NOVA POSTAGEM !

21 - Hello again, friend of a friend


Tenma

Rota 36, Johto

Segunda-feira, 16 de maio


Tenma realmente queria socar o homem com quem haviam acabado de esbarrar ali na Rota 36. Eles estavam praticamente deixando a rota adjacente a Violet, saindo da floresta de árvores petrificadas e adentrando outra quando aquele sujeito apareceu do nada.

Só de ver aquele sujeito de cáqui fez Tenma ter que respirar profundamente e contar até dez. Tolerar o Silver já era um desafio e Tenma vinha se forçando a lidar com o ruivo há três semanas. Ele tinha aguentado muitas coisas até ali: o gosto intragável do natto servido no refeitório do Centro Pokémon de Violet, a sensação desagradável da camiseta colando em seu corpo suado, até o som constante das botas pesadas de Silver contra o chão. Mas ver aquele homem bizarro, vestido da cabeça aos pés em cáqui, fez brotar dentro dele uma vontade quase incontrolável de cerrar os punhos e desferir um soco bem no meio da cara dele.

O sujeito parecia ter sido cuspido de um documentário sensacionalista sobre civilizações antigas: camisa cáqui desbotada enfiada em uma calça igualmente monocromática, botas de couro gastos, e um capacete de safári que parecia ter sobrevivido a três expedições e dois tufões. Debaixo do capacete, uma juba branca desgrenhada escapava em tufos rebeldes, e seu bigode, também branco e meticulosamente enrolado nas pontas, apenas intensificava sua aura de paródia. Um monóculo pendia de uma corrente fina sobre o olho esquerdo, ampliando o brilho exageradamente entusiasmado do olhar. E, nas costas, ele carregava uma mochila tão grande quanto uma geladeira, de onde escapavam cordas, pincéis, um mapa amassado, uma lupa absurda de grande e todo tipo de bugigangas arqueológicas possíveis.



— Perdão pela intromissão — disse o homem com um sorriso tão deslocado que só servia para piorar as coisas. Seu sotaque galariano era tão carregado que eles poderiam ter respondido na língua dele que ele nem perceberia. — Vocês seriam, por acaso, treinadores a caminho das Ruínas de Alph?

Tenma já preparava uma resposta atravessada, com a língua afiada pronta para o ataque, mas sua irmã o interceptou antes que ele abrisse a boca. Como sempre, Masako agiu primeiro, tentando evitar o desastre.

— Não, não — disse ela, num tom suave. — Só vamos passar pelas ruínas porque elas ficam no caminho para a Rota 32, estamos indo para Azalea.

— Isso mesmo, Azalea — confirmou Aleks, o novo integrante do grupo que havia se juntado a eles há pouco mais de meia hora. E, diferentemente de Silver, Tenma não se incomodava nem um pouco com sua presença.

— Estamos com pressa, moço — cortou Silver, ríspido, a voz grave pingando desprezo. — Se nos der licença.

— Ah, minhas desculpas, claro, claro! Não quis interromper a jornada de vocês — disse o homem, recuando meio passo. — Meu nome é Benjamin Brandon. Sou arqueo-paleontólogo da Universidade de Hammerlocke. Fui convidado pelo Dr. Spencer Hale para ajudá-lo em algumas explorações nas ruínas aqui do vale e…

Tenma revirou os olhos com força. Ele conhecia esse tipo como a palma da mão.

Durante os quase dois anos em que ele e Masako estudaram em Galar, na Academia Fairbairn em Wyndon, esse tipo de “explorador” aparecia com frequência na escola: homens vestidos de cáqui, com botas encardidas e capacetes de safári, posando de especialistas enquanto tentavam bancar os heróis. Costumavam dar palestras no auditório do internato, exibindo vasos rachados e estatuetas cobertas de poeira que diziam ter “resgatado” de templos escondidos em alguma ilha remota no mar de Hoenn, de ruínas soterradas no meio das selvas em Alola, ou no deserto de Unova. Sempre com o mesmo discurso: terem “encontrado” artefatos de uma civilização antiga e primitiva em algum lugar distante.

Tenma se lembrava de uma dessas palestras, onde um desses charlatães passou quase uma hora exaltando cacos de cerâmica encontrados nas Ilhas Sevii. Ou era um fragmento de um mural. Sei lá, nem mesmo ele se importava. Não dava para lembrar se era um mural, uma tigela, ou só um pedaço de telha. O que ele lembrava era o tédio. E o sono. Muito sono.

