele está a caminho das ruínas e do Altar de Mystri para tentar pela segunda vez o que tanto almeja.
— Mas isso não seria, tipo, entregar o que justamente ele queria? — perguntou Ren.
— Sim e não — fala Cynthia. — Eu irei com você até as ruínas assim que a nevasca baixar. Usaremos o Núcleo como isca. Colocaremos o plano em prática assim que seu amigo despertar, quanto mais ajuda tivermos será melhor.
— Okay…
— E outra — disse o ancião Elli. — Acho que é hora desta relíquia passar para outras mãos. Os Unown parecem ter escolhido você, meu jovem, poucos conseguem compreendê-los tão naturalmente. Se eles o elegeram, talvez seja a pessoa certa para carregar o Núcleo.
— Mas isso não é sagrado para vocês? — questionou ele olhando para a opalita na pequena urna. — Você mesmo disse que precisam disso para aquecer a vila e deixar a terra fértil e…
— Leve. Não precisamos mais, o Núcleo de Mystri já nos deu o necessário para vivermos por gerações e mais gerações — o Sr. Elli empurrou a pequena urna para o garoto. — A terra prosperará. O inverno não nos afligirá. Teremos comida para os filhos dos filhos dos filhos de nossos tataranetos. Os Pokémon continuarão vivendo entre nós. Isso basta. Bênçãos devem ser passadas adiante e eu passo esta a você, filho.
— O-obrigado…
Luca
Cidade em Ruínas de Sinjoh
O raposomem saltou sobre Luca, as garras em riste pronto para rasgá-lo, sua boca pingando saliva ectoplasmática, seus olhos sulfúreos penetrando fixos nele enquanto caminhava sem peso sobre a neve fofa. Pequenas raposinhas cercavam a grande figura vulpídea, eram Zoruas, não como as de Unova, mas brancas como a neve, suas jubas tremulando ao vento da nevasca como chamas de vela.
O menino estava paralisado de medo. Nenhum nervo, nenhum músculo seu movia-se, o seu corpo parecia congelado, empedrado no lugar. Se não fosse pelos movimentos rápidos de Kutabe que havia vindo, como um vulto branco, ele já teria virado refeição do raposo.
— Eu falei para não sair! — exclamou a esfinge desferindo um corte com seu chifre-foice mandando o raposo para longe, era o golpe Night Slash. — Volte para dentro, eu lido com essas raposas!
O menino obedeceu o Absol e recuou para dentro com cautela, carregando o ovo contra o peito enquanto o felino branco batalhava contra aquela horda de Zorua liderados pelo Zoroark. Grunhidos e golpes eram trocados do lado de fora. Se aquelas raposas eram do tipo Fantasma ao menos Luca sabia que o Absol teria alguma vantagem depois de ver o Night Slash mandar o Zoroark contra uma parede.
Ele foi para dentro da casa e ficou perto da cama e abraçou seu ovo, compartilhando o calor embora tremesse de frio por ter se exposto demais à neve. O ovo sacudia em sua casca, tremendo. Ele conseguia ouvir os crecs pela superfície cálcica da casca.
— Você tá escolhendo justo agora para nascer, é sério?! — Luca olhou para dentro da blusa, arregalando os olhos.
Ele não podia nem culpar o ovo. Bebês nasciam nos momentos mais inesperados. Ele lembrava-se de quando sua madrasta estava grávida de sua irmãzinha Pam e como a bolsa havia estourado quando eles estavam no meio do supermercado fazendo compras, a previsão para o nascimento de Pam seria três semanas depois, mas ela resolvera vir cedo ao mundo. Seu pai tivera que vir correndo do trabalho para acudir a esposa e levá-la ao hospital.
Ver o ovo ali chocando e nascendo o fez lembrar disso. Por sorte Luca não era nenhuma mulher grávida e ele não precisava fazer exercícios de respiração ou ter auxílio de um obstetra ou uma parteira naquela hora. Ele havia visto muitos vídeos na internet para se preparar para aquele momento quando seu Pokémon nascesse.
Ele improvisou um ninho com o seu moletom e colocou o ovo ali, confortável, para que, na hora que nascesse, o corpinho frágil do Pokémon recém-nascido não sofresse nenhum impacto quando eclodisse e para que ficasse protegido do frio.
