quinta-feira, abril 30, 2026


Ren

Sinjoh

Segunda-feira, 16 de maio, ano 30 (Era Tōitsu)


Até onde os olhos alcançavam, só havia branco. Um mar infinito de neve, ondulando suavemente sob o vento cortante, se estendia até se fundir com o horizonte pálido. Ren sentia o estômago revirar com a certeza cruel: seria ali, naquele deserto gelado e sem marcas de vida, que seu corpo encontraria o fim. Uma queda de metros e metros, como um míssil humano, até se chocar contra metros de neve compactada. Depois de ter sobrevivido à queda no subterrâneo das Ruínas de Alph, não acreditava que a sorte fosse sorrir para ele uma segunda vez.

Luca não estava em lugar algum. O amigo sumira no instante em que o chão se abrira sob seus pés, engolido pelo vazio. Benjamin Brandon, o arqueólogo presunçoso com complexo de deus, também não dava sinal de vida. A única figura à vista era Khoury, despencando a poucos metros de distância. Mas o estagiário estava inconsciente, a cabeça tombada, os braços soltos como um boneco de pano. Ren não o culpava: qualquer pessoa que tivesse visto o chão desaparecer como fumaça sob os próprios pés teria apagado.

Num momento, estavam na penumbra silenciosa daquela câmara mortuária, cercados por paredes frias de pedra e por uma miríade de Unown em descontrole. No momento seguinte, puf, eram arrancados dali, como se tivessem sido cuspidos por uma fenda invisível, e arremessados rumo a uma vastidão nevada que não reconheciam.

Aquele lugar só poderia ser Sinjoh. Não tinha como não ser.

O vento gelado cortava como lâminas, levando embora o calor de seus dedos e bochechas, mas Ren não largava Styx, seu Houndour, abraçando o Pokémon contra o peito como se pudesse protegê-lo do impacto. O doberman tremia, e não era só de frio. Styx nunca fora um Pokémon de batalhas; era apenas um bicho de estimação, treinado para truques simples, que mal sabia um ou dois golpes fracos. Já Gorgyra, sua Murkrow, planava desesperada ao redor deles, tentando usar as correntes de ar para frear a queda, mas sem sucesso.

Ren sentia uma pontada amarga de inveja ao pensar em Lyra e Pierce. Os Pokémon deles eram fortes, ágeis, moldados por batalhas de verdade. Os dele, por outro lado, eram frágeis e vulneráveis. Prova disso fora a cena na câmara: um único Gyro Ball do Bronzor de Benjamin Brandon havia derrubado Styx como se fosse nada, deixando-o inconsciente antes mesmo que pudesse reagir.

E agora, o mundo branco se aproximava rápido demais, e a única certeza que Ren tinha era que, desta vez, ninguém estaria ali para amortecer a queda. Céus, ele queria fazer tantas coisas antes de morrer.

Ele queria beijar um menino e experienciar todo o tipo de coisa romântica que ele via naqueles filmes românticos melosos nos streamings. Queria poder ser ele mesmo sem medo do julgamento e vestir o que quiser, pintar os cabelos da cor que quiser e não dar um foda-se para os comentários. Poder praticar natação por livre e espontânea vontade e não por que sua mãe o forçava a treinar até os ossos se cansarem.

Ele queria gravar uma música com Pierce, ficar dedilhando a guitarra e ouvir o que gravaram depois, mesmo que ele não se tornasse um músico no futuro. Ele queria tirar fotos bobas com Lyra e encher aquele diário com polaroides de coisas bobas que fizeram no dia-a-dia. Queria ver Luca andar de skate no parque e ficar torcendo para que ele caísse mesmo que ele não fosse cair. Ele queria…

Ele queria saber quem ele era. Quem ele viria a ser. Afinal quem era Ren?

Lágrimas ferroavam o canto dos olhos do garoto. Ele abraçou o Houndour e sentiu a plumagem de Murkrow contra si enquanto aguardou o fim nas neves abaixo até que, de repente, ao invés de sentir a neve contra o corpo ele sentiu algo macio e quente, como dormir em um travesseiro de plumas. Quando ele abriu os olhos ele viu a plumagem marrom-acinzentada de um grande pássaro.



A ave havia pego ele, Khoury e seus Pokémon em plena queda. Era uma enorme ave de rapina de plumagem marrom-acinzentada com o rosto branco e um bico amarelado tal como as suas garras. A ave tinha um topete com uma ponta avermelhada.