Os colegas de classe se mostraram educados com o palestrante e toda aquela parafernália chata. Scott, seu colega de quarto, chegou a fazer perguntas, ele lembrou que sua irmã perguntou coisa ou outra, assim como alguns outros garotos do seu dormitório, os professores e até o reitor encheram o sujeito de elogios, enquanto Tenma se mordia para não rir alto. Aquilo era só um grande teatro. Um cosplay acadêmico com direito a adereços.

Agora, de volta à realidade, lá estava Benjamin Brandon remexendo na mochila, puxando um mapa amassado e algumas anotações escritas às pressas.

— Enfim — retomou o homem, animado —, eu estava me perguntando se vocês estariam interessados em me auxiliar na minha expedição. Pago cinquenta mil ienes a cada um. Que tal?

O punho de Tenma se fechou involuntariamente. Ele não gostava nem um pouco daquele sujeito, mas o grupo estava precisando de dinheiro.

Ele e Masako ainda estavam fugindo de seus captores e usando identidades falsas (que Silver havia criado, claro), tentando encontrar o irmão, e qualquer uso de cartão ou conta bancária podia revelar onde estavam. Eles não podiam se dar ao luxo de serem encontrados por aqueles caras. Silver não tinha um centavo no bolso. E Aleks... bem, eles ainda não o conheciam o suficiente para saber se ele tinha grana guardada.

Cinquenta mil era muito dinheiro. Eles precisavam do dinheiro. Se aquele cara iria pagar cinquenta mil para cada um ao total eles teriam duzentos mil que era mais dinheiro ainda. Silver olhou de rabo de olho para Tenma e depois para Masako, voltando seu olhar para o homem galariano em sequência.

— Se importa se eu e meus amigos conversarmos primeiro?

O homem ajustou seu ridículo monóculo e disse:

— Não, não, claro que não — disse ele. — Levem o tempo que precisarem. Teremos muito o que fazer ainda nas Ruínas de Alph. Elas ainda não vão desaparecer.

Silver então pegou Masako pelo braço e Tenma foi logo atrás, Aleks um tanto alheio a tudo foi junto e em um canto perto de uma árvore e, juntos, abaixaram-se e começaram a conversar em um tom mais baixo que o audível para que Brandon não escutasse um “a” da conversa deles.

— A gente vai ter que aceitar o trabalho desse cara — começa Silver. — Não temos um centavo no nosso nome. São cinquenta mil. A gente faz o que tiver que fazer e depois vaza assim que ele pagar.

— Mas aquele cara parece bem suspeito — Aleks virou de costas e viu Benjamin Brandon fazendo algumas anotações em um caderno. — Não gosto dele.

— Ninguém gosta — comenta Tenma por vez. — Não tá óbvio? Eu concordo com Silver, temos que fazer o que quer que esse cara queira e logo somos pagos. Simples assim.

— Tem certeza, nii? — indaga a sua irmã. — Nós realmente precisamos do dinheiro tanto assim?

— São cinquenta mil ienes, Masa-... Tomoki — ele mudou de última hora, quase dizendo o nome de verdade da irmã, um mero deslize da língua, era difícil tudo aquilo de pseudônimos. Ele se perguntava como Silver conseguia. — A gente faz o trabalho mais porco que der.

— E não é lá incomum que treinadores trabalhem ao longo da jornada — complementa Aleks. — Eu não sei vocês, mas por conta da minha agência, volta e meia eu tô fazendo umas publis, isso quando eu não estava em turnê ou ocupado com as coreografias, gravações e composições. Recentemente fiz uma publi pra um café. Teve tipo uns 12 milhões de views só na primeira hora no Go Go Viral.

Tenma voltou seu olhar discretamente para Aleks. Ele nem conhecia o garoto direito, mas olhando para ele, ele realmente tinha o perfil de uma celebridade e pelo que ele falou, o príncipe apenas supôs que Aleks fosse algum tipo de idol. Infelizmente música pop não era um dos gêneros favoritos dele.

— Hã, okay, supermegaestrela, que seja, ninguém liga — diz Silver. — Primeiro vamos topar o que quer que o Benson Bradamante, Barry Blueberry, sei lá o nome dele, esteja propondo. Pegamos o dinheiro e vazamos. Voltamos a procurar o balão e partimos para Azalea. Combinado?

Os três assentiram.

— Como assim balão? — pergunta Aleks.

— Explicamos outra hora — diz Masako sendo gentil com ele.

