quinta-feira, fevereiro 19, 2026


Lyra

Ruínas de Alph, Johto

Segunda-feira, 16 de maio, ano 30 (Era Tōitsu)


— Você é o garoto que roubou um Pokémon do laboratório do Professor Elm!

O silêncio que se seguiu cortou o anfiteatro como uma faca de pão: direto, inesperado, mas ainda assim eficaz. Não havia grito, nem alarde, só o peso das palavras ecoando ali no anfiteatro. Todos os olhos se voltaram para Silver. Depois para Lyra. Depois de volta para Silver. Até o vento pareceu parar, como se também estivesse tentando entender o que tinha acabado de acontecer.

Os gêmeos estavam de bocas abertas, Khoury boquiaberto, como se o cérebro estivesse tentando recalcular a informação. Orion e Kessil trocaram olhares confusos. Ren e Pierce, no entanto, estavam mais atentos a Silver do que ao choque em si.

— Eu reconheceria você em qualquer lugar! — exclamou Lyra, a voz cheia de certeza. — Você estava lá no dia em que eu fui escolher meu inicial. Eu lembro! Eu me lembraria desse cabelo ruivo em qualquer lugar.

Silver desviou o olhar, incomodado, os ombros se encolhendo como se quisesse desaparecer dentro da própria jaqueta.

— N-não sei do que você tá falando, Marias-Chiquinhas — respondeu, tentando soar despreocupado, mas a voz saiu mais fina do que o normal.

— Não tenta se fazer de desentendido! — insistiu ela, avançando um passo. — Eu vi você naquele dia. Você pegou o Chikorita e saiu pela janela dos fundos. Eu me lembro, só tinham restado Totodile e Cyndaquil depois! Foi você que roubou o Chikorita!

— V-você não pode acusar alguém assim — gaguejou Khoury, agora parecendo mais preocupado do que surpreso. — Isso é… é grave! Muito grave!

— Puta merda, isso é grave mesmo — murmurou Kessil, se encolhendo ligeiramente.

— A gente devia chamar a Tia Ossie. Ou o Profê Hale! — disse Orion, a voz subindo meio tom em desespero. — Ele vai saber o que fazer!

Ren, que até então estava em silêncio, cruzou os braços e estreitou os olhos.

— Agora que eu penso nisso… — disse em tom pensativo. — Você se parece com aqueles retratos bizarros que estavam colados em postes por Cherrygrove e Violet. Lembra, Pierce? Aqueles feios, feitos por IA?

— Lembro sim! — respondeu Pierce, arregalando os olhos. — Caramba, agora tudo faz sentido! Era você, Silver!

— Eu vi isso na TV do CP de Violet — acrescentou Luca. — Mas disseram que a polícia tinha abandonado o caso. Achei que não tinha dado em nada…

Aleks arregalou os olhos e encarou Silver, como se só agora a ficha tivesse caído de verdade.

— Espera aí… você é um ladrão de Pokémon?! Você?! — O tom de incredulidade era tão alto que ecoou.

Tomoki e Kousei se entreolharam de novo. Nenhum dos dois pareceu surpreso. Isso só deixou Aleks mais indignado.

— Vocês sabiam?! E não falaram nada?!

Tomoki desviou o olhar. Kousei deu de ombros, como se quisesse evitar entrar na conversa. Aleks bufou, dando um passo à frente.

O silêncio se instalou outra vez. Mas dessa vez, era mais denso, mais carregado. Todos esperavam a resposta de Silver.

O garoto ruivo ergueu o queixo. O desconforto anterior desapareceu, substituído por algo mais frio, mais afiado. Um sorriso enviesado se formou nos lábios dele, quase desdenhoso.

— E daí que eu roubei? — disse, sem abaixar os olhos. A voz saiu baixa, mas com firmeza. — Vai fazer o quê? Chamar a polícia? Aqui? No meio do mato? Num sítio arqueológico no fim do mundo? Até eles chegarem, eu já vou estar quilômetros longe.

O estômago de alguns ali pareceu afundar. Era difícil saber o que chocava mais: a confissão ou a frieza com que foi dita.

— Daqui você não vai sair — retrucou Lyra, puxando uma Pokébola e segurando firme. — Nem que eu tenha que batalhar contra você aqui mesmo.