Logo abaixo, em um montinho de neve, estava uma garota que parecia ter a sua idade. Ela estava vestida dos pés à cabeça com roupas de inverno espessas, mas seus cabelos escuros, presos em tranças duplas, caíam sobre os ombros. Sua pele era marrom escura, e seus olhos verdes brilhavam com uma mistura de curiosidade enquanto chamava pelo pássaro para pousar, sinalizando com as mãos.

— Staraptor, estou aqui, venha! — chamou ela.

O pássaro respondeu com um grasnado rouco, inclinando o corpo conforme diminuía a velocidade da descida. As grandes asas se abriram ao máximo, freando o movimento, criando redemoinhos de neve abaixo. A queda tornou-se um deslizar suave, um pouso quase coreografado.

As garras tocaram a neve com firmeza.

O corpo de Ren oscilou. E então cedeu. Suas pernas fraquejaram, e ele caiu de joelhos, a neve fria queimando contra a pele. Seu peito arfava, os pulmões lutando para absorver o ar gelado, a adrenalina ainda pulsando violentamente.

Eles estavam vivos.

— Vocês estão bem? — a menina perguntou conforme se aproximava da grande ave de rapina. — Eu estava fazendo uma ronda e vi você e seu amigo caindo do céu e, meu Todo-Poderoso Sinnoh, eu tive que mandar Staraptor ir atrás de vocês. Estão bem, né? Se tivessem caído direto no chão, teriam se partido ao meio. Que bom que eu e Staraptor estávamos por perto.

Antes que pudesse dizer qualquer coisa, Houndour saltou do lombo do Staraptor e correu na direção de Ren, pressionando seu corpo quente contra suas pernas. Murkrow pousou em seu ombro, os olhos atentos e a plumagem arrepiada. Ren assentiu lentamente, engolindo em seco. Cair de uma altura absurda, ser transportado do puro éter por uma miríade de Unown, e depois ser salvo por um Staraptor… Ele não sabia dizer o que era mais absurdo. Mas o mais importante era que eles estavam bem.

— O-onde estou? — ele perguntou. — Que… que lugar é esse? Não são as Ruínas de Alph, né?

A garota cruzou os braços.

— Ruínas de Alph? Isso não é em Johto? — ela meneou a cabeça para o lado. — Não. Não. Você e seu amigo estão bem longe de casa.

Ela fez uma pausa antes de dizer:

— Bem-vindos a Sinjoh. — A garota anunciou, cruzando os braços com um sorriso discreto.

Ren sentiu seu estômago despencar.

Sinjoh?!

A palavra ecoou na mente de Ren como um trovão. Não podia ser. Isso era impossível. Eles estavam nas Ruínas de Alph, em Johto, poucos instantes atrás. C-como aquilo poderia ser real? Sinjoh era realmente de verdade e não apenas mais uma lorota saída da boca daquele charlatão do Brandon?

— Como é que é? — ele piscou cinco ou seis vezes como se quisesse despertar de um pesadelo. — Sinjoh?

A garota inclinou a cabeça ligeiramente, como se já estivesse acostumada com reações assim.

— Bem, é assim que a senhorita Cynthia chama este lugar. — Ela deu de ombros, falando como se estivesse explicando algo tão simples quanto o clima.

Ren piscou, boquiaberto com aquela informação repentina. Aquele nome lhe era familiar, ele só conhecia uma pessoa chamada Cynthia. Se fosse a Cynthia que ele estava pensando…

— Espera, Cynthia…?! — exclamou, surpreso. — A Cynthia?

A garota não pareceu notar sua confusão e seguiu falando, sem perder o tom casual.

— Sim, essa Cynthia. Aliás, qual o nomes seu e do seu amigo que está apagado? — perguntou ela. — Eu me chamo Miri.

— Ren — disse breve, depois virando-se para Khoury que ainda estava desacordado no lombo de Staraptor. — E aquele é Khoury.

— É um prazer conhecer vocês, Ren e Khoury, se ele estiver me ouvindo. — Miri então ergueu os olhos para o céu acinzentado e indicou a paisagem ao redor. — Mas acho melhor continuarmos essa conversa em outro lugar. Parece que vem uma nevasca por aí e… bem, vocês não estão exatamente vestidos para o frio.

Realmente, ele não estava vestido para a neve com usando bermuda cargo e uma camisa de mangas curtas, nem mesmo as suas luvas improvisadas feitas com meias velhas aqueciam seus braços. Ele estava vestido para o clima de primavera e não para o inverno.

— Bem, se você não quiser morrer de hipotermia de uma maneira fashion é melhor você vir comigo — disse ela. — Há uma vila aqui perto, o chalé da senhorita Cynthia não é longe daqui. Acho que depois de caírem do céu você e seu amigo precisam de descansar e de sopa para se aquecerem.

— Hã… — ele não sabia o que dizer. — Obrigado.

— Não precisa agradecer e também não precisa me explicar sobre o que aconteceu por agora — fala Miri. — Apenas vem comigo. A vila é mais para baixo na montanha. Aposto que você deve estar com a fome de três Munchlax.

Vapor branco escapou pela boca de Ren. Ele estava preocupado com Luca, ainda mais sabendo que Benjamin Brandon ainda estava por aí em algum lugar naquela imensidão branca.

Ele virou-se e começou a seguir Miri. Ele encolheu-se involuntariamente por conta do frio que penetrava por baixo da sua pele. O vento uivava ao redor deles, levantando pequenos redemoinhos de neve e tornando a caminhada ainda mais difícil. O ar gelado infiltrava-se em suas roupas, cravando-se em sua pele como farpas de gelo. A cada passo, suas botas afundavam na neve, os músculos das pernas já cansados depois de tudo pelo que haviam passado.

Ele seguiu Miri por vários minutos enquanto desciam as montanhas, a paisagem ao redor monótona e quase desolada, um vasto mar branco pontuado por formações rochosas e paredões de neve acumulada pelo vento. O silêncio ali era quase absoluto, interrompido apenas pelo farfalhar do vento contra suas roupas e pelo grasnado ocasional de Staraptor que carregava o corpo desacordado de Khoury ou um latido de Houndour que brincava pela neve, Murkrow se aninhava nos ombros de Ren.

Ele sentia os membros entorpecendo a cada rajada gélida, a cada passo já que ele estava com as pernas expostas. Estava começando a se perguntar se realmente conseguiria continuar seguindo o ritmo de Miri, mas assim que ele avistou um agrupamento de construções de madeira em um semicírculo as dúvidas cessaram.

Cabanas de madeira com telhados inclinados eram dispostas em terraços desciam em direção à encosta de uma garganta clivada na montanha, um grande abismo bocejante que se ligava ao outro lado por uma ponte de cordas. A disposição das casas nos terraços lembrava Ren de um anfiteatro como o das Ruínas de Alph.

Bem no centro da vila havia uma grande estátua colossal de um Pokémon quadrúpede com suas patas dianteiras erguidas para o ar. O Pokémon centauro tinha uma espécie de auréola no centro do seu corpo que espigava-se em cruzes como uma roda. O olhar da estátua parecia encarar o céu cor de granito, como se pudesse encarar além das nuvens. A estátua lembrava o mesmo Pokémon que Ren havia visto no mural na câmara mortuária do rei Alph.


A vila era pacata, com suas cabanas terraceadas pintadas em diferentes cores como balas em uma loja. Bandeirolas coloridas tal qual as cabanas tremulavam ao vento em cordas. Um grasnado de um Pokémon voador cortou o ar, Ren ergueu o pescoço e viu uma ave de rapina cinza e branca sobrevoando a área.



— Esta é a Vila Musuhi — diz Miri. — Não é lá grande coisa, mas é acolhedora. Venha, a casa da Senhorita Cynthia não é muito longe daqui.

Ele assentiu e seguiu Miri por mais alguns metros até uma grande cabana na entrada da vila. Um snowmobile estava estacionado ao lado de um trenó. Do lado de dentro um cheiro pungente penetrava as narinas de Ren.

O Staraptor de Miri pousou e, com a força que possuia, carregou o corpo desacordado de Khoury enquanto Miri abria a porta para Ren poder entrar. Assim que cruzaram o limiar, foram atingidos por uma onda de calor acolhedor, o contraste tão abrupto contra o frio cortante lá fora que pareceu um choque em suas peles geladas. Ren estremeceu involuntariamente, sentindo os membros dormentes aos poucos voltarem à vida, formigando com o retorno do calor.

A cabana era convidativa, com um aroma amadeirado impregnado nas paredes e misturado ao cheiro rico e especiado de algo cozinhando na cozinha. O estalar brando da lareira preenchia o ambiente com um ritmo tranquilo, e a luz dourada e suave das luminárias criava sombras delicadas pelo espaço. Tapetes grossos cobriam o chão de madeira polida, abafando os passos, enquanto prateleiras de carvalho estavam repletas de livros antigos, frascos de temperos e pequenos objetos curiosos que pareciam relíquias coletadas ao longo dos anos.

Do outro cômodo, uma voz feminina e madura soou com casualidade.

— Miri, vejo que já chegou. — O tom era suave, mas carregava uma presença inconfundível, como alguém acostumado a ser ouvida com atenção. — O almoço já está pronto, tem ensopado de peixe e vegetais, você tem que provar. Está divino de tão bom!

Antes que Ren pudesse sequer pensar em quem poderia ser a dona daquela voz, Miri já estava se desfazendo do casaco pesado, pendurando-o no gancho ao lado da porta e, em seguida, retirando as botas encharcadas de neve, que colocou na sapateira.

— Senhorita Cynthia, você nem vai adivinhar o que eu encontrei caindo do céu.

— Espera… caindo do céu?! — A voz no outro cômodo soou mais alta, agora repleta de surpresa. — O que você encontrou?!

O som de passos firmes ecoou pelo chão de madeira, aproximando-se rapidamente. Cada batida ritmada parecia aumentar a tensão no peito de Ren, como um tambor acelerando antes do impacto final. Ele sentiu seu corpo enrijecer levemente, como se estivesse prestes a encarar algo muito maior do que imaginava.

Então, vinda da cozinha, uma mulher surgiu.

Ela parecia estar em seus vinte e tantos anos e era eterealmente bela. Os olhos cinzentos, brilhantes como platina polida, se estreitaram levemente ao escanear os dois garotos desconhecidos na entrada do chalé. A expressão dela oscilava entre surpresa e análise, como se estivesse diante de algo raro, uma descoberta inesperada.

Sua pele era clara e seus longos cabelos loiros desciam em cascata até um pouco abaixo da cintura, com algumas mechas soltas cobrindo um dos olhos. O dourado dos fios contrastava com suas roupas escuras, como luz e sombra coexistindo em perfeita harmonia. Vestia uma camisa preta de mangas longas, acompanhada de calças boca-de-sino igualmente negras e meias da mesma cor. O preto lhe caía tão bem que parecia ter sido criado para ela.


Ren sentiu a respiração vacilar por um segundo. Aquela era Cynthia. A Cynthia. A Campeã de Sinnoh. Uma treinadora no mesmo nível de Lance lá em Kanto-Johto.

Cynthia se aproximou lentamente, ainda absorvendo a visão de dois garotos diante dela, um carregando o outro nas costas. Então, finalmente, murmurou, quase como um sussurro para si mesma:

— Meu Santo Arceus…




Professor Spencer Hale

Museu das Ruínas de Alph, Johto


O burburinho de vozes tomou conta da câmara principal. Os adolescentes quando encontraram Spencer e Osmunda nos degraus do templo principal das ruínas sul estouraram em conversação desconexa, uma cacofonia de vozes que não fazia sentido enquanto todos falavam de uma vez só. Se eles não tivessem aparecido aquela hora, ele teria mandando a equipe de escavação ir atrás dos adolescentes depois de eles sumirem por horas a fio, mas vê-los bem e salvo já o deixava apaziguado. Ele podia já pedir para que a staff do museu liberasse o almoço para eles.

— Calma, calma — a Dra. Wehrii ergueu as mãos tentando aquietar as vozes. — Um de cada vez. Parecem Cranidos famintos.

Pareciam estar todos ali, ele viu um dos netos do Mr. Pokémon e também os assistentes temporários de Dr. Brandon e, claro, os sobrinhos gêmeos da Dra. Wehrii. Não. Não estavam todos ali, Spencer estava dando falta de três dos onze adolescentes que haviam saído para explorar as ruínas.

— Um minuto, onde está Khoury? — indaga o cientista. — E também está faltando mais, onde está…

— Era sobre isso que estávamos tentando falar — disse um dos garotos, o neto mais velho de Mr. Pokémon. — Meu irmão sumiu e meu melhor amigo também. Seu estagiário também sumiu…

— … O quê?! — os olhos do arqueólogo arregalaram-se. — Como…?

Dois dos adolescentes se entreolharam, a menina de marias-chiquinhas, Lyra talvez, e o menino ruivo, Silver, deram um passo adiante. Seus semblantes tinham um certo peso.

— Professor Hale… — Lyra começou, a voz trêmula e o rosto cabisbaixo sem encará-lo. — Eu…

— A culpa foi nossa — diz o garoto ruivo. — Eu e ela… nós… nós batalhamos num anfiteatro e acidentalmente ativamos um alçapão e todos caíram numa parte subterrânea das ruínas.

— Por Arceus… — Spencer Hale espalmou a testa. — Se vocês voltaram, talvez eles devam estar bem. Há partes das ruínas que ainda não foram exploradas, mesmo quando começamos a escavar dava para perceber que havia túneis e labirintos ali em baixo fáceis de se perder.

— Não vamos nos desesperar — disse Osmunda Wehrii. — Primeiro venham, temos que alimentar vocês, depois de comerem, contem tudo que aconteceu lá embaixo. Tudo.

Os adolescentes, calados, assentiram. Spencer apenas soltou um suspiro. Ele não queria se encher de preocupações, mas saber que seu estagiário e outros dois meninos estavam desaparecidos em algures daquelas velhas e traiçoeiras ruínas.

Ser pai tinha alterado a química de seu cérebro em tantos níveis que ele só podia imaginar um único cenário possível: e se fosse Molly ali?

Spencer já era um homem viúvo, ele não podia mentir para si mesmo que não era workaholic, passava mais tempo em sítios arqueológicos que em casa. Pagava montantes de dinheiro para que a sua filha fosse criada por sua mãe, que já havia se aposentado dos seus dias como arqueo-linguista explorando aquelas ruínas e decifrando tábuas de pedra com o marido,  enquanto ele próprio estava enfiando-se em outro sítio arqueológico.

Pensar em Khoury e nos outros meninos ali perdidos nos túneis e labirintos fazia-o pensar em como esses meninos tinham familiares que se preocupavam com eles. Amigos para quem voltar. Suas vidas próprias. Ele tinha de encontrá-los ou não se perdoaria se algo de terrível acontecesse com eles.

— É… melhor irmos — ele disse. — Depois começaremos as buscas.




Luca

Sinjoh


Se Luca ganhasse uma moeda para cada vez que caísse em direção ao nada ele teria duas moedas, o que era surpreendente, por que aquilo havia ocorrido tudo no mesmo inferno de dia que ele estava tendo desde que pisaram nas Ruínas de Alph naquela manhã.

Agarrado à incubadora, abraçando-a como se fosse a única âncora que o impedia de se despedaçar, ele despencava como uma estrela cadente. O ar frio cortava sua pele como lâminas, arrancando-lhe o fôlego a cada segundo de queda. Abaixo, não havia nada além de uma planície interminável de neve, tão branca que feria os olhos, um vazio absoluto que parecia zombar da sua impotência.

No horizonte distante, uma cadeia de montanhas se erguia, negras e ameaçadoras, como dentes pontiagudos prontos para engolir o céu. Luca sentiu o estômago revirar-se. Onde quer que tivesse ido parar, já não era Johto. Era outro mundo, gélido e estranho, e a paisagem só confirmava a certeza de que não havia saída.

De que adiantava estar vivo por alguns segundos a mais se tudo o que o esperava era a morte certa ali naquela sepultura álgida de neve metros abaixo?

Ele sempre achara besteira quando diziam que, em situações extremas, a vida passava diante dos olhos, mas agora, Luca a via com uma nitidez dolorosa. Fragmentos surgiam, desconexos e luminosos, como fotografias queimadas pelo sol, cada uma se acendendo apenas para logo depois se dissolver no vazio.

Primeiro, ele era apenas um bebê. Estava deitado em uma cama pequena, envolto em panos brancos com um cheiro agradável de flores silvestres, e uma mão quente acariciava sua bochecha com ternura infinita. Uma mulher loira repousava ao seu lado, os olhos azuis fixos nele, brilhando como duas safiras polidas, profundos e serenos. O sorriso que curvava seus lábios era pequeno, quase tímido, mas tão carregado de calor que parecia iluminar todo o quarto. Ao fundo, uma voz suave entoava uma canção de ninar, abafada e distante, como se viesse de trás de uma porta entreaberta.

— Te amo, Sebastian… — murmurou a mulher, e o som de sua voz foi como o toque de seda contra a pele. — Meu pequeno Sebastian.

— Nosso pequeno Sebastian — completou uma segunda voz.

— Pai, o Sebastian já deve estar enjoado de tanto ouvir a mesma música no alaúde — fala uma terceira voz, mais jovem, mais fina e infantil, esganiçada.

Na memória, o bebê Luca virou o pescoço e viu um homem e um garoto, ambos de cabelos negros como os dele. Havia algo de indomado em seus fios e nos olhos rubros como rubis, intensos e firmes do homem. Um cavanhaque falho cobria-lhe o queixo, e em suas mãos descansava um alaúde. Ele sorria ao dedilhar o instrumento, arrancando notas que se misturavam à melodia de ninar enquanto o menino, que não deveria ter mais que nove ou dez anos, cruzava os braços e bufava.

Aqueles eram… seus pais biológicos e seu irmão? Sebastian… era esse o seu verdadeiro nome?

As perguntas se atropelavam em sua mente, um mar revolto de dúvidas para as quais não havia tempo de resposta. De súbito, a imagem se fragmentou como vidro atingido por uma pedra. O quarto pacífico foi engolido por fogo e fumaça. O calor era sufocante, e o ar trazia consigo o cheiro de cinzas e ferro queimado. Do lado de fora, o som metálico de armas se chocando, gritos de pavor, a sinfonia selvagem do caos.

Através da névoa rubra e cinzenta, uma figura entrou em seu quarto de bebê. Era uma criatura quadrúpede, de pelagem branca como neve manchada pela luz das chamas. Sua presença parecia rasgar o ar, impondo silêncio ao próprio inferno que o cercava. Uma lâmina curva despontava da lateral de sua cabeça, lembrando a lua crescente em sua forma mais afiada. O rosto era azulado, marcado por linhas severas, e os olhos, aqueles olhos rubros e profundos, encaravam-no.



Ele não rugiu, não avançou. Apenas caminhou até a beira do berço e o fitou com um olhar grave, antigo, como o de alguém que conhecia segredos que o mundo inteiro ignorava.

Não tema — disse a criatura, e Luca não sabia como podia compreendê-la. A voz não era o grunhido gutural, mas vibração, uma certeza que surgia em sua mente. — Eu vim te salvar. Você precisa viver mais um dia, filho de Ilex.

“Viver mais um dia…” As palavras ecoaram dentro dele como um trovão. Viver. Mais. Um. Dia. A cena se despedaçou, consumida pela mesma escuridão que o envolvia na queda. O fogo, os gritos, a voz… tudo sumiu. Restou apenas o frio, o vento cortante e a brancura mortal se aproximando com violência. Ele não viveria mais um dia.

Quando Luca abriu os olhos novamente, o chão já estava perigosamente próximo. Ele engoliu em seco e abraçou a encubadora e esperou pelo que viria. Ele já tinha vivido treze anos, viver mais um dia depois daqui seria apenas lucro.

Ele aceitou o puxão da gravidade. Era mais fácil cair do que lutar contra a queda. O vento rugia em seus ouvidos, um coro de vozes invisíveis que pareciam gritar sua rendição. Quando estava quase sentindo o toque frio da neve em sua pele, uma súbita e cortante ventania o rodeou, abrupta como uma lâmina arrancada da bainha.

Luca abriu os olhos de supetão. O ar ao redor se agitava em espirais violentas, formando um pequeno tornado de lâminas de vento que girava como um casulo protetor. As correntes assobiavam e uivavam, mas, ao invés de dilacerá-lo, suavizaram sua queda. Num instante que pareceu durar uma eternidade, ele foi descendo mais devagar, o impacto amortecido até finalmente tocar a neve de maneira quase acolchoada, como se tivesse sido depositado com cuidado nas mãos geladas da própria montanha.

Por alguns segundos, ele não moveu um músculo. Apenas respirava ofegante, o peito subindo e descendo, sem compreender se ainda estava vivo ou se havia atravessado para algum outro mundo. A neve fria queimava em contraste com o calor do vento que ainda circulava em redemoinhos dispersos ao redor, dissolvendo-se lentamente.

Ainda incrédulo, Luca virou o pescoço, os olhos varrendo a planície branca em busca de qualquer explicação. Foi então que o silêncio se tornou pesado demais. Ele sentiu, antes de ver. Um arrepio subiu-lhe pela espinha quando o som de passos ecoou sobre a neve, lentos, calculados, cada estalo do gelo soando deliberado, como o compasso de alguém que não precisava correr para impor temor.

Luca engoliu em seco. O frio da paisagem já não parecia vir apenas do ambiente. Havia algo mais gelado ali: uma presença. A respiração dele se prendeu na garganta quando a voz surgiu, grave, masculina e serena, como se viesse não apenas do ar, mas de dentro dele:

Nos reencontramos, filho da floresta.


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