Os quatro foram em direção ao explorador que aguardava-os. Ele segurava um relógio de bolso encarando os ponteiros como se contasse o tempo para que aceitassem a decisão deles.

— Então — começou Benjamin Brandon sem encará-los. — O que decidiram?

— Vamos aceitar — disse Tenma —Mas vamos querer ser pagos mais que cinquenta mil.

— Irmão! — exclamou Masako encarando-o com olhos arregalados.

— Kousei, você endoidou? — indaga Silver.

— Você é um arqueo-paleontólogo em um expedição arqueológica, vem de uma universidade de prestígio e acredito que o salário que recebe é o suficiente para, não sei, comprar e vender todos os dentes da minha boca — ele disse encarando o homem nos olhos. — Iremos trabalhar por noventa mil. Nem mais nem menos.

— Que ardiloso você, meu jovem — Brandon sorriu, exibindo um canino de ouro maciço. — Sessenta mil.

— Noventa. Não estou negociando, moço.

— Faço por setenta mil ienes, meu rapaz — ele continuou negociando como se fosse um leilão.

Os amigos olharam para Tenma que cruzava os braços encarando o arqueo-paleontólogo sem mudar a expressão facial.

—No-ven-ta — silabou. — Nove vezes dez mil. Ouviu, Sr. Brandon. Noventa mil para cada um aqui e por um, no máximo dois dias trabalhando para você. Não mais. Não menos. Eu não vou mudar a proposta.

— Que sujeitinho difícil você, meu jovem — disse Benjamin Brandon enrolando a ponta do bigode. — Certo. Noventa mil para cada um, mas só poderão seguir viagem em dois dias, se bem que é talvez capaz que terminemos em um.



Ren

Ruínas de Alph, Johto


O grupo saiu do museu e logo encontrou o garoto de óculos, Khoury, que os aguardava do lado de fora junto da Dra. Wehrii e seus dois sobrinhos. Ele estava distraído, concentrado no celular, lendo algo com atenção. No entanto, ao notar a aproximação do grupo, ergueu a cabeça rapidamente e guardou o telefone no bolso.

— Os convidados do Mr. Pokémon — disse Khoury, ajustando os óculos no rosto. — Venham comigo. O Professor Hale está escavando uma nova câmara nas ruínas ao sul. Essa área foi descoberta recentemente e ainda nem foi aberta ao público.

— Sério? — Ren ergueu as sobrancelhas, intrigado.

— O que encontraram por lá? — perguntou Pierce, animado. — Algum fóssil? Eu adoraria encontrar um fóssil de Pokémon.

— Se encontrarmos algum fóssil podemos ficar com ele? — diz um dos gêmeos empolgados.

— Bem… ainda não achamos nenhum fóssil — diz Khoury. — O Prof. Hale sabe que tem uma jazida fossilífera aqui no vale, por que no passado aqui já foi um lugar inundado, esteve debaixo do mar e tal…

— Como tudo no Cambriano — disse a Dra. Wehrii. — É aí que eu entro, mas enfim, é bom ver estas ruínas. Há cinquentas anos atrás quando o Professor Silktree começou as escavações isso aqui era só um vale tomado pela vegetação. É estranho pensar nisso.

— Sim — disse Khoury. — Hoje o Silktree tá com uns 78 anos. Ele passou tudo isso para o Professor Hale. Você precisa ver o que ele fez com esse lugar. Mais ao sul, nas ruínas recém-escavadas, encontramos estátuas e tabuletas com hieróglifos Unown. O professor batizou essa área como “As Vinte e Oito Mansões” porque há sete templos distribuídos em quatro setores das ruínas ao sul. Ele acredita que essas estruturas pertenciam a uma civilização mais antiga do vale.

— Maneiro — comentou Luca. — Aposto que deve estar cheia de múmias e tesouros.

— Quem sabe? — Khoury deu de ombros, divertido. — Algumas tumbas já foram abertas à visitação. Encontramos os corpos bem preservados de alguns reis e rainhas que governaram esta região no passado. A tumba da Rainha Vermelha é uma das mais visitadas.

— Rainha Vermelha — brincou Pierce. — Isso não é o nome de um livro de fantasia?

Khoury riu, mesmo sem entender completamente a piada, e apenas deu de ombros.

— Na verdade, a cor se refere à tumba onde o corpo dela foi encontrado — explicou. — Infelizmente, não se sabe os nomes real dela. As inscrições nas placas Unown ainda são um mistério, e a linguagem usada é bem diferente da que conseguimos traduzir até agora. O Professor Hale e sua equipe estão trabalhando nisso.

— Deve ser um trabalhão e tanto — diz Orion.

— Eu nunca conseguiria fazer isso — acrescenta Lyra.

— Não é um trabalho fácil — explica Khoury a eles. — Mas os pais do Professor Hale já estavam na equipe de escavação do Silktree décadas atrás, eles quem foram as primeiras pessoas há traduzirem os hieróglifos Unown. Bem, chegamos às ruínas sul.

Khoury apontou mais a frente no horizonte. O grupo parou para observar o cenário à frente. Construções de pedra antigas se erguiam no vale abaixo, formando um labirinto de escadarias e passagens subterrâneas. Os templos desciam em degraus até as áreas mais baixas, onde algumas estruturas pareciam parcialmente soterradas pelo tempo.

— O Professor Hale deve estar na nova câmara que descobrimos recentemente — continuou Khoury. — Não fica muito longe daqui.

O grupo começou a descer uma longa escadaria esculpida na escarpa da rocha. Os degraus eram irregulares e gastos pelo tempo, cobertos por pequenas fissuras e musgo em alguns trechos. O ar ali embaixo parecia mais fresco, carregado pelo cheiro terroso das ruínas antigas.

À medida que avançavam, construções de pedra imponentes começaram a surgir ao redor. As ruínas estavam repletas de estátuas de Pokémon como Rhydon, Alakazam e Pidgeot. A maioria das esculturas exibia marcas do tempo, algumas estavam sem cabeça, outras rachadas ou cobertas de líquens.

O centro daquela parte do sítio arqueológico era dominado por uma plaza circular, que dividia as ruínas em quatro setores distintos. Agora fazia sentido o nome "Vinte e Oito Mansões" que Khoury mencionara antes. Sete grandes templos estavam distribuídos em cada um dos quatro setores, cercados por esqueletos de antigas residências e ruas desgastadas pela erosão.

Khoury conduziu-os até um dos maiores prédios, cuja entrada era ladeada por colunas ornamentadas com símbolos Unown gravados na pedra. Dentro, um burburinho baixo ecoava pelo espaço amplo. Pesquisadores e escavadores trabalhavam em várias frentes — alguns analisavam artefatos espalhados sobre mesas de pedra, enquanto outros catalogavam tabuletas repletas de hieróglifos.

No meio do salão, dois homens conversavam. O primeiro, que parecia estar no comando, tinha cabelos longos e escuros, presos atrás das orelhas, e vestia um colete por cima da camisa. O outro era um homem já velho em roupas estereotipadas de explorador, com um chapéu e roupas de safári, além de um mochilão abarrotado. Os cabelos e o bigode eram brancos, seu rosto já apresentava as marcas da idade, não devia ser mais velho que Mr. Pokémon ao que aparentava. Seu olhar era afiado, e havia algo nele que parecia vagamente familiar para Ren, como se já o tivesse visto antes, talvez na TV, ou em alguma revista.

Além dos pesquisadores, quatro grandes estátuas erguiam-se no salão como pilares que sustentavam a estrutura. Suas formas eram imponentes: figuras humanoides do torso para cima, mas com cabeças adornadas por chifres que variavam de um a quatro dependendo da estátua. Os corpos das estátuas sumiam em uma nuvem e, por trás de seus corpos, surgiam estranhas caudas.


Ren encarou as estátuas um tanto maravilhado. Pierce e Luca, assim como Lyra e os gêmeos Wehrii ignoraram-as, mas ele sentiu um pouco hipnotizado pela presença daquelas quatro estátuas.

— Legal, não é? — Khoury disse, um tanto próximo de Ren. — Eles são os Quatro Deuses Auspiciosos. Tem muitas estátuas deles pelo vale, tanto nas ruínas norte quanto nas sul.

— E o que eles representam? — perguntou para o garoto de óculos.

— Várias coisas, tipo o ciclo das estações, fertilidade, os ventos e as chuvas — explicou Khoury que começava a mexer as sobrancelhas de um jeito estranho. — Amor…

Ren olhou de canto de olho para o garoto e deu alguns passos mais para frente para mais perto dos amigos.

— Professor Hale! Professor Hale! — chamou Dra. Wehrii, acenando com entusiasmo.

O homem de cabelos compridos e escuros virou-se com um sorriso largo ao reconhecer a voz.

— Dra. Ossie! Osmunda Wehrii, minha querida! — exclamou. — Não nos vemos desde aquele sarau de Ano Novo no Museu da Universidade de Goldenrod! Que surpresa maravilhosa!

Seus olhos então recaíram sobre o grupo.

— Ah, e vocês devem ser os convidados do Mr. Pokémon. Que sorte a minha! Justamente quando eu e o Dr. Brandon estávamos debatendo sobre os Quatro Deuses Auspiciosos!

— Sim, sim, estávamos comparando essas estátuas com outras encontradas em sítios de Unova e Sinnoh — disse o homem ao lado, com um tom mais grave e pausado, ele tinha um sotaque galariano evidente. Tinha um bigode imponente e uma presença tranquila. — São figuras recorrentes em várias culturas. Acreditamos que representem um grupo de Pokémon lendários conhecidos como as Forças da Natureza.

— Um grupo? — repetiu Pierce, franzindo a testa. — Eles são todos lendários?

— Exato — respondeu Dr. Brandon. — Quatro, para ser preciso. Tornadus, o autor dos ventos. Thundurus, o criador dos raios e trovões. Landorus, o deus dos campos e das terra fértil. E Enamorus, o deus da primavera e do amor e ódio.

— Eles são como o Ho-Oh e o Lugia? — perguntou Lyra, curiosa. — Minha avó me levava ao templo de New Bark, e todos os anos visitamos o Santuário de Ecruteak.

— Em essência, sim — respondeu Hale, pensativo. — Mas a adoração a esses quatro é ainda mais antiga. Esta civilização floresceu muito antes de Ecruteak sequer existir.

Ele então pareceu lembrar-se de algo.

— Aliás, que falta de educação a minha! Spencer Hale, ao seu dispor. Imagino que um de vocês, ou mais de um, seja neto do Mr. Pokémon?

— Eu! — disseram Luca e Pierce ao mesmo tempo.

Hale piscou, surpreso. Um sorriso brotou em seu rosto.

— Dois netos? Curioso… Eu tinha a impressão de que Christina só tinha um filho. Ela é mãe de vocês dois ou só de um? — Ele riu, coçando o queixo. — Bem, é um prazer conhecê-los. Estagiei com o avô de vocês há muitos anos. Como está a Christina? Ela ainda dá aulas de artes?

— Está de licença-maternidade — respondeu Pierce, direto.

— E agora só ensina aulas particulares — completou Luca, dando de ombros. — E sim, é a nossa mãe.

— Mais ou menos — corrigiu Pierce, cruzando os braços. — Ela é minha mãe biológica. Se separou do meu pai anos atrás e casou com o pai do Luca. Então... meio-irmãos.

— Ahh, agora tudo faz sentido! — disse Hale, com um aceno compreensivo. — Que família interessante! E é sempre bom ver gerações cruzando caminhos de novo.

Ele se virou para o restante do grupo.

— Mas ainda não sei o nome de vocês. Vamos corrigir isso?

— Eu sou Pierce — disse ele, com um breve aceno. — E esse é o Luca, como já deu pra perceber.

— E aí! — respondeu Luca com um sorriso atrevido.

— Lyra — disse ela, simpática, com um aceno discreto.

— Ren — completou o último, mais tímido, mas firme.

— Muito bem, agora estamos devidamente apresentados! — disse Hale, animado. — E vocês, Orion, Kessil... bom ver que estão bem, espero que estejam com um comportamento melhor que no sarau de Ano Novo.

Os gêmeos Wehrii acenaram de forma contida, mas com um leve sorriso.

— Bem, eu fico estupendamente feliz que temos tantos jovens aqui conosco nas ruínas — disse o Professor Hale. — Há outros quatro jovens nas câmaras mais a frente. São seus assistentes temporários, não é Dr. Brandon?

— Sim, sim — assentiu o homem. — Os encontrei na floresta petrificada próximo à Rota 36. Eu precisava de ajuda e mão de obra e eles pareceram solícitos. Pedi para que eles fizessem um breve registro desta parte do vale. Talvez possamos encontrar algo maravilhoso.

Ele enfatizou a palavra maravilhoso com tanto sabor que Ren arquejou as sobrancelhas em estranhamento.

— Por que não exploram um pouco também? — sugere Spencer Hale. — Deixe que eu, o Dr. Brandon e a Dra. Wehrii façamos a investigação e o trabalho de adulto e vocês crianças possam andar pelo sítio arqueológico. Só peço que tomem cuidado, okay? Khoury, poderia supervisioná-los?

O estagiário de óculos assentiu com a cabeça que sim.

— Perfeito — disse o Professor Hale. — Podem explorar livremente, mas eu peço que voltem a esta câmara ao meio-dia para que possamos almoçar no restaurante do museu. Okay?

Após um uníssono de sins e tá bom, os adolescentes se dispersaram, sendo pastoreados por Khoury pelos corredores, indo pelas câmaras amplas com murais extremamente elaborados. Ren encarava as figuras e os hieróglifos nas paredes, muitos deles, se não a maioria, eram compostos por figuras ciclópicas cujos olhos pareciam acompanhar seus passos o que só fez os pelos de sua nuca arrepiarem.

As pinturas nas paredes mostravam muitas cenas de pessoas e Pokémon convivendo lado a lado, todo o tipo de Pokémon diferente vivendo com fazendeiros, idosos, filósofos, artistas, nobres, todos em harmonia perfeita, mas talvez o que chamou mais atenção do garoto foi a pintura mais ao centro de tudo.

A pintura era de um homem barbado usava longas vestes cuja tonalidade original era difícil de discernir, talvez um dia tivessem sido verdes ou azuis. Ele portava uma coroa ornamentada com pedras coloridas, usando anéis e colares de ouro, o que indicava que poderia ter sido alguém de grande importância. Um rei. Ele era cercado por todo tipo de Pokémon, mas dois deixaram Ren um tanto encafifado. Não era nada como ele conhecia.

Esses Pokémon lembraram os glifos nas paredes, mas ao mesmo tempo eram diferentes dos demais símbolos. Possuíam formas simplificadas, ciclópicas, com olhos semicerrados e corpos curvos, mas cada uma ostentava uma antena distinta: a figura da direita tinha uma antena reta, semelhante a um bastonete, enquanto a da esquerda possuía uma antena curva, parecendo um gancho. Quase como se… como se fosse um ponto de interrogação e um de exclamação. Talvez não…

Ren franziu o cenho.

Havia algo familiar naqueles símbolos, algo que lhe escapava por um instante. Ele puxou sua Pokédex, o presente que recebera de Mr. Pokémon, e apontou para o mural, ativando a função de escaneamento. O visor brilhou em azul antes de exibir os dados.


Unown, o Pokémon Símbolo. Tipo Psíquico. Suas formas remetem a hieróglifos encontrados em tabuletas em sítios arqueológicos. Não se sabe quem veio primeiro: a escrita ou os Unown. A pesquisa continua em aberto em alguns círculos científicos. Há mais de vinte formas catalogadas desses Pokémon. Sua mera existência e comportamento é debate entre alguns especialistas.


Ren leu a descrição na tela uma, duas vezes. Seu olhar oscilava entre a Pokédex e os glifos na parede. Ele sentia que deveria entender algo mais… algo que estava bem ali, mas ainda escapava à sua compreensão. Então, seus olhos se ergueram novamente para os glifos. E ele congelou.

Por um instante fugaz, teve certeza de que os olhos esculpidos nas paredes haviam se movido. Um tremor percorreu sua espinha, e sua respiração ficou presa na garganta. Talvez fosse só sua mente pregando peças. Ele piscou, o coração acelerado, e forçou-se a olhar de novo. Os glifos permaneciam inertes, imutáveis, como sempre estiveram. Mas a sensação estranha não o abandonou. Foi então que uma voz irrompeu o silêncio, fazendo-o dar dois passos bruscos para trás, quase caindo para trás.

— Ren-ren!

Ele virou-se de súbito, os ombros ainda tensionados. Era Pierce, chamando-o do outro lado da câmara.

— Vem ver o que encontramos! — chamou Pierce, a empolgação vibrando em sua voz. — O Luca achou um trono! E tem um cetro e uma coroa também!

Ren arqueou uma sobrancelha, intrigado, mas antes que pudesse sequer responder, sentiu a mão do amigo agarrar seu braço com firmeza.

— Ei, espera! — protestou, tropeçando um pouco ao ser arrastado com energia para longe do mural.

No entanto, ele não resistiu de verdade. Na realidade, talvez fosse melhor mesmo se afastar daqueles glifos hipnóticos, daquela sensação incômoda de estar sendo observado. Ainda assim, conforme atravessavam a câmara rumo à passagem estreita, Ren não conseguiu evitar, ele virou-se para trás, apenas por um instante, lançando um último olhar para os hieróglifos entalhados na pedra. Eles estavam lá, inertes como deveriam estar. Mas algo dentro dele dizia que não era bem assim. 

No instante em que se virou… ele jurou que um dos Unown piscou. Seu coração apertou no peito.

Ren tentou respirar calmamente. Fechou os olhos por um momento, concentrando-se no som de seus próprios passos e no aperto firme de Pierce o guiando. Talvez, se simplesmente se deixasse levar, aquela sensação de desconforto desaparecesse.

Ao atravessarem a passagem estreita, caminharam em direção à luz do sol que filtrava timidamente por entre as árvores. Logo estavam em um ambiente aberto: um grande anfiteatro tomado por vegetação rasteira, com algumas árvores dispersas e retorcidas. O sol iluminava os degraus de pedra que levavam ao palco, onde Luca, sentado num trono esculpido na rocha, reinava soberano.

Com um bastão na mão, usado como cetro, e uma coroa improvisada na cabeça, Luca comandava seu “reino” com toda a pompa e circunstância. Lyra e os gêmeos Wehrii curvavam-se exageradamente diante dele, entre risadas e exclamações.

— Servos, tragam-me um banquete! — bradou Luca, erguendo o cetro com toda a teatralidade que conseguia, apontando para os gêmeos. — Tudo servido em pratos de ouro, cravejados com rubis e safiras! Nada menos que o melhor para o rei!

— Mas, milorde, os pratos de ouro acabaram! — retrucou Kessil, levando a mão ao peito como se prestasse um juramento dramático. — Só temos os de prata… e alguns estão meio tortos, sabe?

— Tortos? — Orion acrescentou, sorrindo malicioso. — Eu diria mais que eles parecem ter passado por uma batalha contra um Machamp!

Luca fez uma careta, fingindo horror.

— Então que seja prata! — decretou Lyra, cruzando os braços com um sorriso sagaz. — E que os rubis virem morangos! Ou… morangos de verdade mesmo, que são mais gostosos. Mas antes, carrasco, cortem-lhes a cabeça!

Gargalhadas ecoaram pelo anfiteatro, quebrando a rigidez da antiga pedra e enchendo o ar com alegria juvenil.

Ren e Pierce se aproximaram dos amigos, ambos esboçando um sorriso enquanto os adolescentes brincavam. Khoury era o único que não se divertia; estava de braços cruzados e olhava de soslaio, do canto do anfiteatro.

— E aí, do que estão brincando? — perguntou Ren.

— Vejo que o Cavaleiro das Terras das Cerejeiras Eternas chegou — disse Luca com falsa pompa. — Estamos só brincando de rei. Eu encontrei esse bastão e uma coroa aqui e resolvemos fazer a festa. Tá sendo divertido.

— Seria mais divertido se você deixasse a gente brincar de rei também — disse Kessil.

— Vocês não deviam estar brincando com essas coisas — alertou Khoury. — Estamos em ruínas antigas, nunca se sabe o que podemos encontrar. Podem acabar danificando uma relíquia nessa brincadeira.

— Khoury, pare de bancar o vovô chatonildo! — respondeu Orion.

— É, você está sendo bem chato agora, cara — acrescentou Pierce. — A gente é adolescente, se continuar assim você vai ficar mais enrugado que meu avô.

— Vamos brincar um pouquinho — sugeriu Lyra, convidando o garoto.

— É, não vejo por que não — falou Ren. — Podemos nos divertir um pouco. Não foi isso que o Profê Hale ia querer enquanto exploramos?

Khoury corou, os óculos redondos embaçaram um pouco.

— Tá bom, tá bom, tá bom... — cedeu ele. — Mas nada de ficar nessa por muito tempo, ouviu?

Khoury se juntou à brincadeira, naquela vez quem foi o rei foi Lyra e eles continuaram encenando por um bom tempo, sobrando até para os gêmeos que no fim não conseguiam decidir quem queria ser o rei ou não. Infelizmente a brincadeira não durou muito tempo, já que vozes, junto de passos vinham em direção ao anfiteatro.

Não demorou muito para que os recém-chegados surgissem à vista, deviam ser os assistentes temporários que o Dr. Brandon havia dito. Era um grupo de adolescentes, todos da mesma idade que eles, mas não eram estranhos. Pelo contrário.

Ren conseguia identificar os rostos daqueles quatro jovens, trazendo memórias da semana anterior quando ainda estavam na cidade de Violet. Alguns eram apenas conhecidos de vista, enquanto outros estavam mais gravados em sua mente. Aleks, o coordenador de sorriso sempre presunçoso, caminhava à frente, o que fez Ren corar de imediato. Logo atrás dele, vinham duas figuras ainda mais marcantes: Silver, com seus cabelos vermelhos longos e a jaqueta de motoqueiro e Tomoki, a garota de cabelo com corte hime e o cardigã rosa fofinho, que Ren e Pierce haviam ajudado quando se aventuraram na mata perto de Violet, na tarde em que acabaram invadindo uma casa abandonada para salvá-los de um Ariados selvagem.

Mas havia um quarto integrante no grupo, um garoto alto de cabelos azulados. Seus traços eram semelhantes aos de Tomoki, o que levantou a possibilidade de serem irmãos, talvez gêmeos, mas diferente dos Wehrii, eram gêmeos fraternais. Ele era alto e bonito com aquela camiseta preta cavada e os jeans largos. Ele virou-se para o lado e viu Lyra também ficar de rosto vermelho ao ver ele. 

A surpresa inicial foi rapidamente substituída por exasperação quando Pierce cruzou os braços e lançou um olhar afiado na direção de Aleks.

— De todos os lugares do mundo, você tinha que aparecer justo aqui? — indagou Pierce, a voz carregada de irritação. — Isso já tá começando a parecer perseguição.

Aleks sorriu, com um brilho travesso nos olhos, e acenou casualmente.

— Oizinho pra você também.

— Que coincidência ver vocês por aqui — disse Tomoki, os lábios pequenos se curvando num sorriso leve. — Oi, Lyra! Oi, Pierce! Oi, Ren!

— Oi, Lyra — cumprimentou o rapaz de cabelos azuis ao lado de Tomoki. — Hey, Luca, tudo bom?

— O-oi, Kousei — disse ela, o rosto violentamente ruborizado.

Ren, Pierce e Luca retribuíram os cumprimentos. Silver foi o único que ficou em silêncio, levantou a gola da jaqueta de motoqueiro e tentou se manter mais ao fundo, despercebido, mas em vão.

Um dos gêmeos, Kessil, ergueu o pescoço e tomou mais à frente, se intrometendo, porém sem ser rude.

— Vocês conhecem eles? — perguntou Orion. — Que bom que vocês podem nos apresentar aos seus amigos. Eu sou Orion, e esse é meu irmão Kessil.

— E aí — acenou Kessil.

— Ah, pronto, mais gente — bufa Khoury baixinho, revirando os olhos.

— Não liguem para o Khoury — disse um dos gêmeos. — Ele é adolescente, mas tem alma geriátrica.

— Ei!

Os demais riram.

— Que coincidência encontrar vocês por aqui — disse Lyra. — Não pensei que os veria tão cedo. Nem faz tanto tempo desde que nos vimos em Violet.

— Também não — falou Tomoki. — O que estão fazendo aqui?

— Viemos a convite do Prof. Hale — explicou Pierce. — Sabe, Mr. Pokémon. O pesquisador-chefe de Johto antes do Elm.

— Oh… Que… hã, legal — disse Kousei. — Estamos aqui porque, honestamente, precisamos do dinheiro, e o Benjamin Brandon nos ofereceu esse emprego como assistentes temporários.

Vocês vão receber por isso?! — exclama Kessil.

— A tia Ossie nos fez trabalhar de graça! — reclamou seu irmão, Orion. — Injusto!

Os demais riram.

— Nós estávamos voltando agora de uma câmara não muito longe daqui — disse Aleks. — Estava cheia de hieróglifos com olhos. Os olhos pareciam nos encarar, né, Silver?

Silver continuava em silêncio. Diferente dos outros, não trocava olhares nem fazia menção de cumprimentá-los. Pelo contrário, parecia recuar discretamente, como se tentasse diminuir sua própria presença.

Lyra inclinou a cabeça, observando-o atentamente. Seus olhos perscrutavam o rosto do garoto ruivo, que, desconfortável, levantou uma das mãos enluvadas para cobrir parte do próprio rosto.

— Espera… Seu rosto me é familiar — disse ela, a voz firme e carregada de reconhecimento. Um silêncio pesado pairou entre o grupo. — Já te vi antes.

Silver enrijeceu. Os olhos de Lyra se estreitaram ainda mais, a memória trabalhando rápido para ligar os pontos. Então a conclusão veio como um estalo.

— Você… — apontou, com tom acusatório — é o garoto que roubou um Pokémon do laboratório do Professor Elm!

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