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24 - O Caos e a Noite Eterna


Lyra

Subterrâneo das Ruínas de Alph, Johto

Segunda-feira, 16 de maio, ano 30 (Era Tōitsu)


Ela se agarrou a Kousei enquanto caíam em meio àquela escuridão gritante.

Ela sempre odiou alturas, desde que tinha sete anos, quando ficou presa no alto de um catavento em New Bark. Mas odiava ainda mais a sensação de cair. Era excruciante, torturante; ela estava caindo no nada. Lágrimas ardiam nos cantos dos olhos enquanto seu coração subia pela garganta.

A escuridão abissal parecia engoli-los por completo, como a boca escancarada de uma fera selvagem ansiosa para devorar presas fáceis. O vento rugia em seus ouvidos e seu cabelo chicoteava contra seu rosto enquanto eles mergulhavam cada vez mais fundo no vazio. Não havia chão visível abaixo, apenas a escuridão interminável e voraz do abismo abaixo deles.

Ela não conseguia parar o pensamento que se enrolava em sua mente: O que nos espera no fundo? Um rio subterrâneo turbulento? Espinhos de pedra afiados? Morte certa?

Nem mesmo ela sabia. O pânico a enchia como um balão pronto para estourar.

Sua mão apertou ainda mais a camiseta de Kousei, os dedos enrolados no tecido com uma força desesperada, as pontas suas unhas rasgando pequenos buracos enquanto ele se agarrava a ele. A sensação dos braços dele ao redor do seu corpo, sua pele quente, o batimento acelerado do coração contra seu rosto, era a prova de que ele estava ali. Ela não estava sozinha.

Sua respiração vinha em curtos e ofegantes suspiros.

Lyra nunca fora religiosa, não como sua avó Lucinda, que sempre acendia dois incensos antes de abrir a casa de chá e ia semanalmente ao santuário rezar para o deus Ho-Oh. Ela deixava oferendas no altar da família durante os feriados, nos aniversários do seu falecido marido, o avô de Lyra, que ela nunca conheceu, e da mãe de Lyra, Theresa, que morreu de uma doença quando Lyra tinha apenas seis anos.

Agora, ao cair livremente no abismo sob as Ruínas de Alph, Lyra se viu rezando ao deus pássaro. Uma prece desesperada para um momento desesperado.

— Eu não quero morrer. Por favor, Ho-Oh, me salve... — ela chorou, murmurando uma prece silenciosa. — Se eu morrer, deixe que eu volte como algo melhor. Eu não quero morrer... por favor... não agora…

Ela tinha acabado de começar sua jornada. Dias atrás, conquistara sua primeira insígnia em uma batalha feroz de três contra um contra Falkner, e venceu, tinha sido a batalha mais memorável dela até agora. Ela também acabara de lutar a pouco contra Silver e viu seu Totodile evoluir para Croconaw no meio da batalha, seu primeiro parceiro que ela tinha escolhido em New Bark semanas atrás.

Ela tinha feitos novos amigos e estava criando novas memórias. Ela tinha mais lugares para ir, mais pessoas para conhecer, mais Pokémon para encontrar, mais fotos para tirar, mais páginas de seu diário para preencher. Ela não queria morrer. Ela não podia morrer. Não ainda. Não agora que a vida dela tinha acabado de começar.

— Eu não quero... Eu não quero morrer, por favor... — lágrimas ardiam seus olhos enquanto ela se agarrava à camiseta de Kousei, já úmida, enterrando o rosto no peito dele. — Deixe-me viver…

Ela não sentia esse medo desde os sete anos, quando ficou presa no topo do catavento em New Bark. A mesma sensação de impotência agora a consumia por dentro. O pânico era o mesmo, o mesmo desespero rouco, a mesma impotência infantil. Sua respiração vinha em lufadas trêmulas e descontroladas, enquanto a gravidade continuava seu puxão cruel, arrastando-a e a Kousei para baixo.

Ela tinha acabado de dar seus primeiros passos fora de New Bark. Agora, estava dando os últimos, direto para o fundo de um abismo.

— Por favor, eu não quero... — sussurrou entre soluços. — Eu não quero morrer…

Quanto tempo eles tinham caído? Parecia uma eternidade, e, ao mesmo tempo, apenas segundos. A mente de Lyra não conseguia processar a passagem do tempo naquele vazio sufocante. Mas antes que pudesse sentir seu corpo se chocar contra o chão…

Eles pararam de cair. Como se, por um momento, a própria gravidade tivesse sido desligada. Ou como se o tempo tivesse congelado, pausado, como se alguém tivesse apertado o botão no controle remoto.

Quando Lyra abriu os olhos, percebeu que ela e Kousei estavam flutuando, suspensos no ar, metros acima de estalactites afiadas que se erguiam do chão de pedra cortante da caverna abaixo. Como isso era possível?

Seus corpos permaneciam suspensos. Kousei a encarava, tão atônito quanto ela.

— O que... o que está acontecendo? Estamos... flutuando? — perguntou, olhando fixamente para ela. — Por que seus olhos estão brilhando prateado?

Prateado? Mas os olhos dela eram um tom quente de castanho-avelã, quase como chocolate, eles não eram prateados. Como ele conseguia enxergar aquele tom naquele breu?

Antes que qualquer um dos dois pudesse dizer outra palavra, eles começaram a cair novamente. As mãos de Lyra se apertaram ainda mais na camiseta de Kousei, rasgando buracos maiores no tecido, mas desta vez a descida era diferente, mais lenta, mais suave, como se a gravidade estivesse sendo restaurada aos poucos.