O ovo remexeu-se e as primeiras rachaduras começaram a aparecer em ziguezague no topo. Ele observou com atenção enquanto o ovo tremelicava e seu primeiro Pokémon nascia. Assim que o tampo rachou-se, algo amarelo claro era possível ver, espinhos em crista enrijeceram-se, olhinhos pequeninos se abriram e encaravam Luca que sorriu. Seu primeiro Pokémon havia nascido, ele lembrava uma versão diminuta daquela estátua que ele havia visto naquele condomínio abandonado em Violet há poucas semanas.
Luca puxou a Pokédex e escaneou o Pokémon:
Togepi, o Pokémon Bola Espinhosa. Tipo Fada. Um símbolo de boa sorte, este Pokémon agracia a todos com sentimentos de alegria que apaziguam até o mais violento dos corações. Não se tem avistamentos deste Pokémon há mais de vinte anos. Há um provérbio johtoniano que diz: quem colocar um Togepi para dormir em seus braços terá a vida recheada de bonanças.
— Bem-vindo ao mundo, Togepi, eu sou seu novo treinador, Luca — se apresentou ao pequenino Pokémon que sorriu e sacudiu os bracinhos cotocos.
Ele ergueu o Pokémon pintinho fada no ar que piou em alegria. Ele vasculhou o bolso do moletom, ele se lembrou de que tinha comprado duas Friend Ball quando saíram de Violet naquela manhã, era o momento perfeito de colocar seu novo parceiro em uma Pokébola.
Assim que ele puxou a Pokébola ele ouviu um som dentro da casa abandonada. Ele virou-se acreditando se tratar de Kutabe, mas não era ele, era algo pequeno e de pelagem branca, os olhos eram amarelados e tristes. Um dos Zoruas de lá de fora.
A raposinha rancorosa grunhiu, embora não parecesse intimidante, e se pôs em posição de ataque. Antes que Luca pudesse reagir, seu Togepi saltou e foi até a raposinha que parecia pronta para atacar e começou a balançar os bracinhos como… como um metrônomo?
— Esse é o golpe Metronome? — ele arqueou as sobrancelhas.
Antes que ele raciocinasse, a batalha entre o recém-nascido Togepi e o Zorua branco já havia dado início sem delongas. O Metronome do pintinho fada acabou se transformando em outro golpe, em uma lança feita de gelo que fora disparado em direção da raposinha que evaporou-se e materializou-se em outro ponta da casa e logo sumiu nas sombras de novo atacando Togepi por trás. Shadow Sneak.
A fada revidou antes que Luca pudesse pensar que golpes tinha. Erguendo os bracinhos cotocos o pintinho disparou uma onda psíquica pela casa. Se ele estivesse certo aquele era o golpe Extrasensory. O golpe ergueu Zorua do chão e mandou-o longe fazendo ele bater a cabeça contra uma prateleira e cair no chão debilitado.
A mão de Luca formigou. Ele pegou a outra Friend Ball e rapidamente atirou as duas ao ar: uma em direção do Zorua e outra na direção de Togepi. As esferas de apricorn tremeram ao capturá-los, chacoalhando uma, depois duas e depois uma terceira vez e…. clique. Luca havia capturado não um, mas dois Pokémon. Dois no mesmo dia.
— Isso! — ele comemorou.
Quando ia pegar as duas esferas ele ouviu os passos leves e de supetão virou-se e viu Absol. Kutabe tinha sinais de batalha pelo seu pelo alvo, mas não parecia cansado, aparentemente a batalha para ele tinha sido apenas um passeio no parque.
— O que está comemorando, pivete?
— Digamos que eu agora tenho dois novos Pokémon — disse ele. — Meu ovo nasceu e eu também peguei um Zorua!
— Quer uma medalha para comemorar isso? — ele devolveu com sarcasmo. — Consegui afastar o Zoroark e seus minions, mas acho melhor procurarmos um esconderijo melhor antes que aquela raposa volte com reforços. A nevasca parece estar intensificando também, deve haver um local onde possamos fazer uma fogueira, daí posso aproveitar para caçar algo para comerem. Suba nas minhas costas, vamos logo!
Luca assentiu e assim o fez, obedecendo a esfinge.


