— Cai dentro então, Marias-Chiquinhas — Silver rebateu, girando uma Pokébola nos dedos com um ar de tédio. — Acha que me derrotar numa batalha vai me impedir de sair daqui?

Ele lançou a Pokébola para o alto e dela surgiu um Pokémon pequeno, azulado, com guelras roxas expostas nas laterais da cabeça. Sem braços, corpo redondo, rosto simples e sorridente. Wooper. Mesmo que Lyra o reconhecesse de imediato, o bip da Pokédex ecoou pelo ar, provavelmente a de Pierce, como sempre, ativada automaticamente. A voz masculina robótica começou a ler:


Wooper, o Pokémon Peixe d’Água. Tipo Água e Terrestre. Este Pokémon vive em águas frias e só sai em busca de alimento durante a noite. Seu corpo é envolto por uma película viscosa, tóxica e transparente, que o protege da desidratação. Tocar essa camada com as mãos nuas pode causar dormência.


— Ugh, nojento — sussurrou Orion.

Lyra então lançou sua Pokébola para o ar. Com um brilho esbranquiçado, sua Dunsparce surgiu, a serpente tsuchinoko que sacudiu a cauda em forma de broca, soltando um silvo, lambendo o ar com a língua bifurcada.

Silver e Lyra tomaram posições opostas, de frente para as estátuas de Rhydon nos cantos da arena, como se fossem dois gladiadores. O anfiteatro parecia suspenso no tempo. Khoury respirou fundo e levantou uma das mãos, tentando ignorar o fato de que estava tremendo um pouco.

— B-batalha Pokémon… Comecem!

— Vamos ver se você aguenta, Marias-Chiquinhas — provocou o ruivo, o que fez Lyra inflar as bochechas em ódio, como um Jigglypuff.

— Cale a boca!

Lyra e Silver se encaravam intensamente, cada um atento aos mínimos movimentos do outro. Todos ao redor pareciam prender a respiração, aguardando o desenrolar do embate. Lyra foi a primeira a agir.

— Dunsparce, comece com Glare!

A tsuchinoko inclinou levemente a cabeça para frente, seus olhos cerrados de repente se abrindo e emitindo um brilho vermelho intenso. Ondas de choque invisíveis se espalharam pelo ar, atingindo Wooper em cheio. O pequeno Pokémon azul se enrijeceu, seus músculos travando por um instante. Paralisia. Uma estratégia inteligente, pensou Ren. Se Wooper não pudesse se mover livremente, as chances de Lyra aumentariam consideravelmente, mas Silver sequer hesitou.

— Tsc, acha que isso vai me impedir? — zombou ele, um sorriso presunçoso ainda presente em seus lábios. — Wooper, Rain Dance!

Mesmo paralisado, Wooper conseguiu se mover, seus pequenos olhos brilhando em um tom azul profundo. Ele ergueu a cabeça para cima e soltou um som vibrante, quase como um coaxar alto. No mesmo instante, nuvens densas começaram a se formar acima do anfiteatro. Era como se a própria atmosfera ao redor deles tivesse se alterado.

Gotas d’água começaram a cair, pingando sobre as pedras antigas do chão, levantando um cheiro de petricor intenso. O brilho do sol era obscurecido pelas nuvens pesadas. A umidade aumentou no ar, tornando o ambiente pesado.

— Droga… — murmurou Aleks, cruzando os braços. — Agora os golpes do tipo Água dele ficarão mais fortes.

Silver não perdeu tempo.

— Agora, Mud Shot!

Apesar da paralisia, Wooper conseguiu se mover mais uma vez. Ele encheu as bochechas antes de cuspir um jato de lama grossa e encharcada diretamente contra Dunsparce. Lyra arregalou os olhos.

— Desvie!

Mas Dunsparce não foi rápida o suficiente. O golpe atingiu-a direto na cara, jogando-a para trás e sujando sua pele amarelada com a lama úmida e espessa. Ela deslizou alguns centímetros pelo chão de pedra antes de se estabilizar, sacudindo a cabeça para tentar se recuperar do impacto, mas parecia em vão.

— Isso foi direto no alvo — comentou Pierce, observando atentamente.

Silver riu baixo.

— Ainda quer continuar, Marias-Chiquinhas?

— Nesse jogo jogam dois — diz Lyra — Dunsparce use Mud Shot também!