Eles flutuavam para baixo como sementes de dente-de-leão, leves como o ar. Uma queda macia, mas não menos aterrorizante. Os dois caíram de costas no solo, Lyra ainda encarava os olhos do menino, as mãos afundadas nos buracos que rasgara com as unhas na camisa dele involuntariamente.

— O que acabou de acontecer…? — ele perguntou, encarando-a.

— Eu não sei… — é o que ela pôde responder.

— Você é psíquica? — ele perguntou, tentando ser gentil, ele estava tão confuso quanto ela.

Lyra negou com a cabeça. Pessoas com poderes psíquicos não eram algo desconhecido. Raro talvez, sempre havia alguém com algum poder paranormal por aí pelo mundo, mas na família de Lyra? Não. Ao menos não que ela saiba…

— Bem, que bom que estamos a salvo — ele disse dando um prolongado suspiro. — Queria saber como os outros estão…

— Eu também — ela disse, olhando cabisbaixa, pensando em como estariam Ren, Luca ou Pierce.

— Deveríamos procurar eles — disse Kousei tentando se levantar e estendendo a mão para Lyra logo em seguida, ajudando-a a ficar de pé. — Eu estou preocupado com minha nee-chan e…  e com Silver… Mas precisamos sair primeiro daqui.

Ele pegou uma Pokébola no bolso da blusa amarrada na cintura e atirou-a no ar e dela saiu seu Vulpix. A raposinha se revelou, suas seis caudas sacudindo. Lyra via que o Pokémon estava melhor que da última vez que o vira. Não estava mais magro e abatido, tinha um ar mais sadio e o pelo tinha uma tonalidade mais vívida.

— Vulpix poderia usar Will-O-Wisp para iluminar a caverna? — pediu para a raposa que assentiu e conjurou um fogo azul bruxuleante que iluminou os arredores com uma luz fria espectral. — Venha, temos que procurar os outros.

Lyra assentiu. Ela estava morta de preocupação. Tinha sido uma queda longa, só os deuses sabiam o que poderia ter acontecido ali. Todos haviam se separado aparentemente e agora eles estavam divididos e sozinhos naquele subterrâneo imenso.

Luca. Ren. Pierce. Os gêmeos Wehrii. Tomoki. Até mesmo o estagiário do Professor Hale, Khoury. Ela se preocupava com todos, menos… menos com Silver.

Ela não entendia como alguém como Kousei e sua irmã podiam andar tão livremente com um ladrão de Pokémon que nem Silver. Ele não parecia ter nenhum arrependimento de ter roubado aquele Chikorita do laboratório do Professor Elm e também não parecia se arrepender de ter sido acusado como ladrão.

— Por que você anda com Silver? — pergunta ela, logo de cara.

— É uma história complicada e um pouco longa — ele disse em resposta enquanto caminhavam por entre as estalagmites altas como colunas de pedra. — É uma troca. Eu e a Tomoki estamos ajudando ele e em troca, ele nos ajuda. Como é a expressão? Mais vale um Pidgey na pedra do que uma pedra na mão….

— Mais vale um Pidgey na mão que dois voando — ela corrigiu-o.

— Isso! — exclamou. — Mas não quero que pense que eu só conivente com tudo que Silver faz. Eu sei que ele roubou aquele Chikorita…

— E por que não fez nada?! — exclamou, sua voz ecoando pela caverna, logo acima era possível ouvir o chilrear de de Zubat e Golbat.

— Não é fácil, Lyra, não é como se eu tivesse escolha — disse respondendo-a. — mas se não for por Silver, ninguém poderá ajudar eu ou a minha irmã. Não quando alguém que eu amo corre perigo…

Lyra encarou-o por alguns segundos, para alguém que parecia forte o tempo todo Kousei parecia frágil como porcelana, apenas um pequeno impacto e ele iria quebrar em mil e um cacos e não adiantaria colar esses cacos de novo. Quando se colava porcelana ela apenas quebraria de novo com mais facilidade.

— Eu e a minha irmã voltamos de Galar recentemente, sabe? — ele começou, encarando Lyra nos olhos, ela nunca havia reparado bem, mas ele nunca encarava direto nos olhos das pessoas. — Junto com nosso irmão caçula. E fomos para o funeral do nosso tio-avô. Ele morreu de uma doença… Foi repentino, mas foi a primeira vez em anos que eu e meus irmãos voltamos para casa. Quando estávamos voltando para casa, bem, tinha esses caras no carro que veio nos buscar e eles nos sequestraram…

— O quê?!

— A Tomoki e eu conseguimos fugir, pulamos do carro — ele continuou. — Não conseguimos salvar o Mi… o meu irmãozinho. Eu e ela andamos procurando por pistas para saber onde ele pode estar e…

Lyra compadeceu. Ela não sabia da situação.

— É por isso que você anda com Silver? — perguntou ela, ele apenas assentiu com a cabeça. — Ele está ajudando vocês. Ajudando a encontrar o irmão de vocês…

— Eu te disse… Não é fácil, Lyra — ele fala após um logo suspiro. — Vamos andando logo. Não quero perder outra pessoa da minha família…




Dante

Subterrâneo das Ruínas de Alph, Johto



A escuridão os envolvia como uma mortalha pesada, engolindo os três adolescentes por completo enquanto despencavam no largo abismo abaixo do anfiteatro. Ele não tinha intenção, mas como ele iria saber que o chifre do busto do Rhydon era uma alavanca de um alçapão?

Dante e Tomoki mergulhavam naquela sombra tartárea, arrastados pela gravidade implacável logo após a batalha no anfiteatro. O estrondo da armadilha se fechando acima deles já era apenas uma lembrança, substituído pelo uivo silencioso do vazio.

