quinta-feira, fevereiro 19, 2026


Pierce

Subterrâneo das Ruínas de Alph, Johto

Segunda-feira, 16 de maio, ano 30 (Era Tōitsu)


Os três caíram com estrondoso splash nas águas de um rio subterrâneo. O choque contra a água foi assustador, Pierce mal teve tempo de processar a queda, ele só sentiu a água arrastar ele por corredeiras fortes que rugiam tal qual uma besta faminta. Os três adolescentes foram arrastados pelo caos, jogados de um lado para o outro como bonecos de pano, seus corpos colidindo dolorosamente contra as rochas. A corrente era forte demais para resistir, nadar estava fora de questão. Não que Pierce sequer soubesse nadar.

Ele arfou, tentando puxar o ar entre as ondas violentas, seus membros se debatendo enquanto lutava para se manter à tona. A água era infernalmente gelada, roubando o fôlego de seus pulmões e entorpecendo seus movimentos. Aleks estava em algum lugar por perto, mas as corredeiras revoltas tornavam impossível enxergá-lo. Orion estava próximo, ele boiava, mantendo o corpo estável apesar do choque inicial.

— Temos que sair daqui — gritou o gêmeo Wehrii para Pierce, mas o som das corredeiras abafava o som.

Os três adolescentes à deriva, eram empurrados pelas forças da água, sem escolha senão serem levados por ela. Acima dele, o teto irregular da caverna se erguia como uma ameaça, repleto de estalactites pontiagudas onde grupos de Zubat e Golbat se agarravam, seus pequenos corpos se mexendo inquietos. Mas ele mal prestou atenção, sua mente ainda estava girando, tentando processar o que havia acontecido minutos atrás.

Um instante antes, ele, seu irmão e seus amigos estavam naquele anfiteatro a céu aberto nas Ruínas de Alph presenciando a batalha de Lyra contra Silver. No seguinte, estavam despencando no vazio, engolidos pela escuridão. Tudo por causa de uma armadilha. Uma estúpida, antiga armadilha que havia sido ativada sem querer.

Silver e Lyra não tinham culpa. Ninguém tinha. Quem, em sã consciência, imaginaria que duas estátuas de Rhydon eram, na verdade, alavancas que ativariam um alçapão oculto? Mais importante ainda, quem diabos colocaria um alçapão desses na porra de um anfiteatro?

O rio subterrâneo fez uma curva brusca, e a corrente mudou, puxando seu corpo para outro lado. Foi então que ele viu: Aleks. Por enquanto, a corrente o mantinha na superfície, mas Pierce sabia que isso não duraria. Se não fizesse algo, Aleks se afogaria. Ou pior.

— Aquele loiro de farmácia — Pierce cerrou os dentes, forçando-se a se mover.

— Você está mais perto — grita Órion. — Tente nadar até ele.

— Mas eu não sei nadar! — gritou de volta.

— Então aprenda agora ou ele vai se afogar! — exclama o garoto Wehrii.

Pierce, rangendo os dentes, tentou manter o corpo estável e não lutar contra a correnteza e deu braçadas irregulares. Ele se perguntava como Ren suportava nadar em um rio, já que era um dos métodos de tortura/treino de sua mãe maquiavélica e narcisista, mas ele resistiu e tentou se lembrar da forma que Ren fazia e foi até o corpo inconsciente de Aleks e pegou o braço do rapaz e o colocou por cima de seu ombro na tentativa de conseguir fazê-lo boiar.

— Ei, Aleksey… — murmurou, dando um tapa leve no rosto dele. Nenhuma resposta.

Outro tapa, mais forte.

— Aleks! Acorda. Tenta ficar acordado, seu desgraçado. A gente não pode… não pode morrer aqui…

Nada. Nenhuma reação.

O rio estava desacelerando, a correnteza antes feroz dando lugar a um fluxo mais brando. Pierce sentia a diferença, o puxão violento havia desaparecido, substituído por um movimento mais lento e preguiçoso. Isso só podia significar uma coisa.

— O rio está ficando mais raso — disse Órion, os cabelos loiros com a mecha vermelha, antes espetados recaíam sobre a testa como uma cortina, quase cobrindo os olhos. — Não precisamos nadar muito a partir daqui.

Estavam chegando perto da margem.

Ignorando a dor latejante nos músculos, forçou-se a seguir em frente, chutando e se impulsionando na direção do que parecia ser terra firme. Seus braços tremiam de exaustão, mas ele não parou.

— Aguenta mais um pouco, loiro de farmácia — disse Pierce para o rapaz. — Eu te detesto, mas não posso te deixar morrer aqui.

A costa estava próxima. Ele podia vê-la agora. Uma faixa de solo úmido e rochoso mal iluminada pelo brilho fraco do musgo bioluminescente das paredes da caverna. Não era muito, mas era terra firme ao menos.

Com uma explosão final de força, seguindo Órion, Pierce chutou o leito com força, suas pernas gritando em protesto enquanto ele as impulsionava em direção à costa. Seus dedos rasparam contra a pedra áspera quando a água finalmente os libertou de seu alcance. Rangendo os dentes, ele arrastou Aleks para fora com ele, desabando no chão molhado com um baque forte.

Por um momento, ele apenas ficou lá, o peito arfando, o rosto pressionado contra a rocha fria. Seu corpo inteiro parecia ter passado por um moedor de carne, mas ele não tinha tempo para descansar. Aleks ainda não estava se movendo.

Uma pontada de pânico o atingiu.

— Aleks! — Pierce se levantou, ignorando a maneira como seus braços tremiam. Ele rolou o outro garoto de costas e se inclinou sobre ele, segurando seus ombros. — Vamos, acorde! Eu não vou perdoar se você morrer, seu filho da puta, que droga!

— Ele não está respirando! — disse Orion, em desespero. — A gente tem que fazer algo!

— Mas o quê? — indaga Pierce para o outro menino. — Eu não sei fazer ressuscitação!

— Nem eu! — grita Orion. — Merda. Merda. Merda. Merda…

Pierce respirou profundamente e abriu a mão e deu um tapa no rosto do Órion para que ele se acalmasse, mais uma pessoa em pânico não iria ajudar em nada naquele momento. Eles precisavam se manter calmos.

— Checa o pulso dele — ordena o desafiante da fronteira. — Vou tentar fazer compressões no peito dele. Pe-que-pê. Eu não devia ter dormido nas aulas de saúde!