Dunsparce, apesar da lama na cara, devolveu o golpe na mesma moeda. Da boca da tsuchinoko, lama foi disparada a esmo na direção do axolote, mesmo não podendo enxergar onde o seu oponente estava, já que a precisão havia diminuído por ter sido atingida pelo Wooper. A água da chuva do Rain Dance só piorava a situação.

Tiros de lama foram para todos os lados, fazendo com quem assistia a batalha ter que abaixar a cabeça para não ser acertado. Silver viu essa oportunidade e ordenou que seu Pokémon contra-atacasse com Water Gun, aproveitando a janela de oportunidade criada pela Dunsparce atordoada e sem noção de mira. O jato de água pressurizado mandou a serpente contra os degraus do anfiteatro, o que deixou ela fora de combate. Lyra havia perdido seu primeiro Pokémon.

— Ainda quer continuar, Marias-Chiquinhas? — provoca Silver. — Aposto que seus outros Pokémon são tão fracos quanto essa sua Dunsparce assim.

— Eu vou te derrotar, você vai ver só — a menina disse entredentes. — Tenho mais dois Pokémon comigo, você vai ver só!

— Hã, okay… Dunsparce fora de combate, retorne ela, Lyra — disse Khoury. — Mande seu próximo Pokémon. O próximo movimento é de Silver.

Lyra lançou sua Luxury Ball ao alto, e dela surgiu um Meowth de pelagem curta, marcada por cicatrizes. O felino caiu graciosamente no chão de pedra molhada, flexionando as patas e balançando a cauda de um lado para o outro. Seu único olho brilhou feroz enquanto ele estudava o oponente. Ele não parecia intimidado pelo ambiente escuro e úmido, nem pelo olhar feroz de Silver.

A chuva fina do Rain Dance ainda caía, pingando das fendas do teto e tornando o solo ainda mais escorregadio. O cheiro de terra molhada e musgo tomava o ar, misturado ao farfalhar sutil da água batendo contra as pedras do anfiteatro.

Silver manteve a expressão fechada, mas Lyra notou que ele apertava a Pokébola vazia de Wooper com um pouco mais de força do que antes.

— Muito bem, Meowth. Agora, Pay Day! — ordenou Lyra, apontando para frente.

O felino saltou com destreza e, com um movimento ágil da pata, lançou uma chuva de moedas koban reluzentes na direção de Wooper. As pequenas moedas metálicas giraram no ar, brilhando à luz fraca vinda de entre as nuvens do Rain Dance.

Silver não hesitou.

— Wooper, Mud Shot!

O pequeno axolote inchou as bochechas e disparou uma rajada de lama grossa e úmida, tentando interceptar as moedas antes que o golpe o atingisse. Algumas koban foram engolidas pelo jato de lama, mas muitas outras seguiram adiante e atingiram Wooper em cheio, fazendo-o cambalear para trás.

Ren observava tudo de braços cruzados, os olhos semicerrados, analisando cada movimento.

— Lyra conseguiu tomar a ofensiva. — murmurou ele, mais para si mesmo. — Dessa vez ela vence.

Aleks observava entre os treinadores, tenso, enquanto Luca e os gêmeos, Kousei e Tomoki, pareciam mais focados na reação de Silver do que na luta em si.

A chuva do Rain Dance começou a diminuir. O barulho das gotas foi se tornando cada vez mais espaçado até cessar completamente. Silver percebeu isso imediatamente e cerrou os punhos. Sem a chuva para fortalecer seus golpes de Água, Wooper estava vulnerável. Seus olhos brilharam com determinação.

— Wooper, Water Gun!

O Pokémon abriu a boca e disparou um jato d’água pressurizado direto contra Meowth.

— Desvie e ataque com Scratch! — ordenou Lyra rapidamente.

Meowth, com um movimento ágil, saltou de lado, evitando o golpe por poucos centímetros. A água bateu no chão de pedra, levantando pequenas poças. Antes que Wooper pudesse reagir, Meowth já estava sobre ele, suas garras brilhando ao refletirem a luz. O gato golpeou com força, arranhando o anfíbio diretamente no dorso. Wooper soltou um som abafado antes de tombar para trás, derrotado.

Silêncio.

Todos os olhares se voltaram para Khoury, que observou a cena atentamente antes de erguer a mão.

— Wooper está fora de combate. O vencedor deste round foi Meowth! — anunciou ele. — O próximo movimento é de Lyra. Silver, mande seu próximo Pokémon ao campo.

Lyra deu um pequeno suspiro de alívio, mas manteve a postura firme. A batalha ainda não havia acabado. Ela ainda não tinha vencido, ainda havia outros dois Pokémon para enfrentar.

Silver ficou imóvel por um instante. Ele apertava a Pokébola vazia de Wooper com tanta força que seus nós dos dedos estavam brancos. Mas então, ele soltou um suspiro, a tensão escoando de seus ombros, e deu um sorriso frio e presunçoso.

— Não fique se achando muito, Marias-Chiquinhas. — disse ele, pegando outra Pokébola do cinto. — Não é porque estamos empatados que você vai vencer.

Ele girou a Pokébola nos dedos antes de jogá-la ao alto com um movimento confiante.

— Sneasel, ao campo!

O feixe de luz se dissipou, revelando um Pokémon mustelídeo de pelagem escura e porte elegante. Seus olhos afiados brilharam com uma astúcia cruel, e ele abriu um sorriso feral, exibindo pequenos caninos pontiagudos. As penas vermelhas em sua orelha e cauda balançaram ligeiramente quando ele esticou as garras, afiadas como navalhas. Sneasel pousou suavemente no chão, os músculos retesados como se estivesse pronto para atacar a qualquer momento. 

Mais um bip de Pokédex tomou a arena, dessa vez vindo da de Luca:


Sneasel, o Pokémon Garra Afiada. Tipo Sombrio e Gelo. Uma criatura astuta, mas também selvagem em disposição, trabalhando em pares para caçar, com um distraindo os pais enquanto o outro rouba os ovos dos ninhos para comerem, quebrando a casca com suas garras afiadas para se alimentarem. Criadores veem esses Pokémon como pestes por esta razão.


Lyra engoliu em seco. Esse Pokémon parecia bem mais perigoso do que Wooper.

Ela olhou para Meowth. Ele também percebeu. O gato estava ligeiramente curvado, o pelo do pescoço eriçado. Ele rosnou baixo, a cauda se movimentando num padrão irregular, sinal de que estava em alerta total.

Khoury ergueu a mão.

— Podem começar!

Lyra não hesitou.

— Meowth, Pay Day!

O felino saltou com leveza e girou no ar, lançando uma nova saraivada de moedas koban que reluziam sob a luz do sol entre as nuvens. Elas cortavam o ar como pequenas lâminas douradas, zunindo enquanto seguiam em direção a Sneasel.

Silver sorriu de lado, seus olhos brilhando com confiança.

Ice Shard!

O kamaitachi expeliu um sopro gélido, condensando a umidade do ar em cacos afiados de gelo que foram disparados como projéteis contra as moedas de Meowth. O impacto foi estrondoso, metal e gelo colidindo no ar, faíscas e estilhaços caindo sobre o campo de batalha. Sem esperar um comando adicional, os dois Pokémon avançaram um contra o outro. Garras contra garras. Saraivadas de moedas contra cacos de gelo.

Meowth e Sneasel se engajaram em um duelo feroz, trocando golpes rápidos e precisos. Suas silhuetas se tornaram borrões de movimento, saltando para os lados, desviando, contra-atacando com velocidade impressionante. Eles estavam parelhos, nenhum recuava.

Silver, percebendo que precisava quebrar aquele equilíbrio, ordenou sem hesitação:

— Sneasel, Feint Attack!

O sorriso de Lyra se alargou.

— Meowth, contra-ataque com…

Mas antes que ela pudesse concluir o comando, Sneasel desapareceu.

Lyra arregalou os olhos.

— O quê?!

Meowth esticou as garras, alerta, os pelos do corpo eriçados em um reflexo instintivo. Mas não houve tempo para reação. Sneasel ressurgiu como uma sombra traiçoeira atrás do felino, movendo-se como um espectro.

Com um golpe furtivo e preciso, suas garras acertaram Meowth em cheio nas costas, jogando-o para frente. O gato arquejou, soltando um miado de dor antes de girar sobre as patas e soltar um chiar desafiador para a doninha-navalha.

Mas algo estranho aconteceu. Antes que Lyra pudesse dar um novo comando, Meowth ergueu a pata, e um brilho branco-dourado a envolveu.

Lyra piscou, surpresa.

— Meowth?

Tomoki inclinou o corpo para frente, observando o fenômeno com curiosidade.

— Que golpe é esse?

Aleks arregalou os olhos, reconhecendo imediatamente.

— Já vi isso antes… É Assist!

Silver bufou, impaciente.

— Aprender um golpe novo não vai te garantir vitória nenhuma, Marias-Chiquinhas.

Ele fez um gesto rápido com a mão.

— Sneasel, Quick Attack!

Sneasel desapareceu em um borrão de velocidade, movendo-se como um ninja pelo chão enlameado da arena, indo diretamente para Meowth.

Lyra não hesitou.

— Meowth, use Assist!

O brilho dourado envolveu a pata do felino mais uma vez, e num piscar de olhos, ele disparou um jato pressurizado de água direto contra Sneasel: Water Gun. O golpe atingiu em cheio o rosto da doninha, pegando-a completamente desprevenida e arremessando-a para trás.

Pierce se inclinou um pouco para frente, animado.

— Lyra! O Assist usa golpes aleatórios dos seus próprios Pokémon! — explicou. — Esse foi o Water Gun do Totodile!

Os olhos de Lyra brilharam com determinação.

— Certo. Meowth, use Assist de novo!

Silver cerrou os punhos.

Tsk. Sneasel, envolva suas garras com gelo usando Icy Wind e depois ataque com Scratch!

O kamaitachi soltou um sopro gelado, envolvendo suas garras com uma camada espessa de gelo azul-acinzentado. Ele então investiu contra Meowth, as garras brilhando friamente. Meowth, por sua vez, já estava envolto pelo brilho áureo do Assist novamente.

No instante em que Sneasel avançou, um par de mandíbulas rubro-negras se materializou no ar ao redor da pata de Meowth: Bite. As presas espectrais se fecharam com força ao redor das garras congeladas de Sneasel, impedindo o golpe de atingir seu alvo. Mas Meowth não parou por aí, ele saltou para frente e mordeu Sneasel diretamente no ombro, cravando os dentes afiados na pele do adversário. Duas mordidas de uma vez só.

Sneasel guinchou de dor, os olhos arregalados, quase recuando. Silver abriu a boca para comandar, mas o próprio Sneasel se adiantou, ignorando as ordens do treinador. A doninha, irritada, soprou um vento cortante de gelo direto no rosto de Meowth, mesclando Icy Wind e Ice Shard em um único movimento. A explosão de ar gélido cobriu Meowth com uma camada de geada, congelando parte de sua pelagem.

O felino estremeceu, mas não soltou Sneasel. Ele ainda segurava a mordida, causando dano enquanto tomava dano da geladura gerada por Sneasel. Antes que ambos os treinadores pudessem tomar a frente, Sneasel caíra exausto no chão com a Meowth relaxando a mandíbula em seguida, caindo junto. Ambos os Pokémon haviam sido derrotados: um empate.

— Meowth e Sneasel, ambos fora de combate! — declarou Khoury, ainda impressionado com a intensidade da batalha. — Como houve um empate, os dois podem enviar seus próximos Pokémon. O primeiro movimento desta rodada será de Silver, já que na anterior Lyra atacou primeiro.

Os dois adolescentes se posicionaram. Lyra pegou do bolso sua última Pokébola, e Silver fez o mesmo. Seus olhares se encontraram por um breve instante, eletrizados pela tensão do momento. Sem perder tempo, ambos lançaram suas esferas ao campo de batalha improvisado.

Após um clarão, Totodile surgiu no lado de Lyra, saltitando animado, mas sua excitação logo se dissipou ao ver quem era seu oponente. Do lado de Silver, um Chikorita imponente fitou o crocodilo azul com um olhar determinado, suas pequenas patas afundando levemente no solo úmido.

— Comece com Poison Powder! — ordenou Silver.

Chikorita sacudiu a folha de sua cabeça, liberando uma densa nuvem de esporos roxos que flutuaram pelo campo. Totodile inalou o pó sem conseguir evitar, e seu corpo azul-celeste adquiriu um tom arroxeado febril. Bolhas de veneno surgiram em sua pele, estourando uma a uma enquanto o dano gradual se instalava.

— Veneno… — murmurou Kousei, acompanhando atentamente a batalha.

— A Lyra tá fodida, — comentou Luca, sem rodeios.

Mas Lyra não recuaria.

— Totodile, use Bite!

O pequeno crocodilo avançou com rapidez, suas mandíbulas afiadas reluzindo ao abrir-se. Ele mordeu Chikorita com força, arrancando um gemido de dor do adversário. No entanto, Silver não pareceu preocupado, pelo contrário, um sorriso sardônico curvou seus lábios.

Razor Leaf!

Chikorita sacudiu sua folha vigorosamente, disparando uma enxurrada de lâminas verdes. O ataque atingiu Totodile em cheio, o impacto o fazendo cambalear para trás. Lyra mordeu o lábio. Ela sabia que, considerando a desvantagem de tipo, um golpe super efetivo seria fatal para seu Pokémon se não encontrasse uma forma de equilibrar o combate.

Seus olhos percorreram o campo de batalha. O chão do anfiteatro estava repleto de poças d’água e lama, resquícios do Rain Dance e do Mud Shot de Wooper. Um lampejo de ideia surgiu em sua mente. Se jogasse certo com o terreno, talvez pudesse virar o jogo.

— Totodile, Water Gun!

Razor Leaf de novo!

O jato de água colidiu com as lâminas cortantes. Algumas folhas foram destruídas pelo impacto, mas outras ainda seguiram seu caminho. Totodile, no entanto, empurrou Chikorita para trás, guiando-o para uma das maiores poças de lama. Com mais um disparo de água, Lyra intensificou a umidade do solo ao redor do oponente.

— Totodile, Scratch repetidamente!

— Chikorita, ataque com…

Antes que Silver pudesse completar sua ordem, Totodile já estava sobre Chikorita, suas garras cortando o ar antes de atingir o saurópode repetidamente. Silver estreitou os olhos, preparando-se para reagir, mas, de repente, Chikorita brilhou com uma aura púrpura e conjurou grandes rochas cintilantes, disparando-as contra Totodile com força.

Lyra arregalou os olhos. Aquele golpe… ela nunca tinha visto Chikorita usá-lo antes.

Ancient Power… — murmurou Aleks, surpreso.

— Desde quando ele tem esse movimento?! — Silver também parecia pego de surpresa. — Use de novo!

Outra rajada de pedras envoltas em energia ancestral foi lançada. Totodile, sob as ordens de Lyra, contra-atacava quebrando os projéteis com Bite e Scratch, mas a batalha se tornava cada vez mais desgastante. O veneno fazia seu efeito, e Totodile já demonstrava sinais de exaustão, seus passos mais pesados, sua respiração mais irregular. Mas Lyra sabia que Chikorita também estava sofrendo com os disparos constantes de Water Gun.

— Chikorita, Ancient Power mais uma vez! — exclamou Silver.

— Totodile, Water Gun com toda a força! — gritou Lyra, sentindo a garganta arranhar com o esforço.

A batalha atingia seu clímax. Chikorita conjurou novas pedras brilhantes, e Totodile respondeu com um jato de água poderoso. O impacto destruiu os primeiros projéteis, mas novos vinham em sequência. Totodile cambaleava, seu corpo enfraquecido pelo veneno. Ao mesmo tempo, Chikorita estava atolado na lama, suas patas afundando mais a cada tentativa de movimento. Os dois treinadores trocaram olhares, ambos sabiam que o próximo golpe decidiria tudo.

— Chikorita, combine Ancient Power com Razor Leaf!

— Totodile, aumente ainda mais a força do Water Gun!

Chikorita agitou a folha da cabeça, disparando uma combinação feroz de lâminas verdes e pedras ancestrais. As lâminas circulavam as rochas como se fossem anéis de um planeta, girando em alta velocidade em direção a Totodile. O crocodilo azul puxou todo o ar que conseguiu e liberou um jorro de água ainda mais intenso, destruindo parte do ataque antes que o restante o atingisse em cheio.

Totodile tentou se manter de pé. Seu corpo tremia. O veneno queimava em suas veias. Chikorita arfava. Suas pernas afundavam mais na lama.

Totodile!

Chikorita!

Os dois gritos ecoaram ao mesmo tempo.

E então, um clarão envolveu ambos.

A luz ofuscante se espalhou pelo anfiteatro, engolindo os dois Pokémon em um brilho branco intenso. Seus corpos começaram a mudar, transformando-se diante dos olhos atentos de seus treinadores e espectadores.

Chikorita alongou o pescoço, sua silhueta crescendo e tomando contornos mais definidos. O colar de sementes ao redor de seu pescoço expandiu-se, tornando-se um conjunto de folhas espiraladas. A folha em sua cabeça cresceu junto, curvando-se para trás como um broto recém-aberto. Sua pele esverdeada clareou, adquirindo um tom de amarelo pálido, enquanto seu olhar firme transmitia um novo senso de maturidade.

Totodile, por sua vez, ficou mais robusto. Seu corpo aumentou de tamanho, sua mandíbula se alargou e tornou-se ainda mais pronunciada, agora com uma coloração amarelada mais evidente. A marcação em formato de "V" no centro de seu peito deu lugar a um padrão amarelado mais sólido, contrastando com sua pele coriácea azul. No topo de sua cabeça, uma crista vermelha surgiu, estendendo-se para trás como um lembrete de sua força crescente.

Eles estavam evoluindo.

Quando o brilho finalmente se dissipou, Lyra e Silver encararam seus novos Pokémon com olhos arregalados.

Chikorita havia se transformado em uma criatura mais alta e imponente. Sua postura era firme, sua folha arqueada parecia vibrar suavemente no ar. O colar de folhas ao redor de seu pescoço exalava um cheiro herbal intenso e picante, como se emanasse energia viva.

Totodile agora exalava uma aura muito mais feroz. Seu novo tamanho e mandíbula poderosa tornavam sua presença mais intimidadora, e suas presas pareciam ainda mais afiadas, prontas para afundar em qualquer adversário que se aproximasse.

Lyra rapidamente puxou sua Pokédex e apontou para os dois Pokémon:


Bayleef, o Pokémon Folha. Tipo Grama. O pescoço de um Bayleef é cercado por folhas enroladas. Dentro de cada folha há um pequeno broto de árvore. O cheiro picante que exala de seu colar de folhas de alguma forma estimula aqueles que o sentem, despertando neles um forte desejo de lutar.


Croconaw, o Pokémon Bocarra. Tipo Água. Uma vez que Croconaw tenha fixado suas mandíbulas em seu inimigo, ele absolutamente não o soltará. Como as pontas de suas presas são bifurcadas para trás como anzóis farpados, elas se tornam impossíveis de remover quando afundam. Se ele perde uma presa, uma nova cresce de volta em seu lugar. Sempre há 48 presas em sua boca.


Lyra guardou o aparelho no bolso do macacão, sentindo seu coração disparado no peito. A batalha ainda não tinha acabado.

Water Gun! — ela ordenou, sentindo a adrenalina pulsar em suas veias.

Razor Leaf, agora! — Silver contra-atacou de imediato, a voz carregada de urgência. — Vamos finalizar essa batalha!

Os dois iniciais recém-evoluídos responderam instantaneamente. Bayleef balançou sua cabeça, e uma chuva de lâminas cortantes disparou de sua folha e de seu colar de folhas, avançando como flechas certeiras contra Croconaw. O crocodilo inflou o peito, seus músculos se retesando, e cuspiu um jato de água potente, veloz como um dardo.

O impacto dos ataques foi avassalador.

No centro do campo de batalha, as lâminas de Bayleef encontraram a torrente d’água em pleno ar, sendo cortadas, rasgadas e dispersas pelo impacto. Mas algumas ainda passaram, rasgando a pele de Croconaw, deixando pequenos cortes em seu corpo azul e robusto. A força da colisão gerou uma rajada de vento e um estrondo ensurdecedor, ecoando pelos arredores quase como um trovão.

Os dois Pokémon foram arremessados para trás com a pressão do embate. Poeira levantou como uma cortina no campo de batalha, não dava para ver quem tinha ganho. Lyra mal conseguia ver seu Croconaw e o mesmo acontecia com Silver que buscava por seu Bayleef em meio aquela poeira toda.

Sem saber e sem conseguir enxergar nada por conta da visão limitada pela tempestade de poeira, ambos os adolescentes acabaram apoiando nos chifres das estátuas dos Rhydon simultaneamente e um tremor começou ocorrer enquanto os chifres afundavam para dentro da estátua e assim que a poeira começou a sentar, abaixando, só houve tempo para que os adolescentes pudessem correr.

Os degraus de pedra do anfiteatro tremeram, as pedras rangiam em um som aterrorizante enquanto entravam para debaixo da terra, afundando como teclas de um computador. A arena do anfiteatro começou a tremer com mais força, rangendo, o que desestabilizou a todos. Uma armadilha havia sido ativada.

— O que foi isso? — perguntou Tomoki, a voz vacilante.

— Acho que vocês ativaram alguma armadilha… — Khoury começou a dizer, o tom de voz ficando mais urgente. — Eu sabia que isso acontecer. Meu Ho-Oh, por que? Por que? Eu não acredito que vou morrer BV!

— Pernas para que te quero! — gritou Orion.

— Vamos sair daq-

Mas antes que pudesse completar sua frase, um estrondo ecoou. O chão rugiu como uma fera desperta. E então, ele começou a sumir. Placas maciças de pedra começaram a deslizar para trás, flutuando e entrando para dentro de nichos assim como os degraus do anfiteatro. Um mecanismo havia sido ativado. No lugar onde antes havia um piso sólido, restava apenas um abismo negro e sem fim.

CORRAM! — gritou Aleks, o pânico tomando conta de sua voz.

Mas não havia para onde correr. O chão se desmanchava sob seus pés a um ritmo alucinante, engolindo tudo que estava sobre ele. Quadrado por quadrado, placas de pedra enormes enfiavam-se para dentro da terra, alojando-se junto das demais pedras do anfiteatro. Na parte debaixo era possível ver glifos talhados nelas.

Khoury tentou correr em direção a um dos pilares, os braços esticados como se pudesse se agarrar a algo, mas não teve chance. O chão sumiu sob ele em um instante.

NÃO! — Lyra gritou, estendendo a mão.

Mas foi inútil.

O estagiário despencou no vazio, seu grito sumindo rapidamente na escuridão. Os outros não tiveram tempo de processar. O colapso da câmara se acelerava.

— Irmão, me segura! — gritou Kessil tentando alcançar o gêmeo, mas parecia que a gravidade ali era como a de um buraco negro que sugava tudo para baixo, antes que pudesse tocar na mão do irmão ele tinha caído junto na mesma direção que Khoury.

Luca segurava a incubadora contra o peito com todas as forças, os olhos arregalados de puro terror. O chão sumiu sob ele, e o garoto gritou ao cair, desaparecendo logo em seguida. Ren, que tentou agarrar uma das pilastras, perdeu o equilíbrio e também foi tragado para baixo, sua voz sendo engolida pela escuridão, acompanhando Luca, Kessil e Khoury.

Pierce deslizou para trás, tentando se segurar em uma borda, mas não teve tempo, a estrutura se desfez, e ele caiu logo atrás de Aleksey, que sacudia os braços no ar, como se tentando se agarrar ao próprio vento. Orion, que estava perto, desequilibrou-se e caiu junto com os dois meninos.

Silver, num reflexo rápido, lançou-se na direção de Tomoki, segurando-a contra o peito em uma tentativa desesperada de protegê-la. Mas o destino não teve piedade. Ambos foram engolidos pelo vazio.

Lyra e Kousei estavam entre os últimos ainda no chão, seus corpos pressionados contra uma pilastra, o coração disparado, a respiração curta e entrecortada pelo terror. A pedra sob seus pés se resumia a poucos centímetros. O abismo os rodeava.

— O que vamos fazer?! — Lyra gritou, sua voz embargada pelo medo. Ela apertou a mão de Kousei com força, os olhos marejados.

Kousei olhava ao redor, frenético. Não havia salvação.

— Não dá pra fugir... — sua voz saiu num sussurro trêmulo.

E então, a última placa de pedra sumiu. Lyra sentiu o peso da gravidade puxá-la para baixo. Kousei a abraçou forte, colocando sua cabeça sobre seu peito querendo protegê-la. O estômago da garota revirou em um desespero sem igual. O grito preso em sua garganta finalmente escapou quando o vazio a engoliu por completo.

Eles caíram. As trevas os envolveram em um abraço apertado do qual não soltaria eles tão cedo. Entregues ao abismo abaixo.



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