Do momento em que o chão havia começado a sumir embaixo de seus pés no anfiteatro quando a poeira da batalha abaixou seu primeiro instinto tinha sido se jogar para cima de Tomoki e protegê-la, mas tinha sido em vão, ambos acabaram sendo tragados para dentro do abismo.

Nada daquilo teria acontecido se ele não tivesse cedido à pressão. Se ele tivesse rejeitado a batalha de Lyra e suas provocações e acusações da menina, mas no fundo ela estava falando a verdade.

Ele tinha roubado o Chikorita do laboratório do Professor Elm, em New Bark semanas atrás. Assim como havia roubado o Sneasel de Annie, mas nesse caso, ele estava fazendo a coisa certa, ele sabia que o potencial do gato-doninha nunca seria explorado nas mãos daquela mulher, de uma das agentes de alto escalão da Equipe Rocket e, bem, Sneasel havia se apegado a ele. Era praticamente seu ás.

Desde que fugira das profundezas do QG da Equipe Rocket em Mahogany, Dante vinha pavimentando uma estrada feita de mentiras, furtos e traições. Assumira o nome Silver Crocell, uma nova identidade, afinal o mundo não podia saber quem ele era. Para os olhos públicos, o filho e a esposa de Giovanni haviam desaparecido após os acontecimentos na Silph Co. E bem, Dante havia desaparecido, ele havia sido sequestrado por Próton e Petrel, mas conseguiu escapar depois de três longos anos. Ele precisava se tornar forte para eliminar a organização. Desmantelá-la. Só assim poderia achar a sua mãe.

Ele invadiu os sistemas da Liga Índigo. Um sistema fraco, sem muita proteção, ele conseguira fraudar uma identidade de treinador para si. Fizera o mesmo para os gêmeos depois. Cada um tinha suas motivações. Para Dante era o fim da Equipe Rocket. Para os gêmeos Tomoki e Kousei era um jeito de fugirem de seus captores e encontrar o irmão caçula.

Pecados antigos projetam sombras longas.

Era o que tia Ariana dizia quando ele ainda era apenas mais um recruta de uniforme branco que nem em missões podia sair ainda. Dizia isso com um sorriso torto, como se se orgulhasse. Ela acreditava em legado, em sangue, no peso da herança. Em crianças transformadas em monstros a partir dos treinamentos mais hediondos e inumanos.

Archer, o atual líder da organização, queria que Dante se tornada a imagem cuspida e escarrada de Giovanni. Ariana, a irmã malvada de sua mãe, queria também. Sird, sua madrinha, também desejava isso. Afinal, ele era o herdeiro do legado imundo do pior vilão que pisara em Kanto e desestabilizou uma região por muito pouco.

Mas ele... ele não era o retrato esculpido de Giovanni. Ele não desejava isso. E, por isso, ele era visto como fraco. Fraco demais para não passar nos testes. Fraco demais ao ponto de virar apenas mais um brinquedinho para Próton em sua teia lasciva.

Ele sentiu uma bile podre e amarga subir a garganta.

Seus braços se apertaram instintivamente em torno do corpo menor de Tomoki enquanto caíam, sua respiração curta e presa no peito. O abismo o esmagava, não apenas fisicamente, mas como se o peso de tudo que havia feito o corroesse por dentro, como ácido atravessando uma folha de metal enferrujado.

Ele ergueu o pescoço e avistou um dos gêmeos loiros que estiveram com Lyra e os outros. Qual era o nome dele mesmo? Começava com "K". Kassidy? Não, não soava certo. Kaspian? Ainda errado. Kessil. Isso, Kessil. Ele se lembrou.

O garoto parecia inconsciente, provavelmente desmaiado com o choque de ser lançado naquele abismo. Um arrepio de pânico deslizou pela espinha de Dante como um fio de gelo. Ele precisava fazer alguma coisa. Precisava salvar aquele garoto. Precisava salvar Tomoki. Precisava também, de algum modo, salvar a si mesmo.

Movido por um impulso desesperado, ele puxou a Pokébola de Bayleef e a lançou ao ar. O Pokémon saurópode irrompeu no ar em meio à queda, ainda exausto da batalha anterior contra o Croconaw de Lyra, mas atento e ferozmente leal.

— Bayleef! Use seus cipós! Agarre uma daquelas estalagmites e depois nos pegue! — gritou, sua voz rasgando o vazio como um sinal desesperado de salvação.

Ainda em queda, o Pokémon obedeceu. Das folhas ao redor de seu pescoço, um par de cipós verdes disparou, enrolando-se firmemente ao redor de uma estalagmite pontiaguda que emergia do chão da caverna. Outro par de cipós se lançou logo em seguida, agarrando Silver, Tomoki e Kessil no ar, segurando-os com firmeza enquanto Bayleef os descia suavemente até o solo da caverna.

Já no chão, Dante repousou cuidadosamente o corpo desacordado de Kessil ao lado de Tomoki. Voltou-se para observar Bayleef, que descia com cuidado das alturas rochosas. O Pokémon sauriano se aproximou, ofegante, mas ainda alerta. Dante ajoelhou-se e acariciou sua cabeça em um gesto silencioso de gratidão.

Mesmo tendo o roubado do laboratório do Professor Elm apenas algumas semanas antes, quando ainda era um Chikorita, o laço entre eles já era inegável. Bayleef se tornara um de seus MVPs em batalha. Se Sneasel era seu ás, Bayleef era a carta coringa: o elemento surpresa capaz de virar o jogo.

Ele se acocorou ao lado de Tomoki, observando atentamente seu rosto pálido. O choque da queda havia deixado tanto ela quanto o gêmeo Wehrii inconscientes. Provavelmente acordariam logo, mas ao lançar outro olhar para Bayleef, uma ideia começou a brotar em sua mente.

Ele se lembrou de algo, talvez lido em uma revista ou visto em um documentário na TV de Mahogany. Bayleef eram frequentemente usados por boticários e herbalistas em práticas de aromaterapia. A linha evolutiva de Chikorita podia emitir compostos químicos diversos a partir das folhas em volta do pescoço e no topo da cabeça. Dependendo da composição, esses aromas podiam revigorar, acalmar, ou, em casos de autodefesa, envenenar ou paralisar os oponentes.

Muitos treinadores ignoravam essa linha evolutiva na hora de escolher seu inicial. Alguns preferiam Cyndaquil por sua força e pelas chamas vistosas, uma escolha popular, especialmente entre garotos, atraídos pela aparência feroz e flamejante de Typhlosion. Outros escolhiam Totodile, sabendo que, ao evoluir para o musculoso e ameaçador Feraligatr, chamaria atenção e impunharia respeito.

Chikorita? Também era popular, mas principalmente entre garotas, encantadas com sua aparência delicada e graciosa. A maioria dos garotos torcia o nariz para um Pokémon "fraco" e "fofinho". E para piorar, a sequência de ginásios em Johto não facilitava a vida de quem escolhia Chikorita como inicial.

Mas Dante não se importava com essa bobagem superficial.

Não havia nada de errado em escolher um Pokémon pela aparência. Mesmo a flor mais delicada podia esconder os espinhos mais afiados ou o veneno mais letal. Ele se lembrava da estufa subterrânea da sede da Equipe Rocket, repleta de flora bioengenheirada: roseiras com espinhos afiados como lâminas, tulipas negras cujo pólen podia derrubar um homem adulto, berries e apricorns geneticamente modificadas e tão tóxicas que não sobreviveriam em nenhum outro lugar do mundo. Dionéias capazes de arrancar o braço de um homem com uma única mordida. Raflésias do tamanho de pneus de caminhão, pulsando como corações venenosos. Plantas saídas dos pesadelos de qualquer botânico.

Ele via em Chikorita, agora um Bayleef, uma força indomável, tal como as plantas da estufa, algo que desafiava expectativas. Assim como ele.

Ele não era apenas o filho de Giovanni. Não era apenas o herdeiro do império criminoso da Equipe Rocket. Ele era alguém com vontade própria. E derrubaria aquela organização até que não sobrasse pedra sobre pedra.

Dante não acreditava em Pokémon “inútil”. Todo Pokémon tinha potencial. Mesmo que escondido. Mesmo que subestimado. Treinaria Bayleef até que se tornasse o Meganium mais forte de toda Johto. E com ele, junto de Sneasel e dos outros parceiros,  destruiria a Equipe Rocket de dentro pra fora.

— Bayleef... você consegue usar as folhas do seu pescoço pra liberar algo que os acorde? — perguntou, em um sussurro quase reverente.

O Pokémon sauriano o olhou por um momento e então assentiu suavemente.

Uma tênue névoa avermelhada começou a emanar das folhas ao redor do pescoço do Bayleef. Espalhou-se pelo ar úmido e subterrâneo como um sopro quente contra o frio da caverna.

O cheiro era forte e complexo. 

Especiarias, pensou Dante. Canela. Louro. Pimenta-do-reino. Hortelã-pimenta. Gengibre. Um toque de açafrão. Um pot-pourri pungente que tornava o ar quase palpável, ardendo suavemente na garganta.

Aquilo lhe trouxe à memória a cozinha de seu avô em Silver Town. Costumava se esconder na despensa quando brincava de esconde-esconde com seu primo e os filhos dos funcionários. Essa lembrança parecia vir de outra vida.

Tomoki foi a primeira a se mexer.

Ela gemeu baixinho, os dedos se contraindo, enquanto os olhos se abriam aos poucos, confusos e desorientados. Lentamente, sentou-se e esfregou os olhos. A respiração estava irregular, mas firme. Olhou ao redor, desnorteada, até seus olhos pousarem em Dante.

— O-onde... onde a gente tá? — perguntou com a voz fraca e rouca. — Cadê... cadê meu irmão?

Antes que Dante pudesse responder, Kessil também começou a recobrar os sentidos. Os dedos do garoto loiro se fecharam levemente, a testa franzida enquanto o aroma picante invadia seus pulmões. Ele arfou e se sentou com um sobressalto.

— O quê…?! — Olhou ao redor, assustado. O pânico ainda estava presente em seus olhos. — Onde... o que aconteceu?!

— Você caiu, — respondeu Dante, com a voz calma, porém firme. — Todos nós caímos. Foi uma armadilha. O chão cedeu embaixo do anfiteatro.

Ambos respiravam com dificuldade, tentando processar o que acabara de acontecer. Tomoki olhou ao redor mais uma vez, agora com mais atenção, os olhos mais lúcidos, mais analíticos.

— Esse lugar… — murmurou, — não parece mais com as Ruínas.

Dante assentiu. As paredes da câmara eram mais escuras, mais irregulares. Nenhum sinal dos símbolos dos Unown ou dos mosaicos, apenas rochas cruas e estalactites estranhas que brilhavam fracamente, cobertas por musgos e cogumelos bioluminescentes.

— Não. Seja onde for, é mais profundo.

Kessil olhou para o Bayleef, que permanecia próximo, ainda exalando aquela névoa herbal delicada.

— Foi seu Bayleef, não foi? — perguntou. — Ele nos salvou.

Dante assentiu com um gesto breve.

— Foi ele.

Tomoki soltou um suspiro trêmulo e estendeu a mão, tocando gentilmente a cabeça do Bayleef.

— Obrigada…

O Pokémon emitiu um som suave e satisfeito.

O silêncio se instalou por um momento, rompido apenas pelo som distante da água pingando e ecoando pela câmara. Ao longe, o bater de asas de Zubats e Golbats. Mais adiante, o borbulhar abafado de um rio subterrâneo.

— É melhor a gente começar a andar, — disse Dante por fim.

— Mas seus Pokémon... eles estão fora de combate, — interveio Tomoki. — Será que não podemos parar e curar eles? Acho que tenho alguns remédios na mochila…

— Não precisa fazer isso agora, — Dante interrompeu, levantando a mão antes que ela abrisse a mochila. — Precisamos encontrar os outros. O Aleks. Seu irmão.

Tomoki baixou o olhar. Seus lábios se curvaram numa expressão amarga. Estava consumida de preocupação; à luz fraca do subsolo, seus olhos dourados pareciam uma poça de água turva.

— Estou preocupado com o Orion, — disse Kessil em voz baixa. — Sei que você também está preocupada com seus amigos. — Ele hesitou por um instante. — Eu não deveria confiar num ladrão de Pokémon... mas agora, você é a única pessoa que parece entender o que está acontecendo.

Dante não respondeu. Apenas voltou o olhar para a escuridão à frente, onde o túnel se abria como uma garganta, pronto para engoli-los de novo.

— Vamos encontrar eles, — disse ele. — E sair desse buraco do inferno juntos.



Ren

Subterrâneo das Ruínas de Alph, Johto


Ren não conseguiu evitar o arrepio que subia por sua espinha enquanto avançavam pelos túneis estreitos. As paredes os envolviam, quase enclausurando-os de tão sufocantes e estreitas que eram. Elas eram cobertas de olhos estranhos que pareciam acompanhar cada passo. Os Unown estavam por toda parte, com aquele olhar indecifrável entalhado na rocha. Era sufocante e sinistro, mas o que mais o incomodava não eram as inscrições antigas.

Era o homem à frente deles: Dr. Benjamin Brandon.

O excêntrico arqueólogo galariano avançava com a pompa de um ator teatral em noite de estreia. Seu Bronzor flutuava silenciosamente ao lado, sua superfície metálica emitiam um brilho tênue, e os olhos lançavam uma luz amarelada pálida que dançava nas paredes como luz de vela. Fazia o corredor parecer ainda mais frio, mais assombrado.

Atrás deles, Khoury praticamente vibrava de empolgação, completamente imune à atmosfera opressora. O estagiário rabiscava furiosamente em seu caderno estufado, falando tão rápido que parecia tropeçar nas próprias palavras.

— Esses segmentos das ruínas são fascinantes! Parece ser uma fusão arquitetural das civilizações Alph Primeira e Segunda, — murmurava, ajustando os óculos na ponte do nariz. — Doutor Brandon, o senhor já considerou as implicações sociopolíticas da divergência da escrita glífica Unown entre as duas épocas? Eu li uma tese que…

— Meu caro rapaz, — interrompeu Brandon, até ele parecia impaciente àquela altura, seu sotaque mudava de entonação. O arqueólogo já estava cheio àquela altura. — faça o favor de conter-se um pouco, sim? É uma coisa ser entusiasmado, outra coisa é essa verborragia prolixa. Guarde as dissertações para quando realmente encontrarmos algo que valha a pena debater.

Ren revirou os olhos com tanta força que até doeu. Estava exausto. Estava irritado. Estava morto de preocupação pelos amigos. Ainda não sabia o que tinha acontecido com eles quando caíram pela armadilha no anfiteatro. Teriam sobrevivido à queda? Estariam feridos? Ou pior…

Ele tentou não pensar muito nisso, apenas olhou para Khoury à frente. Ele não parava de falar.

— Juro que vou estrangular esse nerd com o próprio caderno, — murmurou entre dentes.

— Não acho que isso seja eficaz — diz Luca que caminhava ao seu lado. — Mas, por Ho-Oh, alguém faz aqueles dois calarem a boca?

— Logo à frente, — anunciou Brandon. — Se os meus cálculos estiverem corretos, e geralmente estão, estaremos prestes a atravessar o corredor interior que levava diretamente à Tumba de Alphæus, o Rei Sem Estrelas. Selada por milênios, esquecida pelo tempo... e em breve descoberta por nós. Imaginem! Uma descoberta que fará qualquer escavação parecer um castelo de areia!

Ren soltou um riso seco e sem humor.

— Eu não queria descobrir nada — ele disse. — Eu não sou explorador nem nada.

— Muito menos eu, — murmurou Luca, apertando a incubadora contra o peito. — Só quero meu irmão de volta. Quero a Lyra de volta. Quero sair deste lugar de merda se não for incômodo.

Dr. Brandon virou-se lentamente, girando nos calcanhares com uma pose ensaiada. Suas mãos enluvadas se entrelaçaram atrás das costas enquanto ele observava os dois adolescentes com a paciência de um diretor escolar falando com alunos indisciplinados.

— Oh, Luca, my laddie. E você, Ren, — disse com um tom professoral e paciente. — Talvez não se vejam como exploradores, mas a história raramente espera por quem se vê assim. Ela escolhe suas testemunhas sem se importar com sua prontidão. E vocês, meus companheiros relutantes, foram escolhidos. Que... fortuito, não é?

Colocou uma mão dramática sobre o peito, seu monóculo brilhava à luz de seu Bronzor.