Pierce abaixou-se e, apesar da vergonha aparente, ele levantou a camisa de Aleks até a altura da clavícula. Ele encarou o torso do coordenador e viu os poucos gomos do abdome e corou, ele entendia um pouco o por que de Ren ser tão obcecado (lê-se: apaixonado) por esse loiro de farmácia, mas agora Pierce precisava focar.

Ele posicionou as mãos acima do peito do garoto e como nos filmes foi fazendo os movimentos enquanto Órion Wehrii segurava o pulso tateando-o com o dedo indicador e o médio.

Ele fez os movimentos uma vez. Depois duas. Ainda nada.

Seu pulso martelava em seus ouvidos. Aleks ainda não estava respirando. Isso fez seu coração

Tch... Não me faça fazer isso.

Aleks continuava imóvel. Seu rosto, normalmente exibindo aquele ar convencido e provocador, parecia assustadoramente pálido. Ele tentou de novo. Uma vez. Sem resposta. Outra, aplicando mais força. Um pigarro fraco escapou da garganta de Aleks, mas nada além disso. Mas ao menos lhe dava um pouco de esperança. Mas não o bastante.

— Ele vai se engasgar com essa água toda se não fizermos algo — avisou Orion, com a voz um pouco mais firme.

— Eu sei, caralho! — respondeu Pierce, com uma urgência fria na voz, ciente de que cada segundo contava. — Tch… Eu não queria ter que recorrer a isso!

— Recorrer a o quê? — indaga Órion.

— Se contar isso para alguém eu juro, eu te mato — fala Pierce passando o dorso da mão contra a boca e abaixando, seu corpo ainda posicionado sobre o de Aleks.

Pierce hesitou, observando o rosto imóvel do outro garoto. Ele ainda guardava rancor dele. E não era pouca coisa, anos de ressentimento ainda queimavam dentro dele, acumulados como brasas sob cinzas. Mas deixá-lo morrer ali? Ele bufou, irritado consigo mesmo.

— Não acredito que vou fazer isso… Urgh, que nojo. Foi mal, Ren-ren… — disse em voz baixa, ele sabia que seu melhor amigo tinha um crush gigantesco pelo idol.

Resmungando, ele inclinou o queixo de Aleks para trás, apoiando a cabeça dele em suas coxas. Seus dedos estavam gelados, mas a pele do coordenador estava ainda mais fria, como se o calor tivesse começado a abandoná-lo. O nó no estômago de Pierce apertou. Sem pensar muito, ele tapou o nariz do outro garoto e segurou seu queixo, abrindo sua boca com o polegar.

— Só finge que isso não tá acontecendo…

Fechando os olhos por um instante para ignorar a estranheza da situação, ele soprou cinco vezes, tentando replicar o que já tinha visto na TV. Nada.

Ele alternou entre compressões no peito e mais respirações, sentindo o desconforto crescer a cada segundo. Ele já estava odiando tudo aquilo, mas o pior era saber que, se falhasse, Aleks morreria ali.

— Vamos lá, respira... respira, seu desgraçado... — murmurou, a voz oscilando entre frustração e desespero.

Ele se inclinou mais uma vez, pressionando os lábios contra os de Aleks. Nunca em sua vida imaginou que estaria literalmente de boca colada com o loiro oxigenado. Pierce revirou os olhos internamente.

— Por que você foi logo gostar desse loiro aguado, Ren-ren?

Mas então, um movimento. O peito de Aleks inflou repentinamente. Pierce mal teve tempo de se afastar antes que o outro garoto abrisse os olhos de supetão. A princípio, um olhar confuso. Depois, atordoado. E, finalmente, aterrorizado.

Pierce apenas teve um segundo para processar antes de sentir mãos empurrando seu peito com força. Ele foi lançado para trás, caindo sentado no chão com um baque seco.

Aleks tossiu violentamente, engasgando-se com a água que ainda escapava de sua boca. Seu corpo tremia levemente, o peito arfando em desespero enquanto tentava recuperar o fôlego. Pierce observou, cruzando os braços, esperando. Até que os olhos violetas do coordenador se levantaram para encará-lo.

Se antes Aleks parecia desnorteado, agora seu olhar era uma mistura de horror e indignação.

O que… — ele tossiu, cuspindo mais um pouco de água. — O que você estava fazendo...?!

— Eu… — Pierce não conseguiu terminar a frase.

— Por que você estava me beijando?! — indaga o coordenador. — Por que você está em cima de mim?

Eram muitos por quês. O corpo de Pierce ainda estava em cima do de Aleks, ele literalmente estava sendo no colo dele e com as mãos sobre o peito nu do idol. Rubor veio à face do desafiante da fronteira que imediatamente saiu de cima e caiu para trás no chão.

— Pierce, o que você fez comigo? — perguntou Aleks. — Por quanto… por quanto tempo eu estive inconsciente!

— N-não é nada disso que você estava pensando — fala Órion, intervindo, tentando defender Pierce, mesmo mau conhecendo-o. — Você tinha afogado quando caímos aqui!

— Eu não ia te beijar, seu idol meia-tigela.  Talvez eu devesse ter te deixado morrer, sabe?! — ele inflou o rosto. —  Eu tava salvando sua vida, seu bosta! Nunca que eu ia beijar você! Agora levanta aí antes que a gente comece a morrer de hipotermia!

Órion deu uma breve risada, mas Aleks ainda estava em choque.

— Então quer dizer que… que eu afoguei? — perguntou, tentando recobrar um pouco do choque inicial.  — Você estava tentando fazer respiração boca-a-boca, é isso?

— Eu só estava tentando te salvar! Você queria que eu fizesse o quê? Te desse tapinhas e esperasse um milagre?! — ele exasperou, o rosto ainda vermelho.

Órion riu mais um pouco.

— Tá rindo do quê, Wehrii?! — Pierce cruzou os braços, misturando irritação com um alívio mal disfarçado. — Quer ser o próximo a afogar também?

Órion soltou uma risada curta, tentando aliviar o clima tenso.

Aleks sorriu, meio nervoso, meio divertido, e a rigidez no rosto dele começava a ceder, dando lugar a uma estranha compreensão.

— Ah, para, Pierce — provocou Órion, jogando uma careta. — Você ficou todo tsundere com ele. Nem parecia que, pouco tempo atrás, tava com o cu na mão achando que ele ia morrer. Parecia cena daquelas novelas dramáticas de Unova que a tia Ossie adora maratonar!

Pierce revirou os olhos, tentando não rir.

— Eu não sou tsundere! — retrucou, cruzando ainda mais os braços. — Eu só… não quero que esse babaca morra, tá? Não é que eu me importe com ele, mas se esse pau no cu for pro saco, muita gente vai ficar triste. Ele é um idol famoso e tal, sabe?

Aleks sorriu malicioso, vendo a sinceridade torta no meio daquelas palavras.

— Que fofo da sua parte, Pierce. Realmente tocante. — zombou. — Mas não tô comprando essa história não. Pena que eu não corto para esse lado, mas, fofo vindo do meu aminimigo.

Pierce deu um soco leve no ombro de Aleks, meio em brincadeira, meio em provocação.

— Eu ainda posso te jogar no rio e terminar de te afogar, seu ingrato! — avisou, bufando.

Aleks riu, sacudindo a cabeça. Pierce fechou os punhos, não só pelo frio que começava a tomar conta do corpo molhado, mas pela irritação e ingratidão do colega.

— Onde diabos a gente tá, afinal? — Aleks perguntou, ainda meio atordoado. — Só lembro do chão sumindo debaixo dos nossos pés… E cadê os outros?

— Essa é a pergunta que eu queria ter respondido — respondeu Pierce, a voz trêmula pelo esforço e pelo frio cortante. — Mas a gente não pode ficar aqui parado. Vamos procurar um lugar pra se secar, se esquentar, antes de sair caçando os outros na escuridão. Tô preocupado com o meu meio-irmão, com o Ren-ren, com a Lyra…

Órion ergueu os olhos para o teto da caverna, franzindo o cenho.

— Espero que o Kessil e o resto estejam bem — disse ele, a voz carregada de preocupação. — Se essa armadilha pegou a gente, pode ter pegado eles também. Não quero nem imaginar…

Pierce olhou para o rio, ainda sentindo a água fria escorrer pelo corpo.

— Sem dúvida. Temos que nos mover rápido. Se a gente ficar aqui, a hipotermia vai acabar com a gente antes de qualquer outra coisa.

Aleks respirou fundo, tentando afastar o medo que ainda pulsava no peito.

— Então vamos logo. Quanto mais rápido a gente sair daqui, melhor.



Ren

Subterrâneo das Ruínas de Alph, Johto


Depois que o chão desmoronou sob seus pés, Ren não esperava cair em um abismo sem fim. Seu corpo parecia sem peso enquanto o vazio o engolia, a queda se estendendo em uma eternidade sufocante. Tempo o bastante para o pânico se dissolver em um torpor sombrio e entorpecido. Ele se preparou para o inevitável: rochas afiadas, ossos se estilhaçando, um fim brutal.

Mas, em vez de pedra fria, ele aterrissou com um baque abafado sobre algo macio e úmido. Uma explosão de esporos brilhantes preencheu o ar ao seu redor, pintando o ambiente com um turbilhão de verdes, azuis e púrpuras. Ren gemeu, piscando para afastar a vertigem, seus pulmões ardendo após inalar aquele ar carregado de partículas iridescentes.

O que diabos tinha acabado de acontecer? Seus sentidos voltaram aos poucos. Ele não estava morto. Isso já era um começo.

Ren se apoiou nos braços, sentindo suas mãos afundarem no que parecia ser um colchão denso e emborrachado. Então percebeu: estava deitado sobre um enorme leito de cogumelos bioluminescentes, com chapéus do tamanho de guarda-sóis de praia, pulsando com um brilho fraco e etéreo. A caverna ao seu redor era imensa, suas paredes desaparecendo em sombras profundas, iluminadas apenas pelo brilho espectral dos fungos espalhados pelo chão e pelas rochas.

Ele gemeu ao sentir uma dor surda nas costas, mas ignorou e olhou ao redor. Suas roupas estavam cobertas de esporos iridescentes como se ele tivesse se atirado em um tonel de glitter.

A poucos metros dali, Luca estava encolhido, apertando a incubadora contra o peito como se sua vida dependesse disso. Seu rosto estava franzido em desconforto, sua respiração irregular, mas ele se movia. Ele estava vivo, graças a Arceus.

Khoury, o estagiário nerdola do Prof. Hale também estava bem, deitado em uma cama de cogumelos, só seus óculos haviam sofrido algumas avarias, mas o garoto ele estava bem, talvez coberto em esporos, mas parecia estar bem já que começava a se levantar de cima dos fungos que amorteceram a queda deles.

Ren soltou um suspiro trêmulo. Poderia ter sido muito pior. Onde eles estavam?

Enquanto tentava se recompor, seu olhar se voltou para frente, deparando-se com uma figura a não muitos metros dali, o que fez o garoto erguer as sobrancelhas. Vestido em cáquis como um explorador estereotípico lá estava o Dr. Benjamin Brandon acompanhado por um Pokémon que Ren nunca tinha visto antes..

O Pokémon era redondo e achatado, da cor de bronze azinhavrado. Os olhos amarelos iluminavam os arredores como um par de lanternas. Ao redor da borda de seu corpo metálico achatado seis esferas despontavam igual a esfera no centro de sua face que servia de nariz.



— O que ele está fazendo aqui? — murmurou baixinho.

O arqueólogo não deveria estar ali, deveria estar com o Professor Spencer Hale e a Dra. Wehrii acima naquele templo. Não tinha como ele estar em dois lugares ao mesmo tempo. Aliás, ele se perguntava como aquele galariano havia chegado ali tão depressa. Ele sequer estava com eles durante a batalha entre Lyra e Silver e não tinha caído com eles no abismo quando a armadilha foi ativada no anfiteatro.

O arqueólogo galariano estava diante de uma parede de pedra, com um caderno na mão, rabiscando furiosamente enquanto analisava um mural coberto de hieróglifos estranhos. Ele não parecia ter notado que três adolescentes haviam caído do teto e que estavam próximos dele. Ele nem mesmo proferiu um simples “Vocês estão bem?” ou um “Santo Arceus, o que aconteceu com vocês?!” Nada. Apenas... escrevendo no maldito caderno.

— Mas que filho de uma…

Ren piscou, incrédulo. Ele lançou outro olhar ao redor, desta vez prestando mais atenção na caverna. As paredes eram cobertas de murais e inscrições antigas, repletas daqueles estranhos símbolos dos Unown. Suas formas oculares e ciclópicas pareciam segui-lo, inexpressivas, imóveis. Ele não pôde evitar sentir um arrepio frio subiu por sua espinha.

Ele engoliu em seco, afastando a sensação desconfortável, e forçou-se a ficar de pé, mesmo com as pernas trêmulas. Tirando os esporos brilhantes dos braços, ele deu um passo cauteloso na direção de Benjamin, tentando organizar seus pensamentos.

— Dr. Brandon...?

O arqueólogo virou-se e, como se não fosse nada, sorriu para Ren e acenou.

— Oh, meu jovem, que bom te ver — disse, com seu sotaque carregado. — Que feia foi esta queda, não? Eu tinha chego a esta câmara quando vi vocês caindo aqui.

— Você o quê? — ele indagou.

Antes que o arqueólogo pudesse dizer algo, murmúrios vieram de trás do garoto, eram de Luca que despertava. Ele virou-se e foi acudir o amigo que aos poucos levantava-se, atordoado e ainda carregando a encubadora.

— Luca? — ele foi ao encontro do garoto. — Você está bem?

— Tô, tô sim — diz o garoto. — Já caí de altura pior, mas onde… onde que a gente tá? Onde tá meu irmão e a Lyra?

Ele não respondeu, apenas olhou para o arqueólogo à frente deles e depois para o desacordado Khoury que também estava recobrando a consciência aos poucos. O garoto ajustava os óculos rachados na ponte do nariz e limpava-se do pó de esporos como se não fosse nada.

— O que aconteceu? — indagou Khoury. — Só lembro de cairmos num buraco igual a Alice caindo na toca do Scorbunny quando o chão sumiu debaixo dos nossos pés e… Dr. Brandon? O que está fazendo aqui?

O arqueólogo virou-se, a luz bioluminescente dos cogumelos fez seu monóculo reluzir em púrpura e sua pele parecer verde-limão, algo bem sinistro que faria Ren recuar automaticamente.

Don’t you worry my boys, estão seguros comigo — disse, seu sotaque galariano escapou um pouco. Ren recuou um pouco para trás e levou a mão ao bolso. — A comoção acima no anfiteatro parece ativou um velho mecanismo glífico dos Alph. Eles usavam o anfiteatro para lutas encenadas. Igual a que a sua amiga e o garoto ruivo tiveram. Agora estamos no hipogeu do anfiteatro.

Batalha? Mas ele nem estava presente no local quando estava acontecendo a batalha de Lyra contra Silver como ele poderia saber?

— Hã, poderia falar minha língua? — indaga Luca erguendo a sobrancelha e segurando a cápsula encubadora nos braços, pelo que Ren conseguia ver ela tinha sofrido algumas avarias com pequenas rachaduras, mas ainda parecia intacta. — Que caralhos é um hipogeu?

Khoury ajustou os óculos na ponte do nariz, sob a luz dos cogumelos as lentes brilharam e em seguida ergueu um dedo e disse, com a voz anasalada e erguendo o indicador no ar:

— Um hipogeu é uma passagem subterrânea em um templo ou tumba, mas há alguns em arenas como o anfiteatro que estávamos — disse o estagiário nerdola. — Hipogeus eram usados como caminho para tumbas e calabouços, mas também serviam como um lugar onde deixavam os prisioneiros, gladiadores e os Pokémon que seriam usados em duelos.

— Valeu pela explicação, Wikipédia — diz Ren.

Antes que ele ou qualquer um deles pudesse dizer algo, Khoury continuou dando sua palestrinha o que pareceu só agradar a Benjamin Brandon.

— Em algumas partes das ruínas nortes em uma arena de combate há um hipogeu como esse, encontramos ossadas de um Tauros em um dos túneis o que sugere que tinham touradas — ele continuou a explicação. — Havia algumas ossadas humanas também, talvez de prisioneiro ou escravos. Alguns mecanismos ajudavam a inundar a arena em caso de encenação de batalhas navais ou contra Pokémon aquáticos e também podia ser usado para drenar a água que seria direcionada a um rio subterrâneo, as vezes eles jogavam prisioneiros nesses rios. Acho que aqui nas ruínas sul se repetem esse mesmo padrão.

— Um rio… — Luca engoliu em seco. — Nada como cair para morte em um rio subterrâneo… Muito foda.

A frase era carregada de ironia, mas Ren sabia que ele estava preocupado com os outros. Se os três ali tinham caído no hipo-sei-lá-o-quê, onde que os outros haviam caído? Ele preferiu não levantar esse questionamento, ele preferiu fazer outra pergunta:

— Enfim, como vamos sair daqui?

— Temos que procurar os outros — diz Luca. — Se eles caíram em partes diferentes debaixo do anfiteatro é capaz que caíram no tal rio ou pior…

No need to worry, laddie — Benjamin Brandon disse, levantando o boné de Luca e bagunçando seus cabelos. — Vocês treinadores são resilientes. Aguentam mais do que podem. Podemos procurar por eles e pela saída, mas antes, poderiam me ajudar antes com algo?

— Ajudar com o quê? — Ren já perguntou, querendo evitar qualquer futuro transtorno, ele preferia sair daquele lugar o quanto antes possível, ele já estava ficando desconfortável com tantos olhos o observando. — Vai ser rápido?

— Oh, prometo que vai — disse virando para Ren. — Vocês serão de grande ajuda para mim. Eu tenho realizado um estudo nos últimos a respeito dos Unown. Eu me separei do Professor Hale e da Dra. Wehrii, eu não podia interromper minha busca, eu precisava explorar melhor estas ruínas.

O garoto olhou de soslaio e depois retornou seu olhar para Luca, mas Khoury sorriu de orelha a orelha em empolgação e falou:

— O que você está buscando, Dr. Brandon? — perguntou o garoto.

— Estou em busca da tumba do último rei da primeira civilização Alph — ele diz de forma breve. — Quando fui convidado pelo Professor Hale eu soube que era nestas ruínas ao sul que poderia estar o mítico último rei dos Alph: Alphæus, o Rei Sem Estrelas. Depois de tanto ler as traduções de Adam Longfellow Hale eu acredito que estou caminhando no rumo certo.

— Adam Longfellow Hale? — indaga Luca.

— Alphæus? — dessa vez a pergunta saiu de Ren.

Khoury ajustou os óculos de novo na ponte do nariz.

— Adam Longfellow Hale é o pai do Professor Spencer Hale, ele e a esposa eram parte da primeira escavação das ruínas do vale com o Professor Silktree antes, eu expliquei a vocês, se lembram?

— Não, nem um pouco — fala Ren. — O papo era muito de nerd para mim.

— História não é minha matéria favorita nem de longe na escola — conclui Luca. — Prefiro o intervalo ou a hora da saída.

Khoury deu de ombros.

— O Dr. Longfellow Hale e a esposa foram as primeiras pessoas a traduzir os glifos de Unown — explicou. — Eles traduziram uma série de tábuas de argila da Primeira Civilização e Segunda Civilização Alph, dentre elas está o Livro dos Reis, a maioria é considerado mítico já que nunca encontraram as tumbas e os relatos são bem fantasiosos, dentre eles está o último rei da Primeira Civilização: Alphæus, o Sem Estrelas.

— Uau, impressionante — disse Ren sarcástico.

— Ninguém sabe o que aconteceu quando o rei morreu — continuou Khoury dando sua aula de história. — Os registro do Livro dos Reis só disseram que seu espírito desapareceu após um cataclisma em terras nevadas e seu corpo era apenas uma casca vazia. Mas sabe como é, são mitos. Não é como se fosse coisa de verdade.

— Assustador — Luca revirou os olhos. — Já podemos sair desse lugar?

— Ainda não meu jovem, se as minhas anotações estão corretas talvez estejamos próximo às catacumbas — ele disse olhando para seu caderno e para os Unown entalhados nas paredes. — Se continuarmos por esses túneis do hipogeu talvez cheguemos lá rápido. Vocês estarão me ajudando e muito, posso até dar os créditos a vocês.

— Hã, obrigado, não quero — disse Ren.

— E eu vou fazer o quê com isso? — fala Luca colocando o capuz do seu moletom sobre a cabeça.

— Eu adoraria os créditos, Dr. Brandon! — Khoury ergue a mão em animação. — Isso ajudaria muito na minha nota para o meu estágio, eu poderia ser aprovado mais cedo e avançar no meu curso na Goldenrod Tech. Todo crédito extra é muito bem-vindo.

Benjamin Brandon sorriu por debaixo do bigode e ajustou o monóculo.

— Quanto entusiasmo, jovem Khoury. Prometo que terá o crédito extra necessário quando encontrarmos a tumba — ele passou a mão pesada nos cachos de Khoury bagunçando-os. — Que tal ir na frente com Bronzor, ele irá iluminar o caminho. Meninos, venham comigo.

Khoury tomou a frente, logo atrás do estranho Pokémon achatado do arqueólogo que até então estava quieto. Os olhos amarelados da criatura iluminavam tudo à frente melhor que muitas lanternas. Benjamin Brandon veio logo depois, suas botas pesadas ecoando no corredor estreito enquanto a mochila cheia tilintava com coisas que Ren preferia nem saber o que eram. Luca e Ren seguiram por último, receosos, não que tivessem muita escolha.

O caminho serpenteava sob as ruínas. Fungos brilhantes forravam partes das paredes e do chão, lançando uma luz fria e intermitente que, combinada à do Bronzor, criava sombras que se contorciam nas pedras como se respirassem. Ren sentia o peso daquelas paredes antigas, como se a própria história estivesse encolhida ali, olhando para eles com olhos vazios.

Olhos, não, Unown.

Os símbolos entalhados nas paredes eram familiares demais para serem confortáveis. As formas ciclópicas dos Pokémon se repetiam, mas não de um jeito previsível. Era como se os padrões fossem quase reconhecíveis, mas desmoronassem sempre um segundo antes da compreensão. Ren tentava não encarar por muito tempo, mas falhava.

Ele se perguntava como, em nome de Arceus, os antigos tinham escolhido Pokémon para representar seu alfabeto. A Pokédex falava de um debate entre acadêmicos sobre o que veio primeiro: os Unown ou a escrita? Parecia piada, mas quanto mais pensava, menos engraçado ficava.

E se os Unown tivessem sido criados pelas pessoas?

A ideia brotou como um espinho. E quanto mais pensava, mais fazia sentido. Ele lembrava de documentários sobre civilizações antigas e Pokémon artificiais. Não era novidade. Porygon, por exemplo, tinha sido fabricado pela Silph Co. nos anos 90, quando a internet ainda era novidade e todo mundo achava um luxo ter um computador em casa. Em Hoenn, tinham descoberto Baltoy e Claydol em escavações no deserto, Pokémon feitos de argila por mãos humanas.

Então... por que não Unown também?

A menos que… eles fossem mais antigos que tudo isso. Mais antigos que qualquer escavação. Mais antigos que a própria ideia de “feito por alguém”.

Ren franziu a testa. Não queria pensar nisso agora.

— Mais um pouco à frente — anunciou o Dr. Brandon, com a voz entusiasmada demais para alguém tão fundo no subsolo. — Se eu estiver certo, deixaremos o hipogeu e entraremos nas catacumbas.

— Catacumbas? — repetiu Luca, um pouco mais alto do que pretendia.

— Isso mesmo. Estamos nos aproximando de uma área totalmente inexplorada das ruínas — continuou o arqueólogo. — Nenhum ser humano colocou os pés aqui por milênios. Estamos prestes a fazer história.

O sorriso sob o bigode de Brandon era largo demais. Convencido demais. Sabia exatamente onde estava indo. Aquilo incomodava.

Ren lançou um olhar de canto para Luca, que apertava o passo, ainda segurando a cápsula da encubadora com cuidado. O silêncio deles dizia o que não tinham coragem de comentar em voz alta: algo ali não estava certo. E não era só por estarem em túneis antigos.

Era por quem os guiava neles.




Aleksey

Subterrâneo das Ruínas de Alph, Johto


As roupas encharcadas grudavam em suas peles com um peso de chumbo. O frio havia se aprofundado, penetrando em seus ossos, congelando-os até a medula enquanto caminhavam pela caverna iluminada por musgo, a poucos metros do rio subterrâneo em que haviam caído momentos antes.

Aleks, Pierce e Orion se moviam com dificuldade pelos túneis úmidos enterrados metros abaixo das ruínas. Aleks nascera e fora criado na cidade gelada de Snowpoint, no norte de Sinnoh, e até ele, depois daquela queda no rio, sentia o frio penetrar em seus ossos. Não era um frio invernal, mas um frio que parecia consumir você lentamente de dentro para fora. Ele ainda se sentia como se ainda estivesse naquele rio, se afogando, com os pulmões cheios daquela água gelada. Se não fosse por Pierce, ele teria...

Ele preferia não pensar nisso, mas seus lábios ainda formigavam mesmo depois daquela respiração boca a boca. Ele não deveria pensar muito sobre isso, mas ainda estava pensando no jeito como Pierce estava sobre ele, com as mãos sobre seu peito, o rosto tão perto do de Aleks que era possível sentir sua respiração.

O que diabos ele estava pensando? Pierce só estava tentando salvá-lo! Ele ainda o desprezava Aleks depois de todos aqueles anos, depois do que ele tinha feito no segundo fundamental. Aleks tinha sido desprezível e sabia que não teria a amizade de Pierce de volta.

Mas... ele continuava olhando para Pierce, sua pesada jaqueta de letterman encharcada, o som dos tênis ecoando suavemente enquanto ele arrastava os pés para a frente sob o peso das roupas encharcadas. Aleks não conseguiu evitar encará-lo por alguns segundos a mais do que deveria. A pele pálida, os olhos vermelho-rubi brilhando fracamente sob a luz fraca do musgo, o cabelo branco e preto como um rastro de cinzas na neve. Ele parecia um daqueles vampiros de filmes adolescentes. Uma fera sugadora de sangue que rasgaria a garganta de Aleks com a ponta dos dedos e lamberia cada gota de seu sangue como se fosse um banquete.

A ideia o apavorava… Sua namorada Heather talvez teria amado assistir um filme desses no cinema.

Os três continuaram caminhando pelos túneis sinuosos da caverna até que o chão rochoso deu lugar a um chão de ladrilhos, e as paredes da caverna foram substituídas por corredores de tijolos ladeados por murais repletos de hieróglifos. Eles haviam encontrado outra parte das ruínas. Símbolos ciclópicos cobriam as paredes, olhos infinitos os encarando, sem piscar. Isso provocou um arrepio na espinha de Aleks que só piorou o frio em seus ossos.

— Estamos de volta às ruínas, — disse Órion, passando a mão pela parede. — Mas devemos estar muito mais fundo do que antes. A maioria das câmaras como esta provavelmente está selada por fora...

— Seja qual for o caminho que nos leve para fora desse muquifo eu tô dentro, —  murmurou Pierce, abraçando-se para se manter aquecido. — Quero sair, comer o maior yakisoba-pan de todos os tempos, vestir roupas secas e gritar com o vovô por arrastar a mim e meus amigos para este lugar esquecido por Arceus porque o Professor Spencer Hale era um antigo aluno dele... O pior dia de todos nesta jornada maldita!

Aleks riu baixinho. Pierce era um dramalhão. Sempre foi.

Quando eles estavam no segundo fundamental, em Cherrygrove, e Pierce apareceu como um aluno estrangeiro transferido, ele era o assunto da escola. Ele tinha morado em Galar havia cerca de sete anos e falava com um sotaque tão carregado que a maioria dos professores não conseguia entendê-lo. Chegava a ser cômico.

Ele tinha feito amizade com Aleks, que na época era a estrela do time de basquete e um dos alunos mais populares da escola. Eles foram melhores amigos por um bom tempo, até que Pierce confidenciou demais a Aleks sobre sua família e seu relacionamento distante com seu pai: um homem chamado Mark O'Caine, de quem ele e sua mãe queriam manter distância.

De acordo com Pierce, seu pai, em Galar, trabalhava para um grande complexo farmacêutico em Hammerlocke — RKS Pharma, pelo que ele se lembrava —, trabalhando nos escritórios com ações e contabilidade, mas era apenas uma fachada para seu verdadeiro negócio: drogas de batalha de alta performance. Ele os vendia para Treinadores e Pokémon a caminho da Liga. E, pelo que Pierce havia dito, ele também estava envolvido no tráfico de espécimes raros de Pokémon e outras coisas nojentas que ele não conseguia entender. Mark havia sido preso pela Hammerlocke Yard, mas aquilo não era o suficiente para Pierce. Ele desprezava seu pai.

Aleks, percebendo uma brecha, usou a história de Pierce a seu favor e espalhou boatos pela escola de que Pierce estava vendendo drogas ou que estava traficando Pokémon. Comentando que ele e a mãe haviam fugido da Polícia Internacional. Como fogo em mato seco, os boatos se espalharam chegando ao corpo docente que, sem escolhas, expulsou Pierce sem dizer nada. A mãe de Pierce havia processado a escola por calúnia e injúria, mas o dano já havia sido feito e Pierce foi transferido para outra escola àquela altura e toda a história foi limpa, mas ele e Aleks brigaram e deixaram de ser amigos, nunca mais se falando.

Era justo. Aleks tinha sido um grande de um pau no cu e não era sendo um bajulador com os amigos de Pierce — Ren, Lyra e seu meio-irmão, Luca — que ele iria restaurar a amizade que haviam perdido depois de toda a merda feita. Pierce aceitava que Aleks era um pé no saco e aquela coisa de aminimigo tosca que eles tinham, mas ele não perdoaria nem em mil anos. Aleks não merecia isso.

— Ei, acho que encontrei algo — gritou Órion lá na frente.

Aleks estava tão preso nos próprios pensamentos que nem percebeu que o gêmeo Wehrii havia se distanciado tanto. Quando finalmente levantou a cabeça, viu Órion parado diante de um par de portas colossais, altas o suficiente para sumirem nas sombras do teto. Pareciam feitas para gigantes ou para manter algo muito antigo trancado lá dentro.

Os entalhes nas pedras eram complexos e familiares, retratando Pokémon como Xatu e Smeargle em poses distintas, mas no lugar dos olhos haviam aqueles glifos estranhos iguais os da parede que encaravam-os.

Órion tentava empurrar as portas com os ombros, mas era inútil. Aquilo não abriria com a força de um só garoto.

— Onde é que essa porta vai dar, hein? — perguntou Pierce, se aproximando com os olhos arregalados. — Isso aí é mais alto que a casa do prefeito de Cherrygrove.

— Não faço ideia. Mas, seja onde for... — disse Aleks, já arregaçando as mangas da camisa encharcada. — Melhor do que congelar aqui fora.

Pierce olhou para os braços de Aleks. Parou. E ficou.

— Puta merda, por que seus braços são... — ele engoliu em seco, desviando o olhar por um segundo. — Você é só um ano mais velho que eu e já tem esses braços de maromba. Como?

— Eu sou idol — Aleks respondeu de forma quase automática. Pierce ainda o encarava. — Meu manager me faz manter a forma, quer eu queira ou não. Tenho toda uma rotina. Treino, ensaio, dieta. Isso desde que eu debutei. Ser membro do Vərn4l não é tão fácil quanto parece... Mas, bem, eu amo o que faço.

Ele deu uma risada breve, mais com o nariz do que com a boca.

— Hã... Mas... o Ren-ren e a Lyra fazem tudo parecer tão fácil — disse Pierce, lembrando dos dois amigos obcecados por Aleks e o boy group. — Tipo... não é só cantar e dançar e se apresentar?

Aleks arqueou uma sobrancelha, como se estivesse prestes a rir de verdade.

— Não é só cantar e dançar — ele disse. — Eu sou o main dancer, mas às vezes também tenho que compor, revisar a coreo. Lidar com fã maluca invadindo os dormitórios. Os comentários dos haters. Tem os MVs, os comerciais e publis, os meet and greets, as fancalls, e agora tô no circuito de concursos. Eu devia estar em hiato depois do terceiro álbum, sabia?

Ele suspirou fundo, a respiração saindo em pequenas nuvens no ar úmido e frio.

— Eu amo o que faço, de verdade. Mas ser um idol é tudo menos fácil — continuou. — Ainda mais pra mim. Eu tenho uma namorada, mas é segredo. Imagina se um fã descobre? Eles iam querer meu caixão... e o da Heather também. Iam mandar um caminhão de protesto pra porta da Karakuri Entertainment com certeza.

— Espera... você namora? — perguntou Pierce, incrédulo.

— O quê?! — exclamou Órion, arregalando os olhos. — Eu acabei de presenciar o momento mais homoerótico da minha vida com vocês dois naquele boca-a-boca... e você é hétero? Caraca, que plot twist!

Ele gargalhou, alto demais para o clima da caverna, e logo cobriu a boca com a mão, nervoso.

— Bem... não faz muito tempo — Aleks coçou a nuca e riu, meio sem jeito. — Já assistiram aquela novela teen do Canal 12?

— Fala de "Te Amarei Daqui Até Saturno"? — perguntou Órion, franzindo o cenho. — Espera, a sua namorada é a Heather McCoy? Tipo... A Heather McCoy?

— É... meio que a gente se conheceu nos bastidores de um desses gameshows. Acho que foi no Lady Lucky? Nem lembro direito. Era o elenco da novela contra o meu grupo. A Vərn4l quase venceu.

Ele deu uma risada abafada, nostálgica.

— Os outros meninos ficaram arrasados. Ty-senpai e Min ficaram putos. E o Little Jay... coitado, ele não lidou bem com a derrota. Eu nem liguei. Eu só... chamei a Heather pra sair depois. E ela topou.

Aleks sorriu. Um sorriso real, de canto de boca, quase envergonhado.

Os dois meninos o encararam por um instante.

Pierce pigarreou, cruzando os braços.

— Er... tá. Legal pra vocês, eu acho. Só... sei lá, nunca imaginei você sendo o tipo romântico.

— Eu sou romântico — disse Aleks, fingindo indignação. — Só... meio disfuncional, talvez.

— "Disfuncional" é pouco — murmurou Órion.

Pierce soltou uma risada contida, mas o clima estava menos pesado agora. O frio ainda roía as pontas dos dedos e o ar cheirava a pedra molhada e poeira velha, mas pela primeira vez em horas, a conversa parecia com algo que eles teriam fora das ruínas. Fora do medo.

— Então, vamos empurrar essa porta ou vamos continuar falando da sua vida amorosa digna de reality show? — disse Pierce, já posicionando o ombro.

— Achei que você estava interessado no meu corpo — provocou Aleks, com um sorrisinho torto. — Eu sou o boy crush de todo mundo. Vai me dizer que não me acha gostoso?

Pierce o empurrou de leve com o cotovelo.

— Cala a boca e empurra, Loiro Oxigenado!

Eles se alinharam novamente diante da porta.

— Um... dois... !

As pedras rangeram sob o esforço combinado dos três. As portas, pesadas, cederam com um estalo seco. Uma coluna de poeira ergueu-se num sopro repentino, envolvendo-os num nevoeiro de areia e memória. Todos tossiram em uníssono, engasgando em silêncio.

Quando a poeira baixou, os olhos de Aleks se arregalaram. A sala que se descortinava à frente era vasta. Imensa como uma catedral esquecida cavada sob a terra.

O teto abobadado se perdia na escuridão acima, alto demais para que se visse o fim. Colunas largas como troncos de sequoias sustentavam a estrutura, todas entalhadas com cenas do cotidiano: humanos e Pokémon lado a lado, lutando, pescando, colhendo, brincando, guerreando.

Assim que pisaram para dentro, archotes de cristal nas paredes acenderam-se sozinhos. Brilharam em tons de amarelo e branco, espalhando uma luz morna que afastava, pouco a pouco, o frio molhado que grudava na pele. O calor começou a reviver os músculos cansados.

Aleks se pegou encarando os hieróglifos espalhados pelas paredes. Letras ciclopes. Olhos únicos, esculpidos com detalhes obsessivos, espreitavam de todos os cantos — como se observassem. Como se julgassem.

Estátuas decoravam a sala em ângulos estratégicos. Gárgulas de pedra com formas de Feraligatr e Blastoise se postavam sobre o que pareciam piscinas, antigas termas, talvez. Uma lareira colossal se abria ao fundo, ladeada por esculturas de Charizard e Typhlosion, prontos para cuspir fogo.

Mas foram os quatro pilares centrais que puxaram seu olhar com mais força. Havia estátuas neles. Bustos de quatro figuras que ele reconheceu das ruínas acima. Qual era o nome pelo qual o Professor Hale havia chamado-os? Os Deuses Sortudos? Não. Não soava certo…

Os Quatro Deuses Auspiciosos. Era isso que o Professor Spencer Hale tinha dito. Aleks ouviu a voz dele como um eco antigo em sua cabeça. Ele se lembrou dos nomes: Landorus, Tornadus, Enamorus e Thundurus.

De todas as estátuas, apenas a de Thundurus parecia encará-lo de volta.

A cauda do deus enrolava-se ao redor do pilar como uma serpente viva, feita de esferas espinhosas. Um único chifre se projetava do topo da cabeça, pontudo como uma lança. Aleks sentiu a ponta da estátua voltada diretamente para si, ele não sabia se era paranoia ou design intencional, mas o efeito era desconfortável.

Engoliu em seco.

Os três avançaram cautelosamente mais para dentro. O chão ecoava sob os passos molhados.

Aleks continuava absorvendo os detalhes. A sala tinha algo de casa de banho antiga, mas com elementos de laboratório, talvez até biblioteca. Havia nichos nas paredes, prateleiras vazias... ou melhor, não tão vazias assim. Dentro dos recessos estavam tubos de vidro quase transparentes e profundos, como se contivessem nebulosas miniaturizadas. Galáxias suspensas em vidro. Cada um pulsava em uma cor distinta: púrpura, índigo, champanhe, bordô, fúcsia, lavanda, magenta, ciano, cerceta. Cores berrantes. Impossíveis. Incomuns.

Aleks esticou os dedos em direção a uma das prateleiras. A vontade de tocar era absurda. Quase instintiva. Mas ele resistiu.

— Seria bom ter algum fogo pra nos aquecermos — disse Pierce, arrancando a jaqueta de letterman e jogando-a no chão com um baque molhado. Gotas pesadas escorreram do tecido, encharcando a pedra com o cheiro forte de petricor.

Aleks desviou o olhar dos tubos e, sem querer, fixou-se em Pierce. A camisa vermelha colada ao corpo, ainda úmida, deixava pouco para a imaginação. O corpo magro, de quadril estreito e cintura afilada, se delineava à luz âmbar. Aleks fitava suas costas, a base da espinha à mostra. Até se esqueceu de respirar.

Mordeu a parte de dentro da bochecha e virou o rosto depressa, não a tempo de não notar Orion tirando uma Pokébola do bolso.

— Eu não quis soltar esse carinha lá atrás — disse ele, girando a esfera entre os dedos. — Ele odeia umidade, e o rio subterrâneo teria acabado com o humor dele. Mas aqui tá seco, então acho que posso liberá-lo.

— Tá, mas você vai acender uma fogueira com o quê? — perguntou Aleks, curioso.

— Não precisamos de fogo, mas talvez um solzinho venha a calhar.

— Estamos no subterrâneo — acrescentou Pierce, franzindo o cenho. — A luz do sol não vem aqui.

Orion apenas sorriu, malicioso.

— Confia. Eu tenho uma boa carta na manga.

Ele lançou a Pokébola com um movimento rápido. A esfera se abriu com o brilho habitual e, em meio a uma onda de luz, surgiu um Pokémon de aparência pré-histórica: um dinossauro compacto, de couro cinza-azulado e crânio lustroso.

— Cranidos! — exclamou Pierce, animado. — Verdade! Você tava com um lá em cima! Seu irmão tinha um Shieldon, né? Eu tinha esquecido disso! Eu amo Pokémon fósseis! Mas... como exatamente você vai trazer o sol aqui embaixo?

— Não é o sol de verdade — respondeu Orion, os olhos fixos no Cranidos. — Mas uma boa imitação serve.

O Pokémon já sabia o que fazer.

— Cranidos, use Sunny Day!

O domo azulado no topo da cabeça de Cranidos brilhou branco. Em segundos, uma esfera radiante subiu e se fixou no alto da câmara, como um segundo sol de vidro. O calor se espalhou pela sala com rapidez. Era bom sentir o calor sorver nos ossos, afugentando o frio úmido que os havia envolvido por horas.

— Agora dá pra secar as roupas — comentou Orion. — Eu uso isso quando a tia Ossie me pede pra lavar as roupas ou quando os dias são muito frios. Cranidos é ectotérmico, então ensinar Sunny Day pra ele ajuda o metabolismo. Assim ele não congela no inverno.

— Isso é esperto — disse Aleks. — Quanto tempo dura o efeito?

— Meia hora, talvez quarenta e cinco minutos — respondeu Orion, removendo a jaqueta vermelha e depois a camisa, colocando ambas sobre uma das estátuas. Ele parecia não se importar de ficar com o peito nu diante dos dois. — É melhor deixar as roupas estendidas um pouco. Roupas demoram mais que corpos pra secar, mas com Sunny Day talvez evapore tudo rápido.

Aleks fizera o mesmo que Órion e removera as peças de cima, ficando com o peito e o abdome exposto.

— Espera, você espera que a gente tire a roupa? — indaga Pierce para o gêmeo Wehrii.

— Se estiver afim de pegar uma tuberculose, continue de roupa molhada — disse Órion. — Apenas fique de cuecas e deixe o resto da roupa secando. O Sunny Day vai secar tudo, pense que é como colocar peças de roupa úmida atrás da geladeira para secar e, honestamente. Eu vi você e o Sr. Idol™  no maior momento homoerótico que uma pessoa hétero pode presenciar. Ver outro cara seminu não vai te matar.

Relutante, Pierce removeu a camisa e colocou no busto de Landorus e desfez o cinto e calça ficando apenas de cuecas ali. Ele reparou que eram um par de boxers vermelhas sólidas, quase cor de vinho. Ele corou. Era constrangedor, mas Aleks tinha que admitir, mas era isso ou ficar com roupas molhadas na pele por mais tempo do que queriam.

O trio, andou pela câmara ampla enquanto o Sunny Day fazia seu trabalho de aquecê-los e secar suas roupas. O idol andou em direção aos nichos nas paredes e observou os tubos de cristais, eles estavam organizados e cobertos de poeira igual livros em uma biblioteca. O cristal furta-cor parecia pulsar, ele tocou, nada acontecera, não era nem frio e nem quente, só… só estranho. Era como pegar uma lâmpada fluorescente. Uma lâmpada fluorescente do tempo em que os Mamoswine ainda eram vivos.

— No que você tá futricando, loiro? — pergunta Pierce que parecia ter seguido-o, o que só assustou ele de supetão.

— É só esses cristais, não acha… não acha eles estranhos? — indaga o garoto.

— São bisonhos — admitiu. — O que são isso?

— São muito grandes para serem tubos de ensaio — ele fala observando com atenção o material.

— Se eu fosse vocês não mexeria nisso daí — diz Orion, Aleks virou de costas e viu o gêmeo Wehrii de braços cruzados. — Pode acabar dando merda.

— Que merda que pode dar que até agora não deu? — fala Pierce, encarando o gêmeo, o desafiante da fronteira recostou sobre uma das paredes e encostou em uma inscrição em um dos nichos, mais especificamente no que Aleks havia removido o cristal. — A gente já quase morreu afogado. O que tem para acontecer.

A mão de Pierce afundou na inscrição e a prateleira no nicho tremeu e os cristais, tanto o que Aleks segurava quanto os outros tubos na parede, acenderam como lightsticks em um dos seus shows e logo as paredes também tremeram e os hieróglifos nas paredes brilharam em um vermelho forte. Dessa vez os olhos nos hieróglifos os encaravam de verdade.

— Merda…

— Eu disse!

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