— Agora, firmem o passo. Avante, my young’uns. O que quer que esteja além desses túneis poderá muito bem mudar o curso da arqueologia como a conhecemos.

Ele se virou com um gesto abrupto, a capa esvoaçando, e retomou sua marcha decidida.

Ren soltou um longo suspiro frustrado e lançou um olhar a Luca. Ambos não tinham muita escolha a não ser seguir aqueles dois pelos túneis a frente que só se estreitavam ainda mais.

Guiados pelo brilho pálido de Bronzor, o grupo logo chegou diante de uma colossal porta de pedra negra.

À primeira vista, parecia vidro vulcânico. Mas, ao se aproximarem, Ren percebeu algo profundamente errado: suspensas dentro da rocha estavam o que pareciam ser galáxias fossilizadas: estrelas aprisionadas em âmbar, como insetos em resina antiga. Poeira estelar cristalizada, congelada numa única e contínua placa sólida.

Inscrições em Unown cobriam a superfície em anéis concêntricos, como as órbitas de um sistema planetário... ou os mecanismos de um relógio. Dava até para imaginar a dentição das engrenagens.

Brandon se aproximou com reverência, deslizando os dedos enluvados sobre as marcas. Enrolou a ponta do bigode e soltou um baixo e pensativo:

— Hmm…

— Essa porta é esquisita… — murmurou Luca, passando a mão pela superfície gélida. — Parece pedra… mas não é pedra. Que bizarro.

— Porque não é exatamente pedra, meu caro — respondeu Brandon, mal contendo o entusiasmo. — A substância diante de nós não é nativa da nossa dimensão. Encontrei fragmentos dela, raros, infelizmente, durante minhas expedições às Ruínas de Solaceon, em Sinnoh, e às Câmaras de Tanoby, nas Ilhas Sevii. Os antigos tinham muitos nomes para esse material…

— Ah! Eu li sobre isso num dos livros do Dr. Longfellow Hale! — interrompeu Khoury, os olhos brilhando por trás dos óculos grossos. — E também num artigo da Professora Burnet sobre materiais extradimensionais! É mnamita, certo? Vem de mneme, que significa “memória”! Foi assim que os Alph a chamavam nos registros recuperados… também a chamavam de “estrelas de outro céu” e “pedra dos desejos”. Uma das lendas dizia que os Alph a encontraram pela primeira vez quando conheceram “os Olhos”.

Os Olhos? — repetiu Ren, franzindo a testa.

— Outro nome para os Unown — explicou Brandon, com um leve aceno de cabeça.

Ren estremeceu. Claro que tinha que ser os Unown. Ele não cansava de se sentir desconfortável com a presença daqueles Pokémon. E tudo que vira até então eram apenas os hieróglifos... nenhum deles de verdade. Graças a Arceus. Aliás, ele não queria encontrar um Unown de verdade tão cedo.

— De acordo com uma antiga lenda Alph, houve um tempo em que esta região foi assolada por uma seca desoladora — começou a explicar o arqueólogo. — Pessoas e Pokémon sofriam; a lavoura não vingava; medidas extremas eram tomadas. Um dia, um garoto e seu Nidoran saíram para buscar água para a mãe e os irmãos. No percurso, acabaram caindo numa fenda no chão rachado pela seca.

“O garoto e seu Nidoran não caíram numa mera fenda. Eles haviam caído numa fissura entre o sonho e o despertar. Um mundo onde o em cima era embaixo, a esquerda era a direita, e nada fazia sentido. Um mundo onde os Olhos do Primeiro que Veio, Avalokiteshvara, habitavam.

“Vendo o desejo dele, lendo seu coração e sua alma, eles o ofereceram uma escolha e, com este poder, ele trouxe as chuvas para as terras secas, ele havia se tornado assim como os Olhos. Um óculo de Avalokiteshvara. E, quando ele retornou à sua terra natal, foi coroado como um rei entre seu povo. Os Olhos passaram a ser celebrados como figuras divinas, já que os antigos deuses haviam abandonado os Alph.”

Fez-se uma pausa.

Um brilho estranho cruzou os olhos de Brandon enquanto ele deslizava a mão enluvada pela superfície escura e estelar da porta.

— É só uma história, claro — disse, tentando soar cético, embora sua voz traísse reverência. — Mas essa lenda guarda mais verdade do que parece. Há poucos anos, uma professora da região de Alola teorizou que os Unown não são nativos da nossa realidade... mas de uma outra, paralela à nossa. Segundo o mito, o garoto caiu naquilo que hoje chamamos de Dimensão Unown.

Brandon suspirou.

— Nenhum humano jamais confirmou ter estado lá… ou pelo menos assim acreditávamos, até interpretarmos esse mito décadas após as tábuas de Alph terem sido traduzidas — continuou. — Os Unown e os Alph tinham uma ligação, sabe? E, por meio dessa conexão, os Alph ergueram uma civilização muito além do que sua era permitiria. Eles tinham acesso a uma tecnologia e a uma fonte de energia que nenhum de seus contemporâneos poderia sequer sonhar: a mnamita. Um minério que só existia em abundância na dimensão dos Unown.

Ren e Luca trocaram olhares. O ar parecia mais pesado. Mais frio. Brandon tocou a rocha de leve, alisando-a, admirando seu reflexo na superfície cristalizada e furta-cor.

— Apenas uma outra cultura conhecida rivalizava com esse avanço tecnológico — continuou. — No extremo norte, nas terras congeladas da antiga Hisui: os Celestica.

— Oh, já ouvi falar deles — comentou Khoury. — Não li muita coisa, mas nos registros que o Dr. Longfellow Hale traduziu, ele fala de um encontro entre os Alph e um povo do norte. Nos textos, eles são apenas referidos como “Nortenhos” ou “Rebanho d’O Modelador do Mundo”. Foi só numa edição futura que se fez a associação com os Celestica.

— Bem, o que procuro está relacionado a esse elo entre os Celestica e os Alph — disse Brandon, colocando a mochila no chão e começando a remexer entre seus apetrechos. — E é através do rei Alphaeus e de sua tumba que estarei próximo de conseguir isso.

Ren arregalou os olhos quando viu o que Brandon tirou de dentro da mochila.

Era um aparelho parecido com um telefone celular daqueles bem antigos, da época da adolescência de seus pais. Um bloco robusto, com teclas grandes e uma antena retrátil. Na ponta da antena havia um pedaço de mnamita lapidado. O cristal brilhava e zumbia com uma vibração aguda e intermitente como luzes de Natal piscando em código morse.

Brandon se aproximou da porta e apertou um dos botões de seu aparelho e a rocha da porta ressoou, brilhando no mesmo tom do cristal da antena. Sons de engrenagens girando fizeram os círculos concêntricos de inscrições se moverem. Os Unown entalhados começaram a brilhar, seus olhos brilharam em vermelho o que fez Ren sentir um arrepio forte na espinha.

A porta se abriu e no corredor escuro tudo que era possível ver eram as formas dos Unown — os de verdade, não os hieróglifos das paredes — moverem-se. Todos os estranhos Pokémon ciclopes encararam os quatro ali e como um enxame de insetos, eles escaparam desenfreadamente, flutuando sem rumo como se ansiassem pela liberdade.

Ren assustou-se, assim como Luca que teve como primeiro instinto abaixar-se e proteger o ovo dentro da encubadora que carregava. Khoury se jogou no chão, tapando a cabeça. Já Benjamin Brandon ele ficou parado e sorriu, mesmo quando a maré de Unown vinha em sua direção, enquanto segurava seu aparato estranho em mãos.

Ele girou uma válvula e apertou um botão como quem sincronizava um rádio na estação correta e logo os Unown, desesperados, como se hipnotizados, pararam e ficaram estáticos no ar. Ren sentiu um zumbido percorrer seus tímpanos, como um diapasão vibrando dentro de sua cabeça.

O garoto observou os Unown. Os estranhos Pokémon com aqueles olhos enervantes pareciam congelados no ar. Seus corpinhos suspensos e sem peso à mercê de um mero apertar de botão, o girar de uma válvula. Dr. Brandon girou outra válvula e o som agudo que tinia nos ouvidos de Ren mudou e os Unown começaram a girar em torno de Brandon como um cinturão de asteroides no entorno de um planeta.

— Uau — diz Khoury, impressionado, Ren queria dar um pescoção naquele garoto àquela altura. — Que incrível isso. Que aparelho é esse, Dr. Brandon? Nunca vi nada parecido. Aliás, nunca vi nada que controle os Unown. Geralmente ninguém se interessa por esses bichos.

O arqueólogo deu um sorriso tacanho e ávido.

— Este, meu caro, Khoury é meu Neo Reticulador — disse o cientista com grande fascínio. — Há alguns anos foi sugerido por um estudo conjunto de que os Unown se comunicavam através de alguma forma de onda de comprimento, possivelmente ondas de rádio, eletromagnéticas ou por telepatia, mas nada conseguia replicar e toda a tentativa acabava resultando em falhas técnicas dos aparelhos medidores.

— Uh, eu já li isso — disse Khoury.

Era claro que Khoury havia lido. O que esse nerdola não tinha lido na sua vida àquela altura? Talvez o ambiente.

— Eu li esse artigo do Professor Carvalho em coautoria com o Professor Rowan e Mr. Pokémon na Goldenrod Tech antes de vir estagiar com o Professor Spencer Hale. Falava sobre a documentação dos Unown para as Pokédexes regionais de Johto e Sinnoh — continuou Khoury. — As Universidades de Celadon, Goldenrod e de Jubilife rejeitaram o estudo já que não tinha provas registradas. Parece que muito do equipamento deu pane na hora e as gravações e registros se perderam.

— Sim, foi este artigo que me motivou a construção do meu Neo Reticulador — ele se gabou. — Desde que comecei minhas investigações sobre os Unown nas Ilhas Sevii anos atrás, motivado pelos estudos e pelos artigos feitos sobre esta estranha espécie, eu me senti motivado a continuar de onde Carvalho e seus colegas falharam. Quando eu descobri a mnamita em uma escavação, por Arceus, tudo mudou.

Luca e Ren olharam de soslaio para o arqueólogo e para o estagiário. Toda aquela conversa parecia estranha.

— Meu Neo Reticulador reorganiza as frequências de rádio e as reticula por meio do cristal na antena em uma frequência próxima, senão igual a dos Unown — ele diz com um largo sorriso. — Isso me permite controlá-los. Brilhante, não?

Ele apertou outro botão e mais um diapasão ressoou dentro da cabeça de Ren que soltou um gemido de dor lancinante, segurando a fronte da testa. Seu corpo quase que desequilibrou. Como os outros não escutavam aquilo?

Os Unown que circundavam Brandon pararam de girar ao seu entorno e começaram a se reagrupar em um enxame organizado formando padrões como os hieróglifos nas paredes. Frases eram escritas, embora Ren não pudesse as ler. Ou pudesse…

Algo ressoou em sua cabeça de novo. Mais um diapasão agudo. Um lamiré que machucava seus tímpanos com um som quase inaudível.

Ele encarou as formas dos Unown e percebeu que seus corpos, agrupados, formavam palavras. Sentenças completas que, embora não estivesse em sua língua, ele conseguia ler de algum modo.


Uma vez houve um Rei que usava uma coroa feita com a luz das estrelas. No fim ele se tornou um Rei Sem Estrelas

Uma vez houve um Sábio que guiava um povo tocado pelo Primordial. No fim ele se tornou o Tolo, cegado por suas intenções.

Ambos eram orgulhosos e vaidosos. Acreditavam que podiam dominar o poder dos Mil Braços e tornar-se como o Primordial.

Ambos desejavam o divino, porém ambos eram profanos.

Além da serra de espinhos negros, nas terras geladas, jazem seu orgulho e sua queda.

Um altar de pedra, banhado em cataclismo. Um templo enclausurado na neve, esquecido pelos descendentes daqueles que o profanaram.

A lembrança do caos. Da noite eterna.

Terra esquecida. Terra amaldiçoada.

Sinjoh.


Ele piscou, os Unown se desarranjaram, as letras e a frase desembaralharam. Sua cabeça doía o que fez ele massagear as têmporas de imediato devido a tontura que sentiu após toda aquela enxurrada de informação.

Logo a frente dele, ele conseguia enxergar, de maneira turva, as figuras de Khoury e Dr. Brandon discutindo algo sobre o Neo Reticulador. O arqueólogo continuava a girar as válvulas e apertar os botões do aparelho, controlando os Unown da mesma forma que uma criança controlava um drone. A cada giro e aperto o cristal de mnamita brilhava, um diapasão guinchava agudo no cérebro de Ren piorando sua dor de cabeça.

— Ren-ren… — ele sentiu o toque da mão de Luca na sua pele. — Você está bem? Seu nariz…

— O que tem meu nariz? — indagou o garoto, mas antes que Luca pudesse responder ele sentiu o cheiro ferroso e o visco do sangue escorrendo. — Merda. Merda. Merda.

Ren levou a mão ao nariz e ergueu a cabeça. Ele geralmente não tinha sangramentos nasais tão repentinos assim, ele nem sentiu os vasinhos do nariz estourarem. Ele olhou de canto de olho e viu Benjamin Brandon controlando os Unown com seu reticulador.

— Venham, young’uns, já estamos no caminho para as catacumbas — disse o explorador galariano. — Estamos prestes a entrar na História. Finalmente todos estes anos de trabalho e exploração me renderão frutos. Finalmente terei meus louros…

Ren grunhiu baixo, o som abafado pela mão tapando a boca e as narinas. Ele removeu seu lenço do pescoço e enrolou na mão e usou isso para limpar o sangramento e a fleuma avermelhada pelo fluido. Ele queria descer um soco no rosto abigodado de Benjamin Brandon.

Ele e Luca, sem escolha, seguiram o arqueólogo e seu pequeno pupilo de óculos fundo de garrafa em direção ao túnel escuro iluminado apenas pelos olhos do Bronzor que flutuava mais a frente. Os Unown controlados por Brandon se dispersaram, flutuando a esmo pelas ruínas como se fugissem do explorador.

Caminhando mais alguns metros por aquela umbra o garoto não pôde deixar de sentir a cabeça lancinar um pouco, mesmo que o Neo Reticulador não estivesse sendo usado por Brandon no momento. A sensação ainda ecoava em seus tímpanos e na fronte da testa.

Eles continuaram caminhando por mais alguns metros de túnel até que pararam de repente diante de um grande par de portas de pedra maciças e tão altas que pareciam sumir no teto acima. Brandon parou diante das portas com os três adolescentes e disse:

— Parece que chegamos às catacumbas — disse com pompa em sua voz que ecoou pelo corredor. — Diante de vocês está a tumba do último rei da primeira civilização Alph: Alphæus, o Sem Estrelas.

Ren levou a mão ao nariz e ergueu a cabeça. Ele geralmente não tinha sangramentos nasais tão repentinos assim, ele nem sentiu os vasinhos do nariz estourarem. Ele olhou de canto de olho e viu Benjamin Brandon controlando os Unown com seu reticulador.

— Venham, young’uns, já estamos no caminho para as catacumbas — disse o explorador galariano. — Estamos prestes a entrar na História. Finalmente todos estes anos de trabalho e exploração me renderão frutos. Finalmente terei meus louros…

Ren grunhiu baixo, o som abafado pela mão tapando a boca e as narinas. Ele removeu seu lenço do pescoço e enrolou na mão e usou isso para limpar o sangramento e a fleuma avermelhada pelo fluido. Ele queria descer um soco no rosto abigodado de Benjamin Brandon.

Ele e Luca, sem escolha, seguiram o arqueólogo e seu carrapato de óculos fundo de garrafa em direção ao túnel escuro iluminado apenas pelos olhos do Bronzor que flutuava mais a frente. Os Unown controlados por Brandon se dispersaram, flutuando a esmo pelas ruínas como se fugissem do explorador.

Caminhando mais alguns metros por aquela umbra o garoto não pôde deixar de sentir a cabeça lancinar um pouco, mesmo que o Neo Reticulador não estivesse sendo usado por Brandon no momento. A sensação ainda ecoava em seus tímpanos e na fronte da testa.

Eles continuaram caminhando por mais alguns metros de túnel até que pararam de repente diante de um grande par de portas de pedra maciças e tão altas que pareciam sumir no teto acima. Brandon parou diante das portas com os três adolescentes e disse:

— Parece que chegamos às catacumbas — disse com pompa em sua voz que ecoou pelo corredor. — Diante de vocês está a tumba do último rei da primeira civilização Alph: Alphæus, o Sem Estrelas